DRUMMOND & PESSOA

          Obra de Ron Mueck, escultor hiper-realista australiano

Dois poetas precisos e preciosos, capazes de respirar poemas no ritmo pesado de um mundo que nos esmaga. Assustador o cansaço quando nos invade e nos ocupa com pretensões eternas, assumindo o comando do desmonte de nossas motivações. Um vento que sopra gestos de deserção em pelos e poros. 

O cansaço com ar de superioridade e olímpica indiferença, fantasma que traz a sua mobília escura e apodrecida para os aposentos íntimos, vedando até as áreas de escape. O cansaço com a capa de chumbo de seu peso lançada como capuz sobre o nosso rosto. O cansaço como a palavra que guarda a prostração infame, o curvar-se ao inevitável,  o apagamento dos sonhos. 

Os dois poemas agarraram o meu domingo pelos cabelos e espremeram meus limites. Amanhã eu renasço, porém hoje fui capturado pela teia insidiosa da exaustão absoluta.


O QUE HÁ EM MIM É SOBRETUDO CANSAÇO

Fernando Pessoa

O que há em mim é sobretudo cansaço  ‒
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas  ̶
Essas e o que faz falta nelas eternamente  ̶ ;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada ‒
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

(In: Poemas. Seleção e introd. de Cleonice Berardinelli. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 112-113.)


A HORA DO CANSAÇO

Carlos Drummond de Andrade

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
Dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
Numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto acre
Na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

(In: Corpo, 8ª. ed., Rio de Janeiro: Record, 1986, p. 39-40)

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