domingo, 21 de novembro de 2010

AUGUSTO DOS ANJOS




Ainda adolescente conheci os versos de Augusto dos Anjos. Líamos e ríamos, não por achar graça, creio que era um riso nervoso, pois seus textos impregnavam de morte uma idade em que a morte é esfera remota, esfinge quase inatingível. Mesmo os não leitores de poesia apreciavam, talvez movidos mais por curiosidade e por uma espécie de deleite por extravagância. Não me arrependo desse primeiro convívio, na escola mambembe do Estácio, ainda que eu passasse longe de perceber a riqueza da poética do autor. 

Se há algo extraordinário na leitura é justamente revelar-se como tatuagem impressa em nossa alma: nunca nos afastamos mais do livro que nos comove e impacta nossa experiência. A verdadeira leitura só pode ser livre, desinteressada, nunca uma tarefa ou matéria-prima para determinada teoria, tese ou ensaio. Não que esta última seja desprezível, mas nada se compara ao vigor da leitura desatrelada a qualquer outro compromisso, aquela que se impõe como descoberta, que pega na veia.

O segundo convívio com Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, nascido no Engenho Pau d'Arco, Paraíba, no dia 20 de abril de 1884, ocorreu na UERJ, durante a graduação. Já era o início do corte e recorte acadêmico. O único livro do  poeta, Eu, publicado em 1912, porém desde 1919 reeditado como “Eu e outras poesias”,  transformou-se em objeto de estudo. Reencontrei a completa obsessão com o próprio “eu” e seu radical desconforto com a existência, revi sua dolorosa descrença em relação à realização amorosa ("Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me"), tão forte que é capaz de metamorfosear o amor em ódio. Uma poética da repulsa, do confronto agônico com o mundo, dotada de uma radicalidade negativa extremamente rara em nossa literatura. Versos abertos à angústia, ao egoísmo, à decomposição, à morte. Mais que a dimensão científica na arquitetura de seu vocabulário, o que sempre me espanta é o niilismo mais espesso em sua poesia. Um fazer versos como quem se afunda em um pântano. Além disso, uma pulsação violenta entre o micro e o macro, entre os vermes e as estrelas, entre o finito e o infinito. A presença de forças obscuras, a dissolução dos corpos pelo determinismo das leis físicas e químicas, a putrefação do biológico, a desesperada anulação da personalidade, o materialismo mais caricato, o pessimismo mais amargo não impedem a alma de buscar desesperadamente a eternidade. É do não, da ausência de resposta, do sem fim do silêncio que medra o vigor niilista.

Depois voltei, na pós-graduação, a conviver com o autor de “Poeta, feto malsão, criado com os sucos / De um leite mau, carnívoro asqueroso, / Gerado no atavismo monstruoso / Da alma desordenada dos malucos”. Mas a história desse convívio só alongaria minha memória afetiva e o que interessa é, na verdade, a obra do poeta.

Valendo-se da carpintaria poética parnasiana (métrica perfeita, chave de ouro, rimas preciosas), das sugestões musicais simbolistas (aliterações, assonâncias), de um requintado vocabulário buscado nas ciências, Augusto dos Anjos foi capaz de criar uma obra que persiste ao longo dos tempos com um vigor insuperável. Criador de uma poética inclassificável, capaz mesmo de antecipar-se a alguns momentos do nosso modernismo, como pode ser verificado pelo uso da linguagem coloquial em alguns textos.

Estudado normalmente como pertencente à geração de autores pré-modernistas da literatura brasileira (como se isso ajudasse a compreender as questões que a sua poesia propõe), Augusto dos Anjos comprova a tese de que os grandes poetas não são aqueles que fazem apenas grandes poemas, mas aqueles que criam uma poética.

Era formado em direito, mas nunca exerceu a profissão. Trabalhou como professor na Paraíba, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. No Rio, exerceu o magistério, em  1911, no Colégio Pedro II, onde também trabalho. Deu aulas para as turmas suplementares. Infelizmente não conseguiu ser efetivado no cargo.

Vítima de pneumonia, morreu em Leopoldina – MG,  em 12 de novembro de 1914, aos trinta anos de idade.

Coloquei os poemas de Augusto dos Anjos em diálogo com trabalhos de Damien Hirst, um dos mais importantes artistas plásticos da atualidade.
  

P O E M A S 





MONÓLOGO DE UMA SOMBRA        


“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...                                                                  
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!


A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!


Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
– Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!


Na existência social, possuo uma arma
– O metafisicismo de Abidarma –
E trago, sem bramânicas tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.


Como um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
É com certeza meu irmão mais velho!


Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como uma vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infortúnio.


