sábado, 19 de maio de 2012

William Carlos Williams




William Carlos Williams nasceu a 17 de setembro de 1883 em Rutherford, uma cidadezinha da Nova Jersey não distante de Nova York. Seu pai era inglês de nascimento, mas, tal como o protagonista de "Adão", um dos poemas de Adam and Eve and the city [Adão e Eva e a cidade, 1936], criara-se nas Índias Ocidentais ouvindo o "murmúrio mais sombrio/ que a morte inventa especialmente/ para os homens do Norte/ aos quais os trópicos/ chegam a prender". O poeta recebeu o mesmo nome do pai, com o acréscimo de um Carlos latino em homenagem a um tio de quem copiaria também a profissão de médico. Esse tio era o irmão dileto de sua mãe, Raquel Helène, nascida em Porto Rico de origem basca e hispano-judaica e cujos últimos dias de vida o filho relembraria com sufocada emoção em "Elena", um dos Collected later poems [Poemas ulteriores reunidos, 1950].
Mulher inteligente e sensível, Raquel tinha talento para a pintura, tanto assim que o irmão médico, enquanto pôde, lhe pagou os estudos em Paris. Dela o filho herdou o gosto pelas artes plásticas, tão perceptível na visualidade dos seus poemas, vários dos quais dedicados a pintores, como os da série Pictures from Brueghel [Quadros de Brueghel, 1962]. William Carlos aprendeu as primeiras letras em Rutherford e ainda adolescente foi levado pelos pais à Europa para cursar uma escola suíça, depois o liceu Condorcet. De volta aos Estados Unidos, completou os estudos preparatórios e foi admitido em 1902, após exame especial, à Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia. Ali conheceu Ezra Pound, universitário também, e Hilda Doolittle, que com a lacônica assinatura de H. D. se tornaria um dos expoentes da poesia imagista. Já antes de diplomar-se em 1906, Williams se dedicava à literatura. Tomara então por modelo a poesia de Keats e, de par com sonetos rimados e imitações do Endymion, começava a ensaiar a mão no verso livre aprendido de Whitman. Esses tentames não agradaram a Pound, que lhe recomendou atualizar-se em matéria de poesia lendo Yeats, Browning, Francis Thompson e Swinburne, além do Golden Treasury de Palgrave, antologia por via da qual se poderia familiarizar com os mestres da poesia inglesa do passado. O magistério de Pound, com quem aprendeu a importância da direitura coloquial e da novidade de expressão em poesia, foi decisivo para Williams, a ponto de este ter considerado o início da sua amizade com aquele um marco na sua vida, tal "como a.C. e d.C.".
O primeiro livro de Williams, Poems, uma plaquete cuja edição ele pagou do próprio bolso e da qual só se venderam quatro exemplares no lançamento, saiu em 1909, quando, completada a residência médica em hospitais de Nova York, ele partia para a Europa a fim de se especializar em pediatria. Fixou-se em Leipzig, mas teve ocasião de ir a Londres visitar Pound. Em 1912 casou-se com Florence Herman em Rutherford e no ano seguinte o casal se instalava num casarão antigo da Ridge Road n° 9, onde o dr. Williams iria viver até o fim dos seus dias, a maior parte deles como clínico da população proletária da região. Os deveres de médico, que cumpria com dedicação, daí tirando inclusive matéria para seus poemas e contos, não o impedia de participar da vida literária de Nova York, fervilhante nos anos anteriores e subseqüentes à Primeira Guerra. Colaborava nas revistas da época, entre elas a Little Review, de tendência vanguardista, Poetry, mais conservadora, e Others, de que foi editor associado por algum tempo. Tomou então contato com as manifestações experimentais no campo das artes visuais. Conheceu pessoalmente Marcel Duchamp, que trouxera em 1915 para Nova York os seus ready-mades, objetos industriais como rodas de bicicleta ou vasos sanitários a que apunha um título e uma assinatura para convertê-los em objetos de arte. Um dos artistas favoritos do poeta era o cubista Juan Gris em cuja pintura ele via um empenho de retirar as coisas do mundo da experiência cotidiana, onde o automatismo da percepção as banalizava, para as intensificar aos olhos da imaginação. É fácil ver a similitude desse empenho com o do próprio Williams em tantos dos seus poemas "objetivistas", que mais parecem instantâneos fotográficos de uma nitidez quase sobrenatural, como o famoso "O carrinho de mão vermelho", espécie de "No meio do caminho" do modernismo norte-americano. Mestre do vislumbre, como dele disse Kenneth Burke, Williams herdou da mãe pintora a qualidade que lhe louvou um dia, de poder "ver a coisa em si, sem idéias pré ou pós-concebidas, mas com uma grande intensidade de percepção".
