segunda-feira, 31 de maio de 2010

EMILY DICKINSON


Emily Elizabeth Dickson nasceu em Amherst, Massachusetts, em 10 de dezembro de 1830. Começou seus estudos  numa escola local e, aos dezessete anos, se matriculou no Mount Holyoke Female Seminary, um colégio para moças que abandonou menos de um ano depois, alegando problemas de saúde. Após essa experiência, optou pela reclusão e foi então que começou a escrever. Publicou seu primeiro poema no periódico Springfield Republican.

Em uma das poucas viagens que realizou, a poeta apaixonou-se pelo reverendo Charles Wadsworth, um amor que nunca foi correspondido. Dickinson viveu grande parte da vida na casa paterna, em um quase isolamento físico, e enfrentou diversas crises depressivas. As pessoas mais próximas da poeta foram seus irmãos, Lavínia e Austin, e a mulher dele, Susan Gilbert, que além de amigos eram parceiros intelectuais. Emily morreu de nefrite, em 1886, praticamente desconhecida do público. Após seu falecimento, a família encontrou entre seus pertences mais de 1750 poemas, escritos a partir de 1850.

Todas as imagens são do pintor Manabu Mabe.

 SEVEN POEMS OF EMILY DICKINSON





I

I died for Beauty – but was scarce
Adjusted in the Tomb
When One who died for Truth, was lain
In an adjoining Room –

He questioned softly “Why I failed”?
“For Beauty”, I replied –
“And I – for Truth – Themself are One –
We Brethren, are”, He said –

And so, as Kinsmen, met a Night –
We talked between the Rooms –
Until the Moss had reached our lips –
And covered up – our names –

I

Morri pela beleza, mas estava apenas
No sepulcro acomodada
Quando alguém que pela verdade morrera
Foi posto na tumba ao lado.

Perguntou-me, baixinho, o que me matara:
“A  Beleza”, respondi.
“A mim, A Verdade – são ambas a mesma coisa,
Somos irmãos.”

E assim, como parentes que certa noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo,
Até que o musgo alcançou nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.

(Tradução de Ivo Bender)




II

Me from Myself – to banish –
Had I Art –
Impregnable my Fortress
Unto All Heart –

But since Myself – assault Me –
How have I peace
Except by subjugating
Consciousness?

And since We’re mutual Monarch
How this be
Except by Abdication –
Me – of me?

II

Banir a mim de mim mesma,
Tivera eu esse dom!
Inexpugnável fosse a minha fortaleza,
Ante toda audácia.

Uma vez, porém,, que eu mesma me assalto,
Como terei paz
A não se sujeitando
A consciência?

E desde que somos monarcas um para o outro,
Como poderei alcançá-lo
A não ser abdicando
De mim mesma?

(Tradução de Ivo Bender)

III

I felt a Funeral, in my Brain,
And Mourners to and fro
Kept treading – treading – till it seemed
That Sense was breaking through –

And when they all were seated,
A Service, like a Drum –
Kept beating – beating – till I thought
My Mind was going numb –

And then I heard them lift a Box
And creak across my Soul
With thosde same Boots of Lead, again,
Then Space – began to toll,

As all the Heaven were a Bell,
And Being, but an Ear,
And I, and Silence, some strange Race
Wrecked, solitary, here –

And then a Plank in Reason, broke,
And I dropped down, and own –
And hit a World, at every plunge,
And Finished knowing – then –




III

Senti exéquias em meu cérebro
E, agitando-se, carpideiras
A pisar o solo, a pisar
Até que o senso pareceu irromper.

E, quando todas se aquietaram,
De um rito, o tambor
Passou a ressoar e pensei
Que a minha mente entrava em torpor.

