quinta-feira, 30 de julho de 2009

ZANTONC


Zantonc vestido para andar nas ruas do Rio de Janeiro

Publico um poema de Zantonc, não sei se é um poeta ou uma entidade, baixa de vez em quando, na verdade é alguém que escapa de mim, fora de controle. Disse-me o bardoido que está aproveitando a Reforma Ortográfica para escrever um Anarcodicionário da Língua Portuguesa. O texto abaixo é um esboço do emprendimento ainda na fase inicial, se bem que o poeta até hoje só tenha conhecido esta fase, nunca termina o que começa. Vamos torcer para que insista ou desista de uma vez do ofício de escrevinhador de nulidades. Confesso, no entanto, que não desgosto de sua visão anarcopoética, apesar de toda a acidez.

Como vocês podem ver, Poemargens é um blog de extremos; depois do maravilhoso Arnaut Daniel, post(o) isso.









 


Cildo Meireles


I n v o c a b u l u s

Insurreição. Substantivo existencial. Movimento de retorno à palavra manifestada como ausência. Cisão entre o antes e o depois. Ver: Antígona, Hölderlin, Vallejo e Khlébnikov.

Arte. Antinome indeterminado. Algo que desapareceu no horizonte, no tempo em que este ainda existia, entre Grécia e Bahia. Ver: Aristóteles, Hegel, Heidegger, Cartola e Zeca Pagodinho.

Palavra. Substantivo hipotético. Não é vocábulo, nome, termo, conceito ou qualquer definição conhecida. Autotélica e tautológica forma do nada, do qual emerge como fratura e suicídio. Ver: Wittgenstein, Beneviste, Guimarães Rosa, a Bibla (não encha o meu saco, ortografo como quiser).

Poesia. Substantivo indeterminado. Algo que impulsiona a pro-dução, poiésis. Paradoxo: o incriado criador que produz aquilo em que não pode ser encontrado, pois nele não reside. Passagem em múltiplas formas e suportes, ainda hoje há quem acredite em sua sobrevivência como energia criadora ou fantasma. Ver: sei lá, liga a televisão.

Poema. Substantivo em extinção. Arquitetura insuflada pela anima da poiésis. Espécie de inutensílio costurado por espaços inúteis e signos absurdos para gáudio de esnobes e narcisos. Espelho de poetas que dispensa a imago de leitores. Ainda que extintos, sobrevivem ferozes e falaciosos no mínimo círculo de seus iniciados. Ver: Concretismo, Ponge, e. e. Cummings, Apollinaire, Arnaldo Antunes. (serve também qualquer poeta de botequim).

Isso. Pronome inconclusivo. Dêitico especificativo de porra nenhuma. Opõe-se àquilo para tornar nítida a oclusão da existência. Expelido por Kierkegaard, tem infernizado a vida de filósofos, apesar de a filosofia ter se transformado em esquizofrenia. Ver: Heidegger e outros místicos.

Ética. Substantivo de marketing. Criado pelos irmãos Platão, Spinoza e Kant, sob a curadoria papal, faz parte dos organogramas empresariais e alimenta ongs picaretas. De natureza vaga e modus embromatorius, é uma máscara para o sem rosto da sociedade, normalmente disfarce para o repulsivo e o hediondo. Ver: direitos do consumidor, analistas políticos da burguesia (perdoem a redundância), sociólogos (ou seja, explicadores submissos da nossa realidade), religiosos (de preferência, fundamentalistas, tarados e pedófilos), melhor: consulte todo mundo, pois todos se declaram éticos.

Amor. Substantivo arcaico. Termo a ser banido da língua portuguesa. Mau hálito e azia. Dor de barriga. Insônia. Aumento de dívidas e da lista de remédios. Mau funcionamento do lado esquerdo do cérebro. Disfunção hepática e coronariana. Álvares de Azevedo, em mensagem psicografada, revelou-me ser o amor um pântano produzido apenas por palavras dispostas em uma química de enganos. Ver: Jack, o estripador, Sade, Safo, Oscar Wilde, a minha vizinha do quinto andar e as meninas da Vila Mimosa.

terça-feira, 28 de julho de 2009

ARNAUT DANIEL


ARNAUT DANIEL (1180-1210?)

Todos os poetas da minha geração tomaram contato com este trovador provençal graças ao excepcional trabalho de Augusto de Campos, cujo livro Verso Reverso Controverso, de 1978, colocou em circulação de modo mais intenso a poesia provençal no corpo da poesia brasileira contemporânea.