Tal intensidade de percepção foi nele precocemente estimulada pela sua convivência com os imagistas, grupo de poetas americanos e ingleses que, mau grado a influência do Simbolismo francês, procuravam superar-lhe o pendor para o vago e o difuso por meio da criação de imagens concretas, precisas, claras. Preocupavam-se ainda, por contraposição à linguagem literariamente enfeitada, em ficar tão perto quanto possível da fala de todos os dias, utilizando-lhe os ritmos mais livres, distintos da versificação tradicional, para abordar qualquer tipo de assunto, por mais corriqueiro que fosse, particularmente os da vida contemporânea, o que fez deles "modernistas" de primeira hora. Tudo isso ia acompanhado de uma grande ênfase na concentração como a própria essência da poesia, conquanto o excesso de concentração os pudesse levar por vezes à obscuridade e não à clareza pretendida. Do seu poema tipicamente imagista "Numa estação de metrô", disse Pound, principal teórico do grupo, que se tratava de um hokku, de um "poema de uma só imagem [...] uma forma de superposição, isto é, uma idéia assente em cima de outra". Pela sua extrema condensação, também "A acácia-meleira em flor" de Williams, sobretudo na sua segunda versão, em que os nexos gramaticais foram reduzidos ao mínimo e a verticalização dos versos de uma única palavra dá ao poema configuração de ideograma, faz lembrar a poesia japonesa.
Pound incluiu um poema de Williams na antologia imagista publicada num número de 1914 da revista Glebe. Foi ele, ademais, quem lhe sugeriu o título de Kora in Hell: improvisations [Kora no Inferno: improvisações, 1920], um volumezinho de poemas em prosa à maneira de As iluminações de Rimbaud, nos quais a descida ao reino ínfero figurada nos mitos de Perséfone, Deméter e Orfeu corresponde a um mergulho no inconsciente e a um momentâneo abandono da objetividade, ainda que para espertar a imaginação, livrando "o mundo do fato das imposições da arte", ou seja, das estilizações artísticas convencionais da experiência. E foi ainda através de Pound que Williams, numa viagem à Europa em 1924, teve ocasião de conhecer pessoalmente James Joyce, Gertrude Stein, Valéry Larbaud e Philippe Soupault, um dos fundadores do surrealismo, de quem ele traduziria para o inglês as Últimas noites em Paris. Logo depois do seu retorno aos Estados Unidos, passou a integrar o corpo médico do hospital de Passaic, cidade vizinha de Rutherford cujas cataratas lhe inspirariam o Paterson. De 1925 é um livro de prosa ensaística e/ou doutrinária, In the American grain [Na veia americana), livro em que, como antídoto para o cosmopolitismo das influências de vanguarda a que estava então exposto, intentava Williams "penetrar dentro da cabeça dos pais-fundadores da América" para neles surpreender o surgimento do genius loci, de um espírito criador diferencialmente americano, já que, no seu entender, havia "uma fonte, na América, para tudo quanto pensamos ou fazemos". Num livro anterior, The great American novel, pequeno romance sem enredo nem herói a não ser, metalingüisticamente, um homem que pretendia escrever um livro, dissera ele: "O inimigo da Europa é o passado. E nosso inimigo é a Europa, uma coisa que absolutamente não nos diz respeito". É bem de ver, porém, que no americanismo de Williams não havia nenhum chauvinismo nacionalista. Havia, sim, uma crença inabalável no local como único ponto de partida para o universal, pelo que ele bem poderia ter feito seu o dito de Vlamink, de ser a inteligência internacional, a estupidez nacional e a arte local.
Conta Williams na sua Autobiografia que desde cedo se aplicara à "redescoberta de um impulso primevo, do princípio elementar de toda arte, nas condições locais". Na "Nota do autor" com que abre seu poema maior, Paterson, compara a visada localista com a relação médico-paciente: "Este é o ofício do poeta. Não falar por vagas categorias, mas escrever de modo particular, tal como um médico trabalhando com um paciente, acerca da coisa à sua frente; descobrir o universal no particular. John Dewey havia dito (descobri-o por puro acaso) que `o local é o único universal sobre que a arte edifica' ". Os versos de abertura de Paterson reiteram a mesma ordem de ideias:

Compor um começo
com particularidades
e torná-las gerais, arrolando
a soma, por meios imperfeitos 


A expressão do local implicava o uso de uma "nova linguagem" cujo "espírito interior" era outro que não o do inglês britânico, visto envolver, para além das simples diferenças de léxico, "uma diferença de pronúncia, de entonação, de conjugação, de metáfora e expressão idiomática, a própria maneira de usar as palavras", conforme explicou Williams numa carta ao editor do New English Weekly. Daí o seu cuidado de recolher espécimes do sermo vulgaris ianque num arquivo que era "um museu vivo do idioma falado". Na sua poesia, o uso expressivo do coloquial avulta nos retratos de caracteres, de que são exemplos "O estuprador de Passenack", "As últimas palavras da minha avó inglesa" e "Elena", poemas cujo centro de interesse é a personalidade das suas protagonistas, que se vai revelando aos olhos e ouvidos do leitor não através da descrição de exterioridades e sim pelas peculiaridades da elocução delas admiravelmente estilizada pelo poeta.
Quase excusava dizer que é igualmente a preocupação localista que subjaz à deliberada trivialidade dos assuntos dos poemas de Williams. Neles, os objetos, as cenas e os figurantes anônimos do cotidiano ocupam o primeiro plano: é o operário de volta do trabalho, a azáfama de uma estação ferroviária, a viúva a lamentar sua solidão, o médico a caminho do hospital, a policromia de um vaso de flores, o lavrador passeando pelo campo, o motorista a desfrutar seu direito de passagem, a empregada doméstica de "quadris sem elegância e peitos bambos", a multidão "mortífera, aterradora" num jogo de beisebol, uma cabeça de bacalhau semi-submersa, o gato tentando escalar o armário da cozinha, o interior imaculado de uma casa de Nantucket, o sótão transfigurado pelo anúncio luminoso, uma velha comendo ameixas pela rua, a folha de papel arrastada pelo vento, a arquitetura improvisada das casas proletárias, os ramos de pinheiros queimados depois do Natal, uma cidade do interior tornada mágica pela chuva, a mulher com um carrinho de bebê diante de um banco, os clérigos almoçando num restaurante, o pardal morto pela sua própria fêmea, a obstinação da acácia-meleira, o encanto outonal de uma chaminé de fábrica, e assim por diante. O destaque dado à banalidade cotidiana é inversamente proporcional à freqüência com que os grandes temas e as alusões eruditas, cavalo de batalha da poesia de Pound e Eliot, aparecem na de Williams. Mas trata-se de uma banalidade como que fosforescente, o que leva o leitor a perguntar-se se a sua semântica se esgota de fato ali ou se é, em vez disso, um convite à imaginação para ir além do hic et nunc. Esta questão tem a ver de perto com a dialética do visual e do metafórico na poesia de William.
O prêmio nacional de poesia atribuído em 1950 a William Carlos Williams pela publicação do livro terceiro de Paterson e dos seus Poemas escolhidos serviu para dar um testemunho público mais amplo da repercussão da sua obra. Obra que só fez crescer ao longo dos anos, com o aparecimento de novos volumes de poesia e prosa, quer de ficção quer ensaística. Em 1951, problemas de saúde o levaram a renunciar à sua clínica, que ele deixou daí em diante a cargo de um filho também médico. Em 1952 indicaram-no para consultor de poesia da Biblioteca do Congresso; a nomeação não chegou a efetivar-se por causa de pressões políticas. Perfidamente acusado de simpatias fascistas devido à sua amizade com Pound, teve sua vida investigada pelo FBI; depois, foi o Comitê de Atividades Antiamericanas, nos tempos de McCarthy, que o fichou como comunista a pretexto de uma declaração contra a prisão de Earl Browder, dirigente do PC. Nada disso obstou a que, nos anos subseqüentes, outros importantes prêmios literários Ihe fossem conferidos. Os dois últimos, o Pulitzer de poesia e a medalha de ouro do Instituto Nacional de Artes e Letras, o foram em caráter póstumo: Williams faleceu em Rutherford, a 4 de março de 1963. Mas não sem ter tido tempo de terminar o seu opus magnum.