Ouvi então erguerem um esquife
E cruzarem a minha alma
Com as mesmas botas de chumbo a ranger;
O espaço começou a soar

Como se os céus um sino fossem
E o ser nada mais que um ouvido,
E eu e o silêncio, uma estranha raça
Aniquilada e solitária, aqui;

E logo uma tábua na razão quebrou-se
E fui caindo, caindo,
E, na queda, atingia mundos
E acabei por saber – então –

(Tradução de Ivo Bender)



IV

I dwell in Possibility –
A fairer House than Prose –
More numerous of Windows –
Superior – for Doors –

Of Chambers as the Cedars –
Impregnable of Eye –
And for an Everlasting Roof –
The Gambrels of the Sky –

Of Visitors – the fairest –
For Occupation – This –
The spreading wide my narrow Hands
To gather Paradise –

IV

Moro na possibilidade,
Casa mais bela que a prosa,
Com muito mais janelas
E bem melhor, pelas portas

De aposentos inacessíveis,
Como são, para o olhar, os cedros,
E tendo por forro perene
Os telhados do céu.

Visitantes, só os melhores;
Por ocupação, só isto:
Abrir amplamente minhas mãos estreitas
Para agarrar o paraíso.

(Tradução Ivo Bender)







V

The Heart has narrow Banks
It measures like the Sea
In mighty – unremitting Bass
And Blue Monotony.

Till Hurricane bisect
And as itself discerns
Its insufficient Area
The Heart convulsive learns

That Calm is but a Wall
Of unattempted Gauze
An instant’s Push demolishes
A Questioning – dissolves.

V

O coração tem bordas estreitas
E, feito o mar, se mensura
Por um poderoso baixo contínuo
E monotonia azul.

Até que um furacão o seccione
E, enquanto desco e
Seu insuficiente espaço
Aprende em convulsões

Que a calmaria é tão-só muralha
De intocada gaze:
A pressão de um instante a destrói,
Um questionamento a esgarça.

(Tradução de Ivo Bender)




VI

I had not minded – Walls –
Were Universe – one Rocks –
And far I heard his silver Call
The other side the Block –

I’d tunned – till my Groove
Pushed sudden thro’ to his –
Then my face take her Recompense –
The looking in his Eyes –

But’tis a single Hair –
A filament – a law –
A Cobweb – wove in Adamant –
A Batllement – of Straw –

A limit like the Veil
Unto the Lady’s face –
But every Mesh – a Citadel –
And Dragons – in the Crease –

VI

Muralhas não me impediriam,
Se fosse rocha o universe
E eu ouvisse sua voz de prata
A chamar do outro lado da pedra.

Cavaria até que meu túnel
Ao seu de repente chegasse,
Teria então minha recompensa –
Deter-me no seu olhar.

Mas existe um quase nada,
Um filamento, uma lei,
Teia em diamante urdida,
Ou palha trançada em ameia –

É um limite ao véu
Por sobre o rosto da dama –
Mas cada dobra é um fortim
Com dragões por entre a renda.

(Tradução de Ivo Bender)




VII

Death is a Dialogue between
The Spirit and the Dust.
“Dissolve” says Death – The Spirit “sir
I have another Trust” –

Death doubts it – Argues from the Ground –
The Spirit turns away
Just laying off for evidence
An Overcoat of Clay.

VII

A Morte é um Diálogo entre
A Alma e o Pó.
Diz a Morte “Some” – A Alma “Só
Me cabe ser Crente” –

A Morte – sob a Terra – clama.
Vai-se a Alma
Deixando o seu – prova cabal –
Manto de lama.

(Tradução de Augusto de Campos)

FONTES:  BENDER, Ivo. Poemas escolhidos / Emily Dickinson. Porto Alegre: L&PM, 2008.
                CAMPOS, Augusto de Campos. O anticrítico. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
               

SYLVIA PLATH
























Sylvia Plath nasceu em Boston, EUA, em 1932. Teve uma passagem melancólica por Nova York, tentou o suicídio por mais de uma vez, casou em 1956 com o poeta inglês Ted Hughes, foi com ele para Cambridge, Inglaterra. Teve dois filhos. Descasou em 1962, escreveu seus poemas capitais, publicados postumamente no volume Ariel (1965), sua obra mais importante. Dois anos antes, em 1960, lançara o seu primeiro livro, Colossus.
Em 11 de fevereiro de 1963, Sylvia Plath aos 30 anos de idade cometia suicídio inspirando gás na cozinha de sua residência.
Sobre a autora há mais informações na postagem intitulada Três poetas do barulho (Ver em Poetas Publicados), da qual constam os poemas Vento Quente e Canção da Jovem Louca.

