quinta-feira, 22 de julho de 2010

CAMILO PESSANHA




Camilo Pessanha foi um dos mais importantes poetas portugueses. Expoente máximo do Simbolismo, escreveu poemas e sonetos de grande qualidade rítmica e formal. 

Estudou direito na Universidade de Coimbra e viveu grande parte da vida em Macau. 

Apaixonado pela cultura chinesa, fez vários estudos e traduziu poetas chineses. A sua obra influenciou escritores como Fernando Pessoa ou Mário de Sá-Carneiro. Os seus poemas foram reunidos numa colectânea intitulada “Clepsidra”, considerado um dos melhores livros da poesia portuguesa.

Camilo Pessanha exerceu uma influência fundamental na poesia portuguesa - apesar da sua personalidade apagada e de fugir de todo o tipo de protagonismos. Com grande sensibilidade, escrevia sobre ideais inatingíveis e a inutilidade dos esforços humanos. 

Camilo de Almeida Pessanha nasceu em Coimbra em 7 de Setembro de 1867, fruto da ligação ilícita entre um aristocrata estudante de direito e uma criada. Começou o liceu em Lamego e acabou-o em Coimbra. Em 1891 formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Partiu, três anos mais tarde, para Macau, onde deu aulas de filosofia. 

Os seus poemas foram publicados, pela primeira, em 1899 - não devido aos esforços de Camilo Pessanha, mas dos amigos. Foram eles que os fizeram chegar às revistas literárias. Foi assim que se tornou uma referência para a geração de Orpheu, que tinha como figuras de proa Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. 

Camilo Pessanha fazia parte do Simbolismo, movimento proveniente de França e da Alemanha, que procurava expressar a realidade através de símbolos. A sua poesia era melancólica e pessimista, como podemos depreender num excerto de “Castelo de Óbidos”: “O meu coração desce, / Um balão apagado? / Melhor fora que ardesse, / Nas Trevas incendiado.” Em muitas das suas obras, mostrava uma tristeza absoluta e viscosa, de que era impossível fugir, como uma doença. A dor dilacerava. 

Em 1900 Pessanha ocupou a função de conservador do Registo Predial de Macau. Ao mesmo tempo, ia estudando a cultura chinesa. Aproveitou o conhecimento da língua para traduzir poemas de autores locais. 

Regressou algumas vezes a Portugal. Um dos seus melhores amigos era Alberto Osório de Castro, irmão da escritora e feminista Ana de Castro Osório. Pessanha apaixonou-se perdidamente por ela. Um amor não correspondido que durou a vida inteira. Ana de Castro Osório viria a ser uma das responsáveis pela publicação do primeiro livro de Pessanha: “Clepsidra”. 

Regressou a Macau onde acabou por morrer. O consumo diário de ópio provocou-lhe a morte em 1926. Camilo Pessanha revelou-se essencial para a poesia portuguesa. Sem ele, autores como Cesário Verde e Eugénio de Andrade não teriam encontrado um mestre.

Fonte: www.rtp.pt
Transcrevo abaixo alguns poemas do autor, todos retirados da excelente edição crítica de Clepsydra, organizada por Paulo Franchetti e publicada pela Unicamp, em 1994. Preservei a deliciosa ortografia original dos poemas.


POEMAS























PHONOGRAPHO

Vae declamando um comico defuncto,
Uma platea ri, perdidamente,
Do bom jarreta... E ha um odor no ambiente
A crypta e a pó, ̶  do anachronico assumpto.

Muda o registo, eis uma barcarola:
Lirios, lirios, aguas do rio, a lua.
Ante o Seu corpo o sonho meu fluctua
Sobre um paúl, - extatica corolla.

Muda outra vez: gorgeios, estribilhos
D’um clarim de oiro – o cheiro de junquilhos,
Vivido e agro! – tocando a alvorada...

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas
Quebrou-se agora orvalhada e velada.
Primavera. Manhã. Que efluvio de violetas!

(p. 114)


Leonilson


















 




[17]

Na cadeia os bandidos presos!
O seu ar de contemplativos!
Que é das feras de olhos acesos?...
Pobres de seus olhos captivos...

Passeiam mudos entre as grades.
Parecem peixes num aquario.
Campo florido das saudades,
Porque rebentas tumultuario?

Serenos. Serenos. Serenos.
Trouxe-os algemados a escolta...
Estranha taça de venenos,
Meu coração sempre em revolta!

Coração, quietinho, quietinho!
Porque te insurges e blasphemas?

Pss... Não batas... Devagarinho...
Olha os soldados, as algemas.

(p. 102)




Fuluda


























[52]

Ó cores virtuaes que jazeis subterraneas,
̶  Fulgurações azues, vermelhos de hemoptyse,
Represados clarões, chromaticas vesanias  ̶ ,
No limbo onde esperaes a luz que voz baptise.

     As pálpebras cerrae, anciosas não veleis.

Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,
Tão graves de scismar, nos boccaes dos museus,
E escutando o correr da agua na clepsýdra,
Vagamente sorris, resignados e atheus.

     Cessae de cogitar, o abysmo não sondeis.

Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,
Que toda a noite erraes, doces almas penando,
E as azas laceraes na aresta dos telhados,
E no vento expiraes em um queixume brando.

     Adormecei. Não suspireis. Não respireis.

(p. 151)























VIOLONCÉLO

             (A Carlos Amaro)

Chorae, arcadas
Do violoncelo,
Convulsionadas.
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos.
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio os barcos.

Fundas, soluçam
Caudaes de choro.
Que ruínas, ouçam...
Se se debruçam,
Que sorvedouro!

Lividos astros,
Soidões lacustres...
Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaustres!

Urnas quebradas.
Blocos de gelo!
Chorae, arcadas
Do violoncelo,
Despedaçadas...

(p.130-132)


Clóvis Graciano



AO LONGE OS BARCOS DE FLORES

               (A Ovídio de Alpoim)

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viuva, gracil, na escuridão tranquilla,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões scintilla
E os labios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viuva, gracil, na escuridão tranquilla.

E a orchestra?  E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detem. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem ha-de remil-a?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...

(p. 120)



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