Concebido originariamente em quatro partes, publicadas como livros separados em 1946, 1948, 1949 e 1951 respectivamente, Paterson acabou tendo uma quinta parte, aparecida em 1959. Para dar ao leitor uma idéia do que seja esse caudaloso poema cujos milhares de versos ocupam um volume de bom tamanho, seria preciso muito mais do que os dois pequenos trechos a que as limitações de espaço aqui nos obrigaram. Caudaloso diz respeito não somente à extensão física de Paterson mas também à sua inspiração fluvial. Conforme ficou dito mais atrás, foram as cataratas do rio Passaic, perto de Rutherford, que o inspiraram ao seu autor, o qual assim lhe resumiu o argumento dos quatro primeiros livros: "Paterson é um longo poema em quatro partes - acerca de um homem ser, por si só, uma cidade, já que inicia, batalha, conquista e conclui a sua vida de maneiras que os diversos aspectos de uma cidade podem corporificar - e os detalhes de qualquer cidade, quando imaginativamente concebida, podem dar voz às mais íntimas convicções dele. A Parte Primeira introduz o caráter elementar do lugar. A Segunda Parte abrange as réplicas modernas. A Terceira buscará uma linguagem para articulá-las vocalmente, e a Quarta, o rio abaixo das cataratas, relembrará episódios - tudo o que qualquer homem pode realizar ao longo de uma vida".
Na estrutura de Paterson há alguma influência dos Cantos de Pound. A começar da ambição épica do poema longo, com o seu quantum satis de narrativo, em desafio ao dogma da brevidade lírica postulado na Filosofra da composição de Poe e perfilhado pela poética contemporânea. Dos Cantos vem outrossim a sugestão de entremear livremente verso e prosa, tanto quanto a busca de uma dicção mais próxima do balanço da prosa que do verso batido. Todavia, ao contrário do mosaico cosmopolita dos Cantos, o mosaico paródico de Paterson e estritamente norte-americano. Para poder escrever o seu poema-rio, Williams empreendeu uma exaustiva pesquisa na história da região do Passaic, compulsando cartas e jornais antigos, notícias e anúncios, registros e documentos oficiais, livros de memórias e crônicas históricas etc. Seu propósito era correlacionar o encanto selvático da região antes do advento dos europeus, o seu passado colonial e a esqualidez da sua ulterior civilização fabril num vasto painel capaz de pôr à mostra o eventual nexo de continuidade entre fases tão dissímiles. Era, em suma, a tentativa de entender (e ecoar) a voz da terra, de alcançar o significado último da aventura norte-americana. E era, simultaneamente, um esforço de entender-se a si mesmo enquanto homem do seu tempo e cantor por excelência dessa aventura onde se mesclam inextricavelmente o individual e o coletivo.
Um aspecto fundamental de Paterson que não tem escapado à atenção dos seus exegetas é a dimensão metalingüística, a qual de resto se configura como típica da literatura mais criativa do século XX. Williams a destacou inclusive no resumo de argumento há pouco transcrito quando fala do propósito da Terceira Parte de encontrar uma linguagem adequada à expressão da civilização contemporânea. O que pudesse ser esse idioleto da modernidade resumiu-o o poeta na introdução que escreveu para um livro de um amigo seu, mas em que parece estar falando de Paterson: "A verdade é que as notícias de jornal oferecem o justo incentivo para a poesia épica, a poesia dos acontecimentos. [... ] O poema épico teria de ser o nosso `jornal'. Os Cantos de Pound são um equivalente algébrico disso, mas um equivalente tão perversamente individual que não alcança ser compreendido universalmente como seria mister. [... ] Terá de ser um estilo épico conciso, de pontaria certeira. Estilo de metralhadora".
Que semelhante ideal de estilo se fosse consubstanciar numa obra onde, melhor do que em qualquer outra do nosso tempo, o local é sinônimo de universal, mostra que a lição de Williams foi mais do que uma lição de casa: foi uma lição de mundo: 