Todas as imagens são obras de Iberê Camargo.

SETE POEMAS DE SYLVIA PLATH



WORDS

Axes
After whose stroke the wood rings,
And the echoes!
Echoes traveling
Off from the center like horses.

The sap
Wells like tears, like the
Water striving
To re-establish its mirror
Over the rock

That’s drops and turns,
A white skull,
Eaten by weedy greens.
Years later I
Encounter them on the road –

Words dry and riderless,
The indefatigable hoof-taps.
While
From the bottom of the pool, fixed stars
Govern a life.

PALAVRAS

Machados
Que batem e retinem na madeira,
E os ecos!
Ecos escapam
Do centro como cavalos.

A seiva
Mina em lágrimas, como a
Água tentando
Repor seu espelho
Sbre a rocha

Que cai e racha
Crânio branco,
Comido por ervas daninhas.
Anos depois eu
As encontro no caminho -

Palavras secas, sem destino,
Incansável som de cascos.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Governam uma vida.

(Tradução Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça)






ARIEL

Stasis in darkness.
Then the substanceless blue
Pour of tor and distances.

God’s lioness,
How one we grow,
Pivot of heels and knees! – The furrow

Splits and passes, sister to
The brown arc
Of the neck I cannot catch,

Nigger-eye
Berries cast dark
Hooks –

Black sweet blood mouthfuls,
Shadows.
Something else

Hauls me through air –
Thighs, hair;
Flakes from my heels.

White
Godiva, I unpeel –
Dead hands, dead stringencies.

And now I
Foam to wheat, a glitter of seas.
The child’s cry

Melts in the wall.
And I
Am the arrow.

The dew that flies
Suicidal, at one with the drive
Into the red

Eye, the cauldron of morning.

ARIEL

Estase no escuro.
E um fluir azul sem substância
Do penhasco e distâncias.

Leoa de Deus,
Nos tornamos uma,
Eixo de calcanhares e joelhos! - O sulco

Fende e passa, irmã do
Arco castanho
Do pescoço que não posso abraçar,

Olhinegras
Bagas cospem escuras
Iscas -

Goles de sangue negro e doce,
Sombras.
Algo mais

Me arrasta pelos ares -
Coxas, pelos;
Escamas de meus calcanhares.

Godiva
Branca, me descasco -
Mãos secas, secas asperezas.

E agora
Espumo com o trigo, reflexo de mares.
O rito da criança

Escorre pelo muro
E eu
Sou a flecha,

Orvalho que avança,
Suicida, e de uma vez se lança
Contra o olho

Vermelho, fornalha da manhã.

(Tradução Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça)





THE ARRIVAL OF THE BEE BOX

I ordered this, this clean wood box
Square as a chair and almost too heavy to lift.
I would say it was the coffin of a midget
Or a square baby
Were there not such a din in it.

The box is locked, it is dangerous.
I have to live with it overnight
And I can’t keep away from it.
There are no windows, so I can’t see what is in there.
There is only a little grid, no exit.

I put my eye to the grid.
It is dark, dark,
With the swarmy feeling of African hands
Minute and shrunk for export,
Black on black, angrily clambering.

How can I let them out?
It is the noise that appalls me most of all,
The unintelligible syllables.
It is like a Roman mob,
Small, taken one by one, but my god, together!

I lay my ear to furious Latin.
I am not a Caesar.
I have simply ordered a box of maniacs.
They can be sent back.
They can die, I need feed them nothing, I am the owner.