Para Pound a “arte de Arnaut não é literatura, é a arte de combinar palavras e música numa sequência em que as rimas caem com precisão e os sons se fundem ou se alongam. Arnaut tentou criar quase uma nova língua, ou pelo menos ampliar a língua existente e renová-la”.

No pequeno estudo introdutório às canções do poeta provençal, publicado no livro Invenção (São Paulo: Editora Arx, 2003), leitura fundamental a quem se interessa por poesia, de onde retirei o poema (p. 98-105), Augusto de Campos resumiu à perfeição a arte de Arnaut: “Oito séculos nos separam, pois, dessas 18 canções. Repito. Há mais que aprender com elas do que com muitos maciços volumes de obras completas do que vieram antes ou depois. A flor da poesia de Arnaut está intacta. O tempo não roubou seu saber nem seu sabor. E “l’olors de noigandres” continua a nos livrar do tédio e a nos incitar ao novo”.


Ieu sui Arnautz qu’amas l’aura
e chatz la lebre ab lo bou
e nadi contra subera.

Eu sou Arnaut que am(ass)o (l)a(u)r(a),
e caço a lebre com o boi
e nado contra a maré.
























L’AURA AMARA

L’aura amara
fa•ls bruoills brancutz
clarzir
que•l doutz espeissa ab fuoills,
el•s letz
becs
dels auzels ramencs
ten balps e mutz,
pars
e non pars;
por qu’eu m’esfortz
de far e dir
plazers
a mains, per liei
que m’a virat bas d’aut,
don tem morir
si•ls afans no m’asoma.

Tant fo clara
ma prima lutz
d’eslir
lieis don cre•l cors los huoills,
non pretz
necs
mans dos aguilencs;
d’autra s’es dutz
rars
mos preiars:
pero deportz
m’es ad auzir
volers,
bos motz ses grei
de liei, don tant m’azaut
qu’al sieu servir
sui del pe tro c’al coma.

Amors, gara,
sui ben vencutz,
c’auzir
tem far, si•m desacuoills,
tals d’etz
pecs
que t’es mieills que•t trencs;
qu’ieu soi fis drutz,
cars
e non vars,
ma•l cors ferms fortz
mi fai cobrir
mains vers;
c’ab tot lo nei
m’agr’ ops us bais al chaut
cor refrezir,
que no•i vai autra groma.

Si m’ampara
cill cui•m trahutz,
d’aizir,
si qu’es de pretz capduoills,
dels quetz
precs
c’ai dedinz a rencs,
l’er fors rendutz
clars
mos pensars:
qu’eu fora mortz,
mas fa•m sofrir
l’espers
que•ill prec que•m brei,
c’aisso•m ten let e baut;
que d’als jauzir
no•m val jois una poma.

Doussa car’, a
toit aips volgutz,
sofrir
m’er per vos mainz orguoills,
car etz
decs
de totz mos fadencs,
don ai mains brutz
pars,
e gabars;
de vos no•m tortz
ni•m fai partir
avers,
c’anc non amei
ren tan ab meins d’ufaut,
anz vos desir
plus que Dieu cill de Doma.

Era•t para,
chans e condutz,
formir
al rei qui t’er escuoills;
car Pretz,
secs
sai, lai es doblencs,
e mantengutz
dars
e manjars:
de joi la•t portz,
son anel mir,
si•l ders,
c’anc non estei
jorn de’Aragon qu’el saut
no•i volgues ir,
mas sai m’a clamat Roma.

Faitz es l’acortz,
qu’el cor remir
totz sers
lieis cui dompnei
ses parsonier, Arnaut,
qu’en autr’albir
n’es for m’entent’a soma.


AURA AMARA

Transcriação de Augusto de Campos

Aura amara
branqueia os bosques, car-
come a cor
da espessa folhagem.
Os
bicos
dos passarinhos
ficam mudos,
pares
e ímpares.
E eu sofro a sorte:
dizer louvor
em verso
só por aquela
que me lançou do alto
abaixo, em dor
— má dama que me doma.

Foi tão clara
a luz do seu olhar
que em meu cor-
ação gravou a imagem.
Dos
ricos
rio, seus vinhos,
damas e ludos
parec-
em-me vulgares.
Só tenho um norte:
morrer de amor
imerso
no olhar da bela
que me tomou de assalto,
seu servidor
ser, dos pés até a coma.