Parte de um estudo crítico de José Paulo Paes do livro Poemas, de William Carlos Williams, traduzido do original Selected Poems, Companhia das Letras, 1987.



























POEMAS 

Traduzidos por José Paulo Paes.


CONSAGRAÇÃO DE UM PEDAÇO DE TERRA

Este pedaço de terra
defronte às águas do estreito
é consagrado à presença viva de
Emily Dickinson Wellcome
que nasceu na Inglaterra, se casou,
perdeu o marido e com
seu filho de cinco anos
veio para Nova York num navio de dois mastros,
foi bater nos Açores;
vogou a esmo até o baixio de Fire Island,
encontrou o segundo marido
numa pensão do Brooklyn,
foi com ele para Porto Rico
deu à luz mais três filhos, perdeu
seu segundo marido, teve oito anos
de vida dura em St. Thomas,
Porto Rico, São Domingos, acompanhou
o filho mais velho a Nova York,
perdeu sua filha, o seu "bebê",
pegou os dois meninos do
segundo casamento do filho mais velho
serviu-lhes de mãe deles que eram
órfãos de mãe lutou por eles
contra a outra avó
e as tias, trouxe-os para cá
verão após verão se defendeu
aqui contra ladrões,
tempestades, sol, incêndio,
contra moscas, moças
que vinham farejar à volta, contra
seca, ervas daninhas, marés de borrasca,
vizinhos, doninhas que lhe roubavam o galinheiro,
contra a fraqueza de suas próprias mãos,
contra a força crescente
dos meninos, contra ventos, contra
pedras, contra os invasores,
contra impostos, contra o seu próprio entendimento.
Cavoucou esta terra com suas próprias mãos,
reinou sobre esta leira de relva,
imprecou o filho mais velho
até que ele a comprasse, viveu aqui quinze anos,
alcançou a solidão definitiva e —

Se não puderes trazer a este lugar
mais do que a tua carcaça, fica longe dele.


DEDICATION FOR A PLOT OF GROUND

This plot of ground
facing the waters of this inlet
is dedicated to the living presence of
Emily Dickinson Wellcome
who was born in England, married,
lost her husband and with
her five year old son
sailed f or New York in a two-master,
was driven to the Azores;
ran adrift on Fire Island shoal,
met her second husband
in a Brooklyn boarding house,
went with him to Puerto Rico
bore three more children lost
her second husband, lived hard
f or eight years in St. Thomas,
Puerto Rico, San Domingo, followed
the oldest son to New York,
lost her daughter, lost her "baby",
seized the two boys of
the oldest son by the second marriage
mothered them
they being
motherless
fought for them
against the other grandmother
and the aunts, brought them here
summer after summer, defended
herself here against thieves,
storms, sun, fire,
against flies, against girls
that came smelling about, against
drought, against weeds, storm-tides,
neighbors, weasels that stole her chickens,
against the weakness of her own hands,
against the growing strength of
the boys, against wind, against
the stones, against trespassers,
against rents, against her own mind.
She grubbed this earth with her own hands,
domineered over this grass plot,
blackguarded her oldest son
into buying it, lived here fifteen years,
attained a final loneliness and


If you can bring nothing to this place
but your carcass, keep out.



Juan Gris, Roses, 1914
























O VASO DE FLORES

Rosa confundido ao branco
flores e flores reversas
recolhem e derramam a flama velada
atirando-a de volta
cornucópia da lâmpada

pétalas obscurecidas de través com malva

vermelho onde em volutas
cada pétala põe seu fulgor sobre outra pétala
volta de gargantas flamiverdes

pétalas radiantes de luz transverberada
pelejando
           no alto
as folhas
estirando o seu verde acanhado
para fora da borda do vaso

e eis ali o vaso, de todo obscuro
garrido em sua capa de musgo.


THE POT OF FLOWERS

Pink confused with white
flowers and flowers reversed
take and spill the shaded flame
darting it back
into the lamp's horn


petals aslant darkened with mauve

red where in whorls.
petal lays its glow upon petal
round flamegreen throats


petals radiant with transpiercing light
contending
             above
the leaves
reaching up their modest green
from the pot's rim


and there, wholly dark, the pot
gay with rough moss.



O DIREITO DE PASSAGEM 

Transitando com a ideia posta
em nada deste mundo

a não ser o direito de passagem
eu desfruto a estrada por

efeito de lei
vi

um homem de idade
que sorriu e desviou o olhar

para o norte, além de uma casa
uma mulher de azul

que estava rindo e se
inclinando para a frente

a fim de olhar o rosto meio
voltado do homem

e um menino de uns oito anos que
olhava para o meio da

barriga do homem
para uma corrente de relógio

A suprema importância
deste inominado espetáculo

fez com que eu acelerasse
ao passar por eles sem palavra

Por que me importaria o rumo?
e lá fui rodando sobre as

quatro rodas do meu carro
pela estrada molhada até

que vi uma moça com uma perna
sobre o parapeito de um balcão.


THE RIGHT OF WAY

In passing with my mind
on nothing in the world


but the right of way
I enjoy on the road by


virtue of the law
I saw


an elderly man who
smiled and looked away


to the north past a house
a woman in blue


who was laughing and
leaning forward to look up


into the man's half
averted face


and a boy of eight who was
looking at the middle of


the man's belly
at a watchchain


The supreme importance
of this nameless spectacle


sped me by them
without a word


Why bother where I went?
for I went spinning on the


four wheels of my car
along the wet road until


I saw a girl with one leg
over the rail of a balcony.






