I wonder how hungry they are.
I wonder if they would forget me
If I just undid the locks an stood back and turned into a tree.
There is the laburnum, its blond colonnades,
And the petticoats of the cherry.

The might ignore me immediately
In my moon suit and funeral veil.
I am no source of honey
So why should they turn on me?
Tomorrow I will be sweet God, I will set them free.

The box is only temporary.

A CHEGADA DA CAIXA DE ABELHAS

Encomendei esta caixa de madeira
Clara, exata, quase um fardo para carregar.
Eu diria que é um ataúde de um anão ou
De um bebê quadrado
Não fosse o barulho ensurdecedor que dela escapa.

Está trancada, é perigosa.
Tenho de passar a noite com ela e
Não consigo me afastar.
Não tem janelas, não posso ver o que há dentro.
Apenas uma pequena grade e nenhuma saída.

Espio pela grade.
Está escuro, escuro.
Enxame de mãos africanas
Mínimas, encolhidas para exportação,
Negro em negro, escalando com fúria.

Como deixá-las sair?
É o barulho que mais me apavora,
As sílabas ininteligíveis.
São como uma turba romana,
Pequenas, insignificantes como indivíduos, mas meu deus, juntas!

Escuto esse latim furioso.
Não sou um César.
Simplesmente encomendei uma caixa de maníacas.
Podem ser devolvidas.
Podem morrer, não preciso alimentá-las, sou a dona.

Me pergunto se têm fome.
Me pergunto se me esqueceriam
Se eu abrisse as trancas e me afastasse e virasse árvore.
Há laburnos, colunatas louras,
Anáguas de cerejas.

Poderiam imediatamente ignorar-me.
No meu vestido lunar e véu funerário
Não sou uma fonte de mel.
Por que então recorrer a mim?
Amanhã serei Deus, o generoso – vou libertá-las.

A caixa é apenas temporária.

(tradução de Ana Cândida Perez e Ana Cristina César)























FEVER 103º

Pure? What does it mean?
The tongues of hell
Are dull, dull as the triple.

Tongues of dull, fat Cerberus
Who wheezes at the gate. Incapable
Of licking clean

The aguey tendon, the sin, the sin,
The tinder cries.
The indelible smell

Of a snuffed candle!
Love, love, the low smokes roll
From me like Isadora’s scarves, I’m in a fright

One scarf will catch and anchor in the wheel.
Such yellow sullen smokes
Make their own element. They will not rise,

But trundle round the globe
Choking the aged and the meek,
The weak

Hothouse baby in its crib,
The ghastly orchid
Hanging its hanging garden in the air,

Devilish leopard!
Radiation turned it white
And killed it in an hour.

Greasing the bodies of adulterers
Like Hiroshima ash and eating in.
The sin. The sin.

Darling, all nigh
I have been flickering, off, on, off, on.
The sheets grow heavy as a lecher’s kiss.

Three days. Three nights.
Lemon water, chicken
Water, water make me retch.

I am too pure for you or anyone
Your body
Hurts me as the world hurts God. I am a lantern –

My head a moon
Of Japanese paper, my gold beaten skin
Infinitely delicate and infinitely expensive.

Does note my heat astound you. An my light.
All by myself I am a huge camellia
Glowing and coming and going, flush on flush.

I think I am going up,
I think I may rise –
The beads of hot metal fly, and I, love, I

Am a pure acetylene
Virgin
Attended by roses,

By kisses, by cherubim,
By whatever these pink thins mean.
Not you, nor him

Not him, nor him
(My selves dissolving, old whore petticoats) –
To Paradise.

40 GRAUS DE FEBRE

Pura? Que vem a ser isso?
As línguas do inferno
São baças, baças como as tríplices

Línguas do apático, gordo Cérbero
Que arqueja junto à entrada. Incapaz
De lamber limpamente

O febril tendão, o pecado, o pecado.
Crepita a chama.
O indelével aroma

De espevitada vela!
Amor, amor, escassa a fumaça
Rola de mim como a echarpe de Isadora, e temo

Que uma das bandas venha a prender-se na roda.
A amarela e morosa fumaça
Faz o seu próprio elemento. Não irá alto

Mas rolará em redor do globo
A asfixiar o idoso e o humilde,
O frágil

E delicado bebê no seu berço,
A lívida orquídea
Suspensa do seu jardim suspenso no ar,

Diabólico leopardo!
A radiação faz que ela embranqueça
E a extingue em uma hora.