Aí vem sujo, a coçar chagas plebeias,
Trazendo no deserto das ideias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!


Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem...
E apenas encontrou na ideia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!


E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
O espólio dos seus dedos peçonhentos.


Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!


Será calor, causa ubíqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!


E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
– Engrenagem de vísceras vulgares –
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!


A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.


É uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece...
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.


E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!...
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
À herança miserável de micróbios.


Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomita exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo...
Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.


Brancas bacantes bêbedas o beijam,
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E à noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar do meretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.


No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, à noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.


Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta...
E explode, igual a luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do aríete
E os arremessos de uma catapulta.


Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descarnada de um duende,
Que tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!


Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su’alma na caverna escura,
Fazendo ultra-epiléticos esforços,
Acorda, com os candieiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.


É o despertar de um povo subterrâneo!
É a fauna cavernícola do crânio
– Macbeths da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sanguinárias
Que ele tem praticado na família.


As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam...
A asa negra das moscas o horroriza:
E autopsiando a amaríssima existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa! 


Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!


Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca...
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de uma esfera opaca.


Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!


Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.


Continua o martírio das criaturas:
– O homicídio nas vielas mais escuras,
– O ferido que a hostil gleba atra escarva,
– O último solilóquio dos suicidas –
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!”


Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,
Julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre caveiras sujas,
A orquestra arrepiadora do sarcasmo!


Era a elegia panteísta do Universo,
Na podridão do sangue humano imerso,
Prostituído talvez, em suas bases...
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.


E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandíloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
Até que minha efêmera cabeça
Reverta à quietação da treva espessa
E à palidez das fotosferas mortas!


(p. 75-80)





O MORCEGO




Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.


“Vou mandar levantar outra parede...”
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!


Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!


A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!


(p. 81)       





 
   



PSICOLOGIA DE UM VENCIDO


Eu, filho do carbono e o amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.


Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.


Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,


Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!


(p. 82)




 





DEBAIXO DO TAMARINDO


No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!


Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!


Quando pararem todos os relógios
De minha vida e a voz dos necrológios
Gritar ns noticiários que eu morri.


Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!


(p. 85)










BUDISMO MODERNO
            
Tome, Dr., esta tesoura , e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!


Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato da bronca destra forte!


Dissolve-e, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo,


Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!


(p. 100)











VERSOS ÍNTIMOS


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.


Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
A mão que afaga é a mesma que apedreja.


Se a alguém causa inda pena a tua chaga.
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


(p. 143)





O DEUS-VERME 


Fator universal do transformismo,
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme - é o seu nome obscuro de batismo.


Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea.
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.


Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...


Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!


(p.85)



























A IDEIA

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!


Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!

(p. 82)

Fonte: Todos os poemas foram retirados do livro Eu e outras poesias. 38a. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1985.


terça-feira, 16 de novembro de 2010

ADONIS




 Adonis, revolução do verso árabe

Texto de Charles McGrath -THE NEW YORK TIMES ANN ARBOR, Michigan - O Estado de S.Paulo – Tradução de Terezinha Martino

Todo ano, o nome do poeta sírio Adonis aparece nos jornais e nas casas de apostas. Adonis, pseudônimo que Ali Ahmad Said Esber adotou ainda adolescente, é um eterno favorito ao Nobel de Literatura. Este ano, para a empresa de apostas britânica Ladbrokes as chances eram de oito para um de que ele ganharia o Nobel, uma aposta mais segura do que Mario Vargas Llosa, que acabou levando o prêmio. 

Uma das razões dessa aposta dos especialistas é o fato de Adonis ser um poeta e ultimamente os poetas não têm tido quase representação entre os agraciados com o Nobel. E um outra é que ele escreve em árabe, língua de um único ganhador de um Nobel, Naguib Mahfouz; e uma terceira razão tem a ver com o fato de que, como ocorreu com tantos ganhadores do prêmio, muitos americanos nunca ouviram falar dele.

No mundo árabe, contudo, Adonis é famoso, mesmo não sendo apreciado em todos os lugares. Defensor do laicismo, coloca suas ideias de modo franco e direto; é também um crítico do Oriente e do Ocidente, um poeta revolucionário que se junta àqueles que tentaram libertar o verso árabe das suas formas e temas tradicionais. Alguns dos seus poemas são longos e difíceis, lembrando os Cantos de Ezra Pound na sua fase mais impenetrável.

Outros expressam a alegria de um Paul Muldoonish, a fascinação e a amplitude de um Jorie Graham. Seus poemas são tão inclinados a citar Jim Morrisson quanto os místicos Sufi, e o seu livro, lançado em 2003, Prophesy, O Blind One, inclui longos versos sobre uma viagem, que poderiam ter sido escritos por Whitman, se ele tivesse passado mais tempo em aeroportos. "Segundo os livros didáticos na Síria, eu arruinei a poesia", disse recentemente o poeta com um sorriso de satisfação.