Amor, para!
Que queres mais provar?
Por que tor-
turares o teu pajem,
só os
picos
dos teus espinhos
pontiagudos
dares,
flores negares?
A alma é forte,
mas o cor-
po inverso
já se rebela
e quer de um salto
colher a flor
de boca, beijo e aroma.

Se me ampara
essa a quem vivo a orar,
no calor
da sua hospedagem,
jus-
tifica os
meus descaminhos,
muda os
pesares
dos meus pensares.
Mas antes morte
contrapor
adverso
do que perdê-la,
só meu sobressalto.
Que o seu valor
é mais que qualquer soma.

Face cara
que me faz pervagar
sem temor
atrás de uma miragem,
nos becos,
pelos caminhos
mais desnudos,
por ares
e por mares,
em louco esporte.
Surdo ao rumor
perverso,
somente a ela
sobreamo, falto
de senso, amor
maior que a Deus tem Doma*.

Vai, prepara
canções para doar,
trovador,
ao rei em homenagem.
Rús-
ticos
pães, duros linhos
serão veludos,
rarís-
simos manjares.
Parte com porte.
Embora em dor
subverso,
venera o anel**. A
Aragon, baldo,
vai teu ardor,
pois quem comanda é Roma***.

Ei-la em seu forte.
Combatedor
converso,
em sua cela
sou prisioneiro, Arnaldo.
Esse sabor
de amor ninguém me toma.


* Doma: aldeia de Périgord, onde havia um mosteiro no alto de uma montanha.
** O anel: trata-se do anel de Alfonso, rei de Aragão, ao qual o poeta deveria prestar tributo.
*** Roma: a alusão é obscura. Segundo uma interpretação, Arnaut tomou o hábito monástico, trocando Aragão, onde teria deixado alguém que amava, pela religião de Roma. Toja considera legendário esse episódio biográficoe, adotando a lição de Appel, lê “roma” como imperativo do verbo “romaner” (permanecer).

sexta-feira, 24 de julho de 2009

OSVALDO BOSSI

OSVALDO BOSSI Cursó estudios de Letras y psicología en la UBA. Es autor de lo siguientes libros de poemas: Sodoma (l988), El prisionero radiante (l990), Al amigo que duerme (l993) y dos nouvelles: La médium y Lo más espeso del monte. En 1997 la editorial Bajo la luna publicó Tres y en el 2001 la editorial Siesta Fiel a una sombra. Integra la antología de la poesía joven argentina Monstruos (Fondo de Cultura Económica, 2001) con prólogo y selección de Arturo Carrera. Colaboró en distintas publicaciones del medio literario como Diario de Poesía, El Banquete de Córdoba, Hablar de poesía y Tsé Tsé, entre otras. Coordinó talleres de escritura en el Centro Cultural San Martín, en la mutual de psicología El Bancadero, y en el Ricardo Rojas, donde también dictó, junto con Walter Cassara, un seminario sobre las poéticas del mal y coordinó el ciclo de lecturas y charlas literarias “Primero Sueño”.


P O E M A S










Gustav Klimt


COMO ESE ÁRBOL

que agita su fronda
cuando un pájaro se le acerca
y gira (más que alado, tornasolado)
alrededor suyo, sin atreverse
a posar una sola de sus patas,
como si fuera un río congelado
y no un árbol
que la naturaleza ha puesto
delante de sí, o fuera a derrumbarse:
como si un pájaro
pudiera hacer que un árbol se derrumbe
o el árbol no quisiera, en el fondo
perder por un segundo su estabilidad,
como si no se oyera un silbido
entre las hojas, un largo llamado
de apareamiento, y el pájaro
que se conoce, pensara una vez más
que es su propio deseo de amor
girando entre las hojas,
como si el árbol
viviera en una jaula autosuficiente
y tronco y trino
no provinieran de una misma raíz,
como si un pájaro
pudiera ser un pájaro de verdad,
lejos de su árbol, y a la inversa...

