Engordurar os corpos dos adúlteros
Tal qual as cinzas de Hiroshima e corroê-los.
O pecado. O pecado.

Querido, a noite inteira
Eu passei oscilando, morta, viva, morta, viva.
Os lençóis opressivos como beijos de um devasso.

Três dias. Três noites.
água de limão, canja
Aguada, enjoa-me.

Sou por demais pura para ti ou para alguém.
Teu corpo
Magoa-me como o mundo magoa Deus. Sou uma lanterna —

Minha cabeça uma lua

De papel japonês, minha pele de ouro laminado
Infinitamente delicada e infinitamente dispendiosa.

Não te assombra meu coração. E minha luz.

Eu sou, toda eu, uma enorme camélia
Esbraseada e a ir e vir, em rubros jorros.

Creio que vou subir,

Creio que posso ir bem alto —
As contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu

Sou uma virgem pura

De acetileno
Acompanhada de rosas,

De beijos, de querubins,

Do que venham a ser essas coisas rosadas.
Não tu, nem ele

Não ele, nem ele
(Eu toda a dissolver-me, anágua de puta velha) —
Ao Paraíso.

(tradução de Afonso Félix de Souza)




MIRROR

I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only truthful –
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.

ESPELHO

Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.

Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.

(tradução de Vinicius Dantas)




STILLBORN

These poems do not live: it’s a sad diagnosis.
They grew their toes and fingers well enough,
Their little foreheads bulged with concentration.
If they missed out on walking about like people
It wasn’t for any lack of mother-love.

O I cannot understand what happened to them!
They are proper in shape and number and every part.
They sit so nicely in the pickling fluid!
They smile and smile and smile and smile at me.
And still the lungs won’t fill and the heart won’t start.

They are not pigs, they are not even fish,
Though they have a piggy and a fishy air –
It would be better if they were alive, and that’s what they were.
But they are dead, and their mother near dead with distraction,
And they stupidly stare, and do not speak of her.

NATIMORTO

Estes poemas não vivem: triste diagnóstico.
Seus pés e mãos já cresceram o normal,
As testinhas enrugaram, de concentração.
Se não se perdem ou passeiam como gente
Não foi por falta de amor maternal.

Ó, não posso entender o que há com eles!
São exatos em número, forma e partes.
Ficam tão lindos curtindo como picles!
Ficam sorrindo e sorrindo e sorrindo pra mim.
Mas os pulmões não enchem e o coração não bate.

Não são porcos, nem mesmo peixes,
Embora o ar de porco e peixe que os revela –
Quem dera fossem vivos, como um dia foram.
Mas estão mortos, e sua mãe quase morta de descaso,
Encaram como estúpidos, e não falam dela.

(Tradução Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça)





EDGE

The woman is perfected.
Her dead

Body wears the smile of accomplishment,
The illusion of a Greek necessity

Flows in the scrolls of her toga,
Her bare

Feet seem to be saying:
We have come so far, it is over.

Each dead child coiled, a white serpent,
One at each little

Pitcher of milk, now empty.
She has folded

Them back into her body as petals
Of a rose close when the garden

Stiffens and odors bleed
From the sweet, deep throats of the night flower.

The moon has nothing to be sad about,
Staring from her hood of bone.

She is used to this sort of thing.
Her blacks crackle and drag.

AUGE

A mulher está perfeita.,
Morto,
Seu corpo mostra um sorriso de satisfação,
a ilusão de uma necessidade grega.

Flui pelas dobras de sua toga,
Nus, seus pés

Parecem nos dizer:
Fomos tão longe, é o fim.