O CARRINHO DE MÂO VERMELHO

tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

esmaltado de água de
chuva

ao lado das galinhas
brancas.


THE RED WHEELBARROW

so much depends
upon

a red wheel
barrow

glazed with rain
water

beside the white
chickens.



NO JOGO DE BEISEBOL

No jogo de beisebol a multidão
é identicamente animada

por um espírito de inutilidade
que a delícia

todo o detalhe emocionante
da perseguição

e da evasão, o erro
o lampejo de gênio

tudo sem outro fim que não a beleza
o eterno

Assim em detalhe os da multidão
são belos

por isso
o prevenir-se contra

o saudar e reptar
Ela está viva, virulenta

sorri ferozmente
suas palavras cortam

A moça vistosa ao lado
de sua mãe, entende isso

O judeu entende de imediato ela
é mortífera, aterradora

É a Inquisição, a
Revolução

É a própria beleza
que vive

dia por dia neles
ociosa

Esse o
poder dos seus rostos

É verão, é o solstício
a multidão está

gritando, a multidão está rindo
em detalhe

permanentemente, gravemente
sem pensar



AT THE BALL GAME

The crowd at the ball game
is moved uniformly


by a spirit of uselessness
which delights them


all the exciting detail
of the chase


and the escape, the error
the flash of genius


all to no end save beauty
the eternal


So in detail they, the crowd.
are beautiful


for this
to be warned against


saluted and defied
It is alive, venomous


it smiles grimly
its words cut


The flashy female with her
mother, gets it


The Jew gets is straight it
is deadly, terrifying


It is the Inquisition, the
Revolution


It is beauty itself
that lives


day by day in them
idly


This is
the power of their faces


It is summer, it is the solstice
the crowd is


cheering, the crowd is laughing
in detail


permanently, seriously
without thought



A CABEÇA DE BACALHAU

Miscelânea de algas
cordões, caules, detritos
firmamento

de peixes
onde as patas amarelas
das gaivotas chapinham

ramos batem
barcos deixam rastro de bolhas
de noite doidamente

agitam-se fosfores-
centes animálculos mas de dia
flácidas

luas em cujos
discos por vezes uma cruz vermelha
reside quatro

braças no fundo assenta
um salpico
de areias esverdeadas

amorfo titu-
beio de rochas três braças
o corpo

vítreo pelo qual
peixinhos velozes descem
fundo e

eis embalo um sobe
e desce
estrelas vermelhas uma decepada

cabeça de bacalhau entre
duas pedras subindo
descendo.


THE COD HEAD

Miscellaneous weed
strands, stems, debris

firmament


to fishes
where the yellow feet
of gulls dabble


oars whip
ships churn to bubbles

at night wildly


agitate phospores-
cent midges
but by day
flaccid


moons in whose
discs sometimes a red cross
lives
four

fathom the bottom skids
a mottle of green
sands backward


amorphous waver-
ing rocks
three fathom
the vitreous


body through which -
small scudding fish deep
down
and

now a lulling lift
and fall

red stars
a severed cod

head between two
green stones
lifting
falling.



POEMA

Ao trepar sobre
o tampo do
armário de conservas

o gato pôs
cuidadosamente
primeiro a pata

direita da frente
depois a de trás
dentro

do vaso
de flores
vazio.


POEM

As the cat
climbed over
the top of


the jamcloset
first the right
forefoot


carefully
then the hind
stepped down


into the pit of
the empty 


flowerpot.



AS ÁRVORES BOTTICELLIANAS

O alfabeto das
árvores

vai desmaiando na
canção das folhas

as hastes cortadas
das finas

letras que escreviam
inverno

e frio
foram iluminadas
com

pontas de verde
pela chuva e o sol

As regras simples
e estritas dos ramos

retos
vão sendo alteradas
por ses de cor

pinçados, por cláusulas
devotas

os sorrisos de amor

...........

até as frases
desnudas

se moverem como braços
e pernas de mulher sob o tecido

e em sigilo o louvor
entoarem do desejo

e do império do amor
no estio

No estio a canção
canta-se por si

acima das palavras surdas


THE BOTTICELLIAN TREES

The alphabet of
the trees


is fading in the
song of the leaves


the crossing
bars of the thin


letters that spelled
winter


and the cold
have been illumined


with
pointed green


by the rain and sun
The strict simple


principles of
straight branches


are being modified
by pinched-out


if s of color, devout
conditions


the smiles of love

.............

until the stript
sentences


move as a woman's
limbs under cloth


and praise from secrecy
quick with desire


love's ascendancy
in summer


In summer the song
sings itself


above the muffled words


A ACÁCIA-MELEIRA EM FLOR 


Segunda versão

Por
entre
verde

velho
claro
rijo

roto
ramo
outro

branco
doce
Maio

vem.