Donald Jimenez


EL MUCHACHO CONTORSIONISTA

No tengo amigos, pero me llevo bien con los relámpagos.
De dónde quiero salir, adónde quiero llegar,
no lo sé. De la mañana hasta la noche
doy vueltas a lo mismo, como si poner un brazo aquí,
una pierna allá, me impidieran caer en el dolor...
No hay dolor para mí. Es importante que sepan
esto: no hay dolor. Y no entiendo a la gente que sigue quieta,
aferrada a lo mismo, o deja que las cosas continúen
en su lugar. Yo sueño con un cuerpo distinto
cada vez, y no me importa que sea el mío:
puedo pasar de lobo a niño, de elefante a cangrejo
en pocos segundos, haciendo pequeños arreglos.
Algunos piensan que lo mío no es flexibilidad
sino un error de base, como si me faltara un eje,
un punto de apoyo... Puede ser. Mi madre se horroriza
al verme, y mi padre se ríe, se divierte conmigo
como si dijera: Este muchacho... Sin ir más lejos
anoche tuve una pesadilla. Dormido y desnudo
en mi cama, cualquiera (¿se dan cuenta?) cualquiera
podía verme. Mi novia, incluso, que es muy posesiva
podía encerrarme en una cajita de fósforos
o esconderme tranquilamente en un dedal.


























Basquiat


AVISO A LOS NAVEGANTES

No pondré un cerrojo en mi puerta,
pero habrá una puerta.

No comeré del mismo plato.

No saldré a caminar de noche
por más devastadora y hermosa que sea
la noche de junio al lado tuyo
cuando en mi corazón aún sea de día
y una pequeña llama
arda en la íntima cocina: apacible.

No caminaré sobre el agua
No buscaré desconsolado, a cualquier hora
un parque de diversiones.

Cuando la primera insidia llegue
o el deseo surja como un abejorro punzante
no los cubriré.

Como no hay salvación posible
ni castigo compensatorio
no voy a pedirte que me escuches ni me deslumbres
con el chasquido de tu látigo

Que seas justo o bello, o que no lo seas
correrá por tu cuenta.
A cada cual su alvéolo, su santuario y su ración de escoria.

Que en nombre del amor no te calme
ni me perdone ni te justifique.
Que llegada la hora del descanso, descanse
No me ataree en la secreta construcción de un puente
pavoroso o magnífico.

Ningún efecto, ninguna causa
será completamente tuya ni de nadie: no serás responsable.
A cada cual su monstruo ¿no es suficiente?

No me llames por teléfono para que lo vigile
por favor esta noche, cambie su agua o le dé de comer.
No soy una excepción, y voy hacia lo mismo
como todo el mundo.

No te olvides de mí, pero sobre todo no te acuerdes
únicamente cuando las cosas andan mal.
Mi sabiduría no es tan sabia ni tan tonta:
empieza con mi corazón y por él se termina.

Llegado el momento, no pagues mi excarcelación.
Sea o no inocente, no me impidas
la retórica del mal. (No es tan difícil.)

El mundo, es cierto, y las cosas que hay en el cielo
se han modificado con tu presencia,
pero no me quieras engañar. No me digas:
La soledad, a partir de ahora, ya no será una preocupación.
Aunque pueda, yo no quiero perder
ese vértigo, el fondo sobre el cual bulle una copa
a veces sumamente amarga y a veces... dulce.

Que yo no diga
--y si lo digo no me escuches: No soy nadie sin ti.
Y si soy nadie fatalmente, que yo comprenda
que sólo ha sido por mí mismo.




León Ferrari


EL VIENTO

Solamente escucho su voz:
unas pocas nubes graves
que se alejan o se acercan
y enseguida chocan contra el oído.
No las palabras que me dice, sino la base
de ese pequeño y atolondrado
instrumento de música.
Para comprobarlo, apoyo mis dedos
sobre sus labios
como si fueran las aspas de un ventilador
(con ese peligro) o algo más raro todavía:
como si me zambullera en el mar, en pleno julio,
y él estuviera esperándome en la orilla
(el mismo short azul, la misma sonrisa
filosa e indulgente...)

Otras veces, en cambio, subo
hasta la terraza o abro, como si fuera un asmático
(pero no soy un asmático) la ventanilla de los autos
y pienso, pienso
en la perpetua ondulación de los árboles
que refresca la noche y relampaguea.
Aunque parezca una superstición.
El desvarío de un muchacho que, con sólo asomarse,
cae en el pozo más profundo.