Cada criança morta, uma serpente branca
Em volta de cada

Vasilha de leite, agora vazia.
Ela abraçou

Todas em seu seio como pétalas
De uma rosa que se fecha quando o jardim

Se espessa e odores sangram
Da garganta profunda e doce de uma flor noturna.

A lua não tem nada que estar triste,
Espiando tudo de seu capuz de osso.

Ela já está acostumada a isso.
Seu lado negro avança e draga.

(Tradução Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça)

domingo, 30 de maio de 2010

PEDRO TAMEN


 Pedro Tamen nasceu em Lisboa, em 1934 e estudou Direito na Universidade de Lisboa. Entre 1958 e 1975 foi director da Editora Moraes e depois, até 2000 (data em que se retirou da actividade profissional), administrador da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi também dirigente cineclubista, professor do ensino secundário e director-adjunto de uma revista de actualidades. Fez crítica literária no semanário Expresso. Foi presidente do P.E.N. Clube Português (1987-90). Foi membro da Direcção e presidente da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores. Tem poemas traduzidos e publicados em francês, inglês, espanhol, italiano, alemão, neerlandês, sueco, húngaro, romeno, checo, eslovaco, búlgaro e letão.

Tem desenvolvido uma intensa actividade de tradutor literário e obteve em 1990 o Grande Prémio da Tradução. Foi duas vezes finalista do Prémio Europeu de Tradução. Traduziu recentemente À la Recherche du temps perdu, de Marcel Proust.

A sua obra poética, iniciada em 1956 com Poema para Todos os Dias (Ed. do Autor, Lisboa) encontra-se reunida em Retábulo das Matérias (Gótica, Lisboa, 2001). Posteriormente, em 2006, publicou um novo livro Analogia e Dedos e, em 2010, O Livro do Sapateiro. Em 1999 foi publicado um disco-antologia intitulado Escrita Redita (poemas ditos por Luís Lucas; Ed. Presença / Casa Fernando Pessoa). 

À sua poesia foram atribuídos o Prémio D. Dinis (1981), o Prémio da Crítica (1991), o Grande Prémio Inapa de Poesia (1991), o Prémio Nicola (1997), o Prémio Bordalo da Imprensa (2000), o Prémio do PEN Clube (2000), o Prémio Luís Miguel Nava (2007) e o Prémio Inês de Castro (2007).

Livros de poesia publicados:

