Margaret Atwood


HEART

Some people sell their blood. You sell your heart.
It was either that or the soul.
The hard part is getting the damn thing out.
A kind of twisting motion, like shucking an oyster,
your spine a wrist,
and then, hup! it's in your mouth.
You turn yourself partially inside out
like a sea anemone coughing a pebble.
There's a broken plop, the racket
of fish guts into a pail,
and there it is, a huge glistening deep-red clot
of the still-alive past, whole on the plate.

It gets passed around. It's slippery. It gets dropped,
but also tasted. Too coarse, says one. Too salty.
Too sour, says another, making a face.
Each one is an instant gourmet,
and you stand listening to all this
in the corner, like a newly hired waiter,
your diffident, skilful hand on the wound hidden
deep in your shirt and chest,
shyly, heartless.


CORAÇÃO

         Tradução de Adriana Lisboa

Algumas pessoas vendem o sangue. Você vende o coração.

Era isso ou a alma.

O difícil é tirar a porcaria lá de dentro.

Uma espécie de torção, como tirar da concha uma ostra,

sua coluna um punho,

e então, upa! ei-lo em sua boca.

Você se vira parcialmente do avesso

como uma anêmona do mar tossindo uma pedra.

Há um chape curto, o ruído alto

de entranhas de peixe caindo num balde,

e lá está ele, um imenso coágulo brilhante vermelho-escuro

do passado ainda vivo, inteiro no prato.


Passam-no ao redor. É escorregadio. Derrubam-no,

mas também o experimentam. Áspero demais, um diz. Salgado demais.

Azedo demais, diz outro, fazendo careta.

Cada um é um gourmet momentâneo,

e você fica ali ouvindo tudo isso

no canto, como um garçom recém-contratado,

a mão reservada e competente na ferida escondida

no fundo da camisa e do peito,

timidamente, sem coração.

Postagens mais visitadas