Adonis, que hoje está com 80 anos, mudou-se para o Líbano por razões políticas nos anos 60, mas vive em Paris desde a década de 80 (ele é cidadão francês). A Editora da Universidade de Yale lançou no mês passado um volume de poemas selecionados do poeta, com tradução de Khaled Mattawa. Adonis esteve na Universidade de Michigan, onde leu alguns dos seus poemas e proferiu conferências. Pequeno e animado, uma nuvem de cabelos grisalhos, Adonis posou para fotos ao lado de fãs femininas que provavelmente queriam guardar uma lembrança dele, caso a Academia Sueca lhe conceda o próximo prêmio. Mas, em conversas, Adonis recusou-se a falar a respeito. "Não penso nisso. E não quero falar a respeito."

Seu desinteresse por prêmios em parte tem a ver com a sua modéstia e em parte, a julgar por uma conferencia que proferiu, de uma concepção de poesia que transcende não só a política literária, mas a política no geral. Para ele, a poesia não é apenas um gênero ou uma forma de arte, mas uma maneira de pensar, quase uma revelação mística. "Poesia não pode ser feita de modo a se adequar à religião ou uma ideologia", disse ele. "Ela proporciona um conhecimento que é explosivo e surpreendente."

Em seguida, lamentou o que chama de "atraso" da poesia árabe contemporânea, que, na sua opinião, tornou-se instrumento retórico para celebrar e explicar o "status quo" político e religioso. No sistema islâmico não há muito lugar para a poesia, porque o Islã pressupõe que o conhecimento do Alcorão é completo e não existe mais nada a acrescentar.

Ele observa que a situação da poesia no Ocidente não é muito melhor, marginalizada não tanto pela religião ou ideologia, mas pela cultura pop e pela mídia. Mas seu entusiasmo pelos versos continua vigoroso. A poesia árabe tradicional, explicou, normalmente é arranjada em 16 métricas básicas, os versos divididos por uma única rima final que se mantém no poema inteiro. A partir dos anos 60, Adonis procurou inovar, introduzindo versos livres sem rima e até mesmo poesia em prosa, usando métricas mistas.

"Quis utilizar a mitologia e a tradição árabes sem ter de me ater a elas", diz ele, acrescentando: "Quis quebrar a linearidade do texto poético. O poema tem que ser mais uma trama do que um único fio de pensamento." Para alguns críticos, a poesia de Adonis é uma obra de exílio, mas isso não o preocupa. "Todo artista está num exílio dentro da própria linguagem. O Outro é parte do meu ser interior."
  
Mais recentemente, seu trabalho conta com novo elemento erótico; num dos poemas, a amada é a própria poesia, imaginada como a amante que chega à noite num vestido negro. "Felicidade e tristeza são duas gotas de orvalho caindo sobre a sua cabeça."

NOTA – O fato de Adonis ser considerado o maior poeta do mundo árabe parece não ter sensibilizado nenhuma editora brasileira a publicar um de seus livros, sequer uma simples antologia. Lamentavelmente teremos de esperar que o mercado editorial dos países centrais dê um sinal  de validação mais forte para que nossas editoras e nosso sistema cultural possam endossar a crítica do primeiro mundo. 

Na falta de traduções em português, recorri ao espanhol, idioma no qual existe um excelente site dedicado à poesia árabe - www.poesiaarabe.com – onde encontrei diversos poemas de Adonis, traduzidos do árabe para o espanhol por María Luisa Preito, alguns dos quais postei abaixo. 

                                                  POEMAS 

                           CELEBRACIÓN DE BEIRUT, 1982
 
El tiempo avanza
apoyado en un bastón de huesos de muertos.
El filo del insomnio
corta el cuello de la noche.
 
El sol parece decir a su claridad:
deslumbra mis ojos
para no ver.
   
El día teme al día,
la noche se oculta de la noche,
el sol se frota los ojos y suspira:
no puede creer lo que ve.
 
Gracias
al polvo que se mezcla con el humo
de los incendios y lo mitiga,
al intervalo entre bomba y bomba,
a las baldosas que no cesan
de sostener mis pasos.
Gracias a la roca que enseña paciencia.
 
Experimento la borrachera de las explosiones,
la embriaguez del ruido,
y disparo mi rostro
por el espacio de las probabilidades.
 
La luz se extinguió.
Encenderé el astro de mis sueños.
 
Tómame, amor
y abrázame.