POEMA PARA TODOS OS DIAS, ed. do Autor, Lisboa, 1956 (esg.)
O SANGUE, A ÁGUA E O VINHO, Moraes ed., Lisboa, 1958 (esg.)
PRIMEIRO LIVRO DE LAPINOVA, Moraes ed., Lisboa, 1960 (esg.)
POEMAS A ISTO, Moraes ed., Lisboa, 1962 (esg.)
DANIEL NA COVA DOS LEÕES, Moraes ed., Lisboa, 1970 (esg.)
ESCRITO DE MEMÓRIA, Moraes ed., Lisboa, 1973 (esg.)
OS QUARENTA E DOIS SONETOS, Livros Horizonte, Lisboa, 1973 (esg.)
AGORA, ESTAR, Moraes ed., Lisboa, 1975 (esg.)
POESIA 1956-1978 (incl. os livros anteriores e o inédito O APARELHO CIRCULATÓRIO; prefácio de Fernando
Guimarães), Moraes ed., Lisboa, 1978.
HORÁCIO E CORIÁCEO, Moraes ed., Lisboa, 1981 (esg.) - Prémio D. Dinis.
PRINCÍPIO DE SOL, Círculo de Leitores, Lisboa, 1982.
ANTOLOGIA PROVISÓRIA, Limiar, Porto, 1983.
ALLEGRIA DEL SILENZIO (a cura di Giulia Lanciani e Ettore Finazzi Agrò), Japadre editore, Roma, 1984.
DENTRO DE MOMENTOS (com reproduções de colagens de Fernando de Azevedo), Imprensa Nacional, Lisboa, 1984.
AS PALAVRAS DA TRIBO (antologia pessoal, conjuntamente com Fernando Guimarães, Mário Cláudio e Nuno Júdice; desenhos de José de Guimarães), Quetzal-Altamira, Lisboa, 1985.
DELFOS, OPUS 12, Gota de Água, Porto, 1987.
DELPHES, OPUS 12 & AUTRES POÈMES (traduction collective, Royaumont, revue et préfacée par Patrick Quillier), Les Cahiers de Royaumont, 1990.
TÁBUA DAS MATÉRIAS, Poesia 1956-1991, Tertúlia, Sintra, 1991; reed. Círculo de Leitores, Lisboa, 1995 - Prémio da Crítica; Grande Prémio Inapa da Poesia.
CARACÓIS (com Júlio Pomar), Quetzal Editores-Cerâmicas Ratton, Lisboa, 1993.
DEPOIS DE VER, Quetzal Editores, Lisboa, 1995.
VÉR VÍZ BOR (antologia org. por Pál Ferenc), ed. Íbisz, Budapeste, 1997.
GUIÃO DE CARONTE, Quetzal Editores, Lisboa, 1997 - Prémio Nicola de Poesia.
MAÎTRE ÈS-SANGLOTS (anthologie: traduction et préface de Patrick Quillier), ed. Le Taillis Pré, Châtelineau, 1998.
ЛИРНКА [Lírica] (antologia, incluindo Dentro de Momentos, Delfos, Opus 12 e outros poemas; tradução de Georgi Mitchov e Evelina Malinova), ed. Karina M, Sofia, 1999.
ESCRITA REDITA (disco-antologia: poemas ditos por Luís Lucas), Ed. Presença-Casa Fernando Pessoa, Lisboa, 1999.
MEMÓRIA INDESCRITÍVEL, ed. Gótica, Lisboa, 2000 – Prémio Bordalo da Imprensa; Prémio do PEN Clube português.
HONEY AND POISON: SELECTED POEMS (translated by Richard Zimler), Carcanet, Manchester, 2001.
RETÁBULO DAS MATÉRIAS, Poesia 1956-2001, Gótica, Lisboa, 2001.
CARONTE Y MEMORIA (traducción de Miguel Viqueira), Huerga y Fierro, Madrid, 2002.
CARONTE E MEMORIA (prefacio de Carlos Nejar), Escrituras, São Paulo, 2004.
XAРОН И ПАМЕТТА [Caronte e Memória] (tradução de Sidonia Pojarlieva e Vera Kirkova), ed. Adrassea, Sofia, 2005.
ANALOGIA E DEDOS, Oceanos, Lisboa, 2006 - Prémio Luís Miguel Nava, Prémio Inês deCastro.
O LIVRO DO SAPATEIRO, Dom Quixote, Lisboa, 2010.

POEMAS



René Magritte


NOÉ


Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos,
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. E sei lá quantos são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo.
Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda,
a escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
- o espaço que isso ocupa.

Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Nem é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza,
ou mais ter a certeza de não valer a pena,
é partir já vencido para outro mundo igual.

(Analogia e Dedos, 2006)





