CLAUDIA ROQUETTE-PINTO

Eis sete poemas de Claudia Roquette-Pinto, todos extraídos desse extraordinário livro que é Corola. Anima feminina em tensa respiração lírica. Um jardim secreto onde alguém-mulher segreda ritmo envolvente entre dentro e fora. Um equilíbrio entre floração e queda. Poesia sedutora e alada, afiada em lâmina de porosidade e violência. Fina, refinadíssima, alma filtrada, infiltrada de budismo e beleza, Claudia levita e lanceta, flutua e alfineta. Poética do impossível gesto de abraçar densidade e rarefação.
As belíssimas ilustrações são de Margaret Mee.
























I

O dia inteiro perseguindo uma ideia:
vagalumes tontos contra a teia
das especulações, e nenhuma
floração, nem ao menos
um botão incipiente
no recorte da janela
empresta foco ao hipotético jardim.
Longe daqui, de mim
(mais para dentro)
desço no poço de silêncio
que em gerúndio vara madrugadas
ora branco (como lábios de espanto)
ora negro (como cego, como
medo atado à garganta)
segura apenas por um fio, frágil e físsil,
ínfimo ao infinito,
mínimo onde o superlativo esbarra
e é tudo de que disponho
até dispersar o sonho de um chão provável
até que meus pés se cravem
no rosto desta última flor.




II


Nada,
além do som do riacho
e do grilo, esfregando seu pedaço
de lixa no ar estreito,
alheio a outro som, quase inaudível,
que o coração abafa, em disparate
contra a paisagem, organizada e fria
 ̶   apesar de um sol que desafia a pele
a abandonar sua letargia
e põe insetos em outros trajetos
varando contra o rosto.
Agora a nuvem se encosta
no morro, cobre o olho impiedoso,
pai do meu desconforto.
Afago de asas, vento diminuto
paro e flagro o que aflora
(borboleta de Wordsworth,
mas bem mais que meia hora),
enquanto cascos se pisam
no céu que hesita entre a chuva e a indiferença.
Imóvel, vertiginosa,
de fora a dentro me inclino
(os clarões se aproximam)
rede em riste
sobre o rosto daquela flor
 ̶  a única que existe. 



III

                     a Novalis

Ainda úmidas sobre a folha,
orvalho escuro que pousa
na pele,
imperiosa e nua.
Mal desgarradas da pena,
cada pequena curva
tatua as ideias na superfície ácida.
Isto imagino,
se te vejo debruçado
sobre a mesa o penhasco
olhos anoitecidos
despencando no hiato das ventanias.
Isto, enquanto imprimo
os teus Hinos à Noite
nestas folhas ordinárias,
palavra por palavra coagulando
na brancura ininterrupta, saídas
da boca da máquina
como uma carta pela fenda da porta
duzentos anos mais tarde e
úmidas, ainda.





IV


O princípio da poesia
nas dobras de uma palavra
(viés de dulcíssima
rosa) onde pousa
o pólen do nada.
Fuso de prata que a mão,
submergindo,
ilude-se agarrar.
Rosto de relance
perdido(definitivo) na cidade,
na avalanche.
Ácido – má viagem.
Vertigem ciclotímica de anular-se.
Olho cego, surdo, mudo
de Dédalo,
enreda pétala a pétala o seu botão de fracasso.




V


Vencida pelo perfume das rosas,
partida
pela investida dos violinos em rasante
desequilibrando a sala,
partida
como um graveto estala
em algum recanto do corpo
e deflagra o que não se decifra.
Descida no curso de um susto
entremeado de vertigens
(a meia-pálpebra, o rosto dissimula)
nua, sem bússola ela emborca
mergulha
afunda
na delícia da derrota.





VI

              para Ana Teresa Jardim

A orla branca
de uma ideia
a curva exímia
da palavra
escorrega nessa seda séria
até a fava.
Que, dourada, se apruma
contra a mão, a rapina
do ar: antena
com que filtrar o insone?
Luz alçando em mera coragem
no encalço de tudo o que some?
O copo-de-leite
transborda a paisagem
e a consome.

 


VII


O torneado hábil das palavras
o dissonante vão das consoantes
não podem mais – nem por um instante –
buleversar o meu pequeno alento.
E já nem tento, ainda que fugaz
fosse o prazer no momento do encontro
satisfazer com tais materiais
minha volúpia pelo contratempo.
Abandonar o ritmo, eis tudo:
mudar de logradouro – ou de logro –
que isso de escrever é jogo
perdido de antemão, no mano a mano.
Mas sem ressentimento: o mais são nuvens,
e todos os poemas um engano.

Fonte: Corola. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.

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