In: Celebración del claroscuro (1988)



CELEBRACIÓN DEL CLAROSCURO 

La vida es el elixir de la muerte,
por eso la muerte no envejece jamás.
 
El mar no sabe bailar
ni dormir
más que desnudo.
 
Amor: eternidad que dura un solo instante.
Odio: instante que dura como si fuera eterno.
 
La playa usa el tiempo
para permanecer sentada.
Las olas usan el tiempo
para permanecer en movimiento.
 
La alegría tiene alas
pero no tiene cuerpo.
La tristeza tiene cuerpo
pero no tiene alas.
 
La rosa es la estación del ojo,
su perfume, la estación del corazón.
 
Ola: guitarra
cuyas cuerdas son las playas.
 
El desierto se fue lejos por amor al sol.
Así se quemó.
La ceniza tiene siempre mirada de despedida.
El fuego tiene siempre mirada de encuentro.
 
Jardín: mujer
cuyo cuerpo es la tierra
y la hierba el vestido.
 
Rosa: barco que navega por el aire
con un solo pasajero: el perfume.
 
¿Es pecado el deseo?
Tal vez, a veces.
Pero el placer
es siempre casto.

In: Celebración del claroscuro (1988)




EL SUEÑO Y EL DESPERTAR 

Crea en su sueño
un modelo de revolución rebelde
que abraza el creciente futuro.
Despierta de su sueño
y sus días se convierten
en anhelos
que lloran la noche pasada
y su quimera perdida. 

In: El teatro  y los espejos (1988)



      INVASIÓN 

El pájaro se quema,
los caballos, las mujeres y las aceras
se parten como pan
en las manos de Taymur.

In: El teatro  y los espejos (1988)




EL PASADO 

¡Cuántas veces he llevado piedras
desde las colinas de Samarcanda!
Moldeaba las piedras en lanzas
o en collares
para mis amadas esclavas.
¡Cuántas veces he tejido de hombres
jaimas y almohadas!... 

In: El teatro  y los espejos (1988)



LA BALA 

Una bala gira
engrasada con el resplandor de la civilización,
perfora el rostro de la aurora -cada instante
se repite esta escena-
los presentes
renuevan el trago de la vida, animan
sin telón, oscuridad ni descanso:
la escena es la historia
y el actor la civilización.

In: El teatro  y los espejos (1988)


SITUACIÓN DEL DESIERTO/EL NARCISO
 
El agua posee una flauta que
yo escuchaba
y mi deseo escuchaba una lengua
cuyo sonido se retrasaba
y surgía en cualquier momento.
He cambiado de caravana.
La creación es barro, juego.
Me recrearé con mis secretos
y con su juego.
Yo soy éste que un desierto ha creado.
Los ciervos de mis sueños
están vestidos con palmeras.
Es inútil jugar al tric-trac
con la luna, viajar en
una alfombra de seda,
es inútil creer las profecías
del cuervo de mi suposición
ni las promesas de destrucción.
Oh, poesía, cochero loco,
tómanos para adelantarnos
a nuestra muerte, para ver
y escribir lo que vendrá
y para ser la Fatiha[1] del libro.
 
Desierto-madre,
y yo soy el testimonio perdido,
desvaría como quien camina sobre
sus miembros.
Camina y amarra los pies
al espacio. Y yo soy el testimonio,
nuestra tierra se desvanece
por tantos profetas como ve
sobre ella.
 
Desierto: secreto.
Este es el secreto manifiesto,
una nube que arroja
su manto sobre nosotros,
su murmullo es el lenguaje oculto
de las estrellas.
Extravío, y una caravana pierde
una caravana.
 
Desierto. Una piedra me roza: ¿eres
tú mismo? Yo rozo a la acera amiga.
¿Eres tú mismo? Tu chispa
ha devorado a la chispa.
Desierto. Una palmera lleva
una estrella. Una camella lleva
la luna y crea los desiertos.
 
Desierto: narciso que se sumerge
y flota en el laberinto
de los espejos
hecho añicos.
Danza con su imagen y su llanto
y graba en ella su rostro,
sus fragmentos se desintegran.
Enloquece con estas imágenes fragmentadas.
Teje el día con la noche
como un sueño que alumbra
y muere amando.
Narciso es el único que queda.
Narciso no es más que un espectro,
este espectro no es más que su sollozo.
Helo aquí. Lo veo como lo han descrito
sus sueños. Ha olvidado el camino
que le conduce a su agua, ha olvidado
las palabras.
Lo veo coronado con su espejismo.
Fatigado, ha dado la mano
al infinito cielo
y se ha dormido.

Nota - [1]  Primera azora del Corán.
In: El asedio de Beirut, 1985