THE LOCUST TREE IN FLOWER 

Second version

Among
of
green


stiff
old
bright


broken
branch
come


white
sweet
May


again.


O POEMA

Tudo está
no som. Do som, a canção
Mesmo rara. Bom

que seja uma canção com
pormenores, vespas,
uma genciana algo
imediato, tesoura

aberta, olhos
de senhora desperta,
centrífuga, centrípeta.


THE POEM

It's all in
the sound. A song.
Seldom a song. It should


be a song made of
particulars, wasps,
a gentian
something
immediate, open


scissors, a lady's
eyes
waking
centrifugal centripetal.



A DURAÇÃO

Uma folha amarfanhada
de papel pardo mais
ou menos do tamanho

e volume aparente
de um homem ia
devagar rua abaixo

arrastada aos trancos
e barrancos pelo
vento quando

veio um carro e lhe
passou por cima
deixando-a aplastada

no chão. Mas diferente
de um homem ela se ergueu
de novo e lá se foi

com o vento aos trancos
e barrancos para ser
o mesmo que era antes.


THE TERM

A rumpled sheet
of brown paper
about the length


and apparent bulk
of a man was
rolling with the


wind slowly over
and over in
the street as


a car drove down
upon it and
crushed it to


the ground. Unlike
a man it rose
again rolling


with the wind over
and over to be as
it was before



MULHER DIANTE DE UM BANCO

O banco é uma questão de colunas,
tal como. a convenção,
e não a invenção; mas os frontões
lá estão sob o sol

para acalmar as dúvidas
de investimentos "sólidos
como rocha" sobre os quais o mundo
se firma, o mundo da finança,

o único mundo: Logo ali,
conversando com outra mulher enquanto
embala um carrinho de criança
de lá pra cá está uma mulher com um

vestido rosa de algodão, sem meias
nem chapéu; as pernas nuas
são duas colunas sustentando
seu rosto, como o de Lênin (o cabelo

frouxamente preso muito louro) ou
de Darwin, e aí
está:
mulher diante de um banco.


A WOMAN IN FRONT OF A BANK

The bank is a matter of columns,
like. convention,
unlike invention; but the pediments
sit there in the sun


to convince the doubting of
investments "solid
as rock"
upon which the world
stands, the world of finance,


the only word. Just there,
talking with another woman while
rocking a baby carriage
back and forth stands a woman in


a pink cotton dress, bare legged
and headed whose legs
are two columns to hold up
her face, like Lenin's (her loosely


arranged hair profusely blond) or
Darwin's and there you
have it.
a woman in front of a bank.





















 O PARDAL

              (A Meu Pai)


