segunda-feira, 2 de maio de 2016

Luis Aranha



Na teia de Luis Aranha

No poema ‘Drogaria de éter e de sombras”, pequena obra-prima do Rimbaud do modernismo paulistano, o eu para lá de etílico afirma:

“Eu era poeta...
Mas o prestígio burguês dessa tabuleta
Explodiu na minha alma como uma granada.
Resolvi um dia,
Incômodo mensal das musas,
Ir trabalhar numa drogaria
E executei o meu projeto.”

Mais à frente expõe a generosa rotina.

“Sabia
O nome a todas as formosas,
Que amava muito mas que vendia mais
Embrulhadas todas em papel de seda,
Mantos de cores nacionais...
Morfina
Cocaína
Benzina
Aspirina
Quina
Sina
Atropina
Examina
Gelatina
Heroína
Fenacetina
Antipirina
Papaína
Exalgina
Digitalina
Aconitina
Estricnina
E tantas outras que não lembro mais!”

E como todo bom poeta circula fora da esfera oficial, o novo ofício também não se enquadrou no código de costumes dos vigilantes da cidade:

“Fechada a Drogaria
No bonde
Eu lia um jornal:
Todos os telegramas todos os artigos todos os anúncios
Acontecimentos universais
Campanha da polícia contra a toxicomania...
Eu, droguista, não podia vender cocaína morfina e ópio
Mas poeta queria provar o suco da papaverácea como Quincey e Coleridge!
Uma chinesa sentou-se ao meu lado
E o bonde corria equilibrando-se nos trilhos...”


Esquartejei o poema porque sou um bárbaro carniceiro, se em alguma das três partes alguém encontrar poeticina, favor dirigir-se ao corpo completo do extenso poema, traficado por Luis Aranha, em 1922, no livro Cocktais. Usei a edição da Brasiliense de 1984 (a única que conheço).


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