domingo, 20 de maio de 2012

Margaret Atwood


HEART

Some people sell their blood. You sell your heart.
It was either that or the soul.
The hard part is getting the damn thing out.
A kind of twisting motion, like shucking an oyster,
your spine a wrist,
and then, hup! it's in your mouth.
You turn yourself partially inside out
like a sea anemone coughing a pebble.
There's a broken plop, the racket
of fish guts into a pail,
and there it is, a huge glistening deep-red clot
of the still-alive past, whole on the plate.

It gets passed around. It's slippery. It gets dropped,
but also tasted. Too coarse, says one. Too salty.
Too sour, says another, making a face.
Each one is an instant gourmet,
and you stand listening to all this
in the corner, like a newly hired waiter,
your diffident, skilful hand on the wound hidden
deep in your shirt and chest,
shyly, heartless.


CORAÇÃO

         Tradução de Adriana Lisboa

Algumas pessoas vendem o sangue. Você vende o coração.

Era isso ou a alma.

O difícil é tirar a porcaria lá de dentro.

Uma espécie de torção, como tirar da concha uma ostra,

sua coluna um punho,

e então, upa! ei-lo em sua boca.

Você se vira parcialmente do avesso

como uma anêmona do mar tossindo uma pedra.

Há um chape curto, o ruído alto

de entranhas de peixe caindo num balde,

e lá está ele, um imenso coágulo brilhante vermelho-escuro

do passado ainda vivo, inteiro no prato.


Passam-no ao redor. É escorregadio. Derrubam-no,

mas também o experimentam. Áspero demais, um diz. Salgado demais.

Azedo demais, diz outro, fazendo careta.

Cada um é um gourmet momentâneo,

e você fica ali ouvindo tudo isso

no canto, como um garçom recém-contratado,

a mão reservada e competente na ferida escondida

no fundo da camisa e do peito,

timidamente, sem coração.

2 comentários:

  1. A pesar de ser un lector sin suficientes conocimientos de poesía, del inglés y del portugués, tanto el poema como su traducción me parecieron excelentes. De modo que hay dos grandes poetas allí, además de M. Atwood, Adriana Lisboa. Una delicia.

    ResponderExcluir
  2. Quem disse que "a ostra só é feliz quando não produz pérolas"? - Rubens Alves. Eis uma pérola de sangue! Bela tradução. Parabéns!

    ResponderExcluir