SÓ DOS MORTOS DEVEMOS TER CIÚMES

Só dos mortos devemos ter ciúmes; acordar
de entre as pedras doentes dolorosos
que da beira das arribas nos atirem ao porto
onde enfim se encontre a nossa angústia.
Só eles lutam palmo a palmo pelo espaço
em que já vertical erguemos nosso braço
em busca de que sumo ou de que céu. É que só eles
nos retiram da cama de que por nós foi feita
a escolha: a macieza intensa que julgámos
eterna, que nos parecia tão cordatamente
entregue à nossa própria suma sumaúma.
Só os mortos, horror, inda que vivos, vivem
paredes meias com os nossos dedos, logo afastam
os momentos ferozes que tocássemos, e as nuvens
por sobre o mar dos olhos: é bem feito,
dizem os meninos. Pois que dos vivos vivos
a vida nos desvia e nisso nos conduz, assaz
encaminhados pelo que vamos querendo.
Só os mortos nos mordem, nos apontam
a dedo frio e tenso, entorpecem desejos
e, pois pior, só eles nos expulsam
do vero som dos sinos numa entrega
às palavras baldadas do comércio.
A luta clara que sonhada fosse
pela mão dada e limpa que nos dessem
tropeça, polvo, com misérias nossas
e enterra-te na pérfida, agoniada leira
onde dominam eles nossas bocas e o sangue
que nelas perpassasse. Só os mortos,
invisíveis, letais, pesados entes,
nos disputam a vida, e só por fim nos matam.

(Agora, Estar, 1975)



Manabu Mabe


A LUZ QUE VEM DAS PEDRAS

A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?

(Agora, Estar, 1975)





O MAR É LONGE

O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

(Daniel na Cova dos Leões, 1970)



Anselm Kiefer


NÃO TENHO PARA TI QUOTIDIANO

Não tenho para ti quotidiano
mais que a polpa seca ou vento grosso,
ter existido e existir ainda,
querer a mais a mola que tu sejas,
saber que te conheço e vai chegar
a mão rasa de lona para amar.

Não tenho braço livre mais que olhar
para ele, e o que faz que tu não queiras.
Tenho um tremido leito em vala aberta,
olhos maduros, cartas e certezas.

Neste comboio longo, surdo e quente,
vou lá ao fundo, marco o Ocupado.
Penso em ti, meu amor, em qualquer lado.
Batem-me à porta e digo que está gente.

(Daniel na Cova dos Leões, 1970)



Antonio Bandeira



REGANDO LENTAMENTE AS FLORES DO RISO


Regando lentamente as flores do riso,
vou já de neve em neve e lume em lume,
contornando a nordeste o paraíso
em terrenos de pedras ou de estrume,
com pequenas palavras na algibeira
das calças que mantenho ainda frias
da presença dos lares à minha beira.

E meto mãos e dentes nas vazias
flanelas limpas para o flanar antigo,
marcho directo e escasso, colocando
os pés azadamente.
Não persigo
ventos ou cores: sou pedro, zé, femando,
nomes comuns, impróprios, que desdigo
baixinho e surdo, curto, enquanto ando.

(Daniel na Cova dos Leões, 1970)



Adriana Varejão


NÃO FALO DE PALAVRAS


Não falo de palavras, nem de goivos,
mas de horas atadas ao pescoço.
Poema verdadeiro é sermos noivos:
saber tirar a pele e o caroço

ao grito entre a morte e outra morte
que nos mantenha lassos e despertos
até que venha o talhe que nos corte
e nos retire os poços e desertos.

Por isso, meu amor, o que te dou,
beijo beijado em corpo claro e vivo,
é mais que o verso que te dizem, ou
aliterante, agudo ou conjuntivo.

Colado a tudo, mesmo a contragosto,
o rio inventa o verso, e não assim
como se ao espelho visse o próprio rosto,
mas tu além-palavra, ao pé de mim.

(Escrito de Memória, 1973)





AGORA ABANDONADO SEM SENTIMENTO ALGUM

Agora abandonado sem sentimento algum
de ter valido a pena ou de não isso,
de olhos abertos mais, assumo e amo,
encordoado como não sei que bicho,
de pé-coxinho como não sei que homem.
Olho A e B, e a ti, porém contando
com posição de mar roçando a praia alheia,
tão marginal mas útil de outra forma,
tão mar e marginal, desfeito mas fazendo.
O lar sonhado não é aqui, mas onde
não sonhe mais por ele. Vivo
de pé, completo com aquilo
que outro vento não tive que me desse,
e mais ainda, com o que não tenho agora
nem pretendo rever: o dia é grande,
a morte igual, a voz silente.
Não posso pedir mais que o dom da sede.

(Horácio e Coreáceo, 1981)