Este pardal
             que vem pousar em minha janela
                            é uma verdade mais poética
do que natural.
            Sua voz,
                            seus movimentos,
seus hábitos
            como gosta de
                             sacudir as asas
na poeira
            tudo o atesta;
                             admito que o faça
para livrar-se de piolhos
            mas o alívio que experimenta
                             leva-o
a gritar saudavelmente
            um traço que tem
                             mais a ver com música
do que com outra coisa.
           Onde quer que se encontre
                             no início da primavera,
em becos obscuros
           ou diante de palácios,
                             ele logo se entrega
sem afetação
           aos seus amores.
                             Tudo começa no ovo,
seu sexo o engendra:
           Que haverá de mais pretensiosamente
                             inútil
ou de que
           tanto nos vangloriemos?
                             Ele acarreta as mais das vezes
nossa perda.
           O galo novo, o corvo com
                             as suas vozes desafiadoras
não conseguem ultrapassar
          a insistência
                             do seu pipilo!
Certa ocasião
          em El Paso
                             ao cair da tarde,
eu vi e ouvi!
          dez mil pardais
                             que tinham vindo do
deserto
           empoleirar-se ali. Lotaram as árvores
                    de um pequeno parque. As pessoas fugiram
(ouvidos a tinir!)
           dos seus dejetos,
                             deixando o local
entregue aos crocodilos
           que viviam
                             na fonte. A imagem dele
é tão familiar
           quanto a do unicórnio
                             aristocrático, e é pena
que não mais se coma aveia
           hoje em dia
                             o que tornaria a vida
mais fácil para ele.
          Nisso,
                             seu pequeno porte,
seus olhos penetrantes,
          seu bico prestimoso
                             e sua agressividade
garante-lhe a sobrevivência
          para nada dizer
                             de suas inumeráveis
ninhadas.
          Até os japoneses
                             o conhecem
e o têm pintado
           empaticamente,
                             com profunda compreensão
de suas características
           menores.
                              Nada de sutil
sequer remotamente
           na sua corte amorosa.
                              Ele se agacha
diante da fêmea,
           arrasta a asa,
                              valsando, e alça
a cabeça
           e simplesmente
                              berra! O alarido
é terrível.
           O modo como esfrega o bico
                             numa prancha
para limpá-lo,
           é resoluto.
                             Assim também tudo o mais
que faça. Seus supercílios
           acobreados
                             dão-lhe um ar
de ser sempre
           um vencedor no entanto
                             eu vi certa vez
uma fêmea da espécie,
           aferrando-se, decidida,
                             à beira de
um cano d'água,
           agarrá-lo
                             pelas penas do cocoruto
e mantê-lo
           calado,
                             subjugado,
suspenso sobre as ruas da cidade
           até
                             ficar quites com ele.
Qual a utilidade
           disso?
                   Ela ficou dependurada ali,
ela própria
           admirada do seu feito.
                   Eu me ri com gosto.
Prático até o seu desfecho
           é o poema
                               da existência dele
que triunfou
           finalmente;
                               um punhado de penas
aplastado no calçamento,
            asas simetricamente abertas
                               como que em voo,
sem cabeça,
            o negro escudo do peito
                               indecifrável,
uma efígie de pardal
            uma pasta seca apenas,
                               deixada ali para dizer
e o diz
            sem ofensa,
                               lindamente;
Isto era eu,
            um pardal.
                               Fiz o melhor que pude;
adeus.


THE SPARROW

              (To My Father)

This sparrow
            who comes to sit at my window
                            is a poetic truth
more than a natural one.
             His voice,
                            his movements,
his habits

             how he loves to
                            flutter his wings
in the dust

            all attest it;
                            granted, he does it
to rid himself of lice
            but the, relief he feels
                           makes him
cry out lustily

            which is a trait
                           more related to music
than otherwise.
            Wherever he finds himself
                           in early spring,
on back streets
            or beside palaces,
                           he carries on
unaffectedly
            his amours.
                           It begins in the egg,
his sex genders it:
            What is more pretentiously
                           useless
or about which
            we more pride ourselves?
                           It leads as often as not
to our undoing.
            The cockerel, the crow
                           with their challenging voices
cannot surpass
             the insistance
                           of his cheep!
Once
             at El Paso
                           toward evening,

I saw
and heard!
             ten thousand sparrows
                           who had come in from
the desert
             to roost. They filled the trees
                           of a small park. Men fled
(with ears ringing!)
             from their droppings,
                           leaving the premises
to the alligators
             who inhabit
                           the fountain. His image
is familiar
             as that of the aristocratic
                           unicorn, a pity
there are not more oats eaten
             nowadays
                            to make living easier
for him.
             At that,
                            his small size,
keen eyes,
             serviceable beak
                            and general truculence
assure his survival

             to say nothing
                            of his innumerable
brood.
             Even the Japanese
                            know him
and have painted him
             sympathetically,
                            with profound insight
into his minor
             characteristics.
                            Nothing even remotely
subtle
             about his lovemaking.
                            He crouches
before the female,
             drags his wings,
                            waltzing,
throws back his head
            and simply

                            yells! The din
is terrific.
            The way he swipes his bill
                           across a plank

to clean it,
            is decisive.
                           So with everything
he does. His coppery
            eyebrows
                           give him the air
of being always
            a winner
and yet
                           I saw once,
the female of his species
            clinging determinedly
                          to the edge of
a water pipe,
            catch him
                          by his crown-feathers
to hold him
            silent,
                          subdued,
hanging above the city streets
            until
                          she was through with him.
What was the use of that?

                          She hung there
herself,
            puzzled at her success.
                          I laughed heartily.
Practical to the end,
            it is the poem
                          of his existence
that triumphed
           finally;
                          a wisp of feathers
flattened to the pavement,
           wings spread symmetrically
                         as if in flight,
the head gone,
           the black escutcheon of the breast
                         undecipherable,
an effigy of a sparrow,
           a dried wafer only,
                         left to say
and it says it
           without offense,
                         beautifully;
This was I,
           a sparrow.
                        I did my best;
farewell.



In WILLIAMS, William Carlos. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

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