SUSANA VILLALBA

Susana Villalba (Buenos Aires, Argentina, 1957). Como poeta ha publicado: Oficiante de sombras (1982), Clínica de muñecas (1986), Susy, secretos del corazón (1989), Matar un animal (Caracas, 1995; BsAs, 1997), Caminatas (1999) y Plegarias (2004). En teatro, cursó la carrera de dramaturgia en la E.A.D. Cursó también Dirección y Puesta en escena con Rubén Szuchmacher en el Centro Cultural Ricardo Rojas. Em el marco de las intervenciones convocadas por el Centro Cultural de España sobre dramaturgos españoles clásicos, realizó la obra-intervención sobre Jacinto Benavente. En POESIA, pertenece al Consejo editor de la revista y editorial Ultimo Reino, tiene seis libros de poesía publicados, uno reeditado en Venezuela y otro reeditado en Nueva York. Creó y dirigió la Casa de la Poesía porteña y la Casa Nacional de la Poesía y los Festivales Internacionales de Poesía del Gobierno de la Ciudad y del Gobierno de la Nación. Dictó talleres literarios en la Facultad de Letras de la U.B.A. Participó de numerosos congresos. Diseña y conduce un programa de Poesía y Música de la Biblioteca Nacional en Radio Clásica de Radio Nacional, junto a la actriz Ingrid Pelicori. En PERIODISMO, colabora en el suplemento de espectáculos del diario Clarín y de la Revista Ñ, anteriormente colaboró en diversos matutinos y revistas. OTROS, dictó talleres de cine y literatura con el crítico de cine Alejandro Ricagno. Cursó diversos seminarios de cine. Dictó talleres de fotografía y poesía junto al fotógrafo Marcos Adandia.

Las imágenes son obras de León Ferrari.


POEMAS
























TAXI BOY

Preferís la clásica
Red Ryder, es necesario
que no queden restos,
que el disparo suene
a la palabra Winchester,
con eco en una piedra.
O a Chinatown, el opio
de soltar el arma
como si el muerto fuese quien gatilla
contra su último objetivo.
No es la muerte necesaria
sino el disparo,
ahora lo sabés.
Y no es el caso
un francotirador
sino el que sale a disparar
o entra en un bar
quitando la espoleta a una granada.
Lo que concluye con puntos suspensivos,
ahora sospechás, tuvo otra trama,
ese silencio
presagia una verdad como zarpazo,
la historia que creíste
se defiende
como un animal contra una sombra.
El taxi-boy asesino,
quien creía desear es finalmente
presa
de quien tampoco sabe
a quién quería matar
hasta que lo reclaman.
Lo que elegís es un arma,
al menos la Ryder tiene algo
de vaquero,
diseño personal con arabescos
en la culata de madera.
Quisieras una mira
para matar lo que no existe
o no sabés qué es
que te mantiene todavía a la espera
de un roce entre las hojas
de tu libro
abandonado.
Perdiste el hilo,
estás mirando por la ventana,
llueve ahora
como debiera llover en una selva,
desde un piso no ves sino que cae
la lluvia y en esa condición
irreparable de caer
existe.
Caer en amor,
quién habrá traducido esa novela,
aquí es como enredarse
o empaparse.
Qué haría un animal
cercado por el agua.
O por el fuego.
Quizá lo hará salir la lluvia,
debajo de una piedra se hace el muerto
como engaña la tortuga
a presa y cazadores por igual
y ya no sabe distinguir
la muerte verdadera.
Pero perdiste el hilo,
estabas leyendo ese catálogo
y habías elegido la Red, precisamente
para una muerte distinguida
desde lejos,
desde el momento de apoyarla
en tu hombro y ya ese acto
tiene la contundencia de palabras
como shot.
Chau
debiste despedirte,
después lo encontrás en una fiesta,
como en el libro, decís
“Ciao, cómo va todo, caro”,
el personaje sufre
un ataque de risa, se cae,
somos tan torpes,
cómo va todo.
Todo no sabés,
disparar por ejemplo
un rifle te hizo caer
y el partido te dio una Beretta,
nunca se sabe y no la quisiste,
además no entendiste que era en serio.
Te gusta la Red porque es atemporal,
el modus operandi determina la víctima.
O el Red,
rifle, escopeta, no sabés
si es una diferencia de palabras,
como todo.
Red Hot, Roy Ryder,
suena a comedia justiciera,
Annie Oakley, como vos,
una chica que toma las riendas
de la nada
en medio de un desierto
de maqueta.
Perdiste el hilo otra vez.
Perdiste el momento del disparo
como el viejo cazador
que vive relatando cuando hubiese
el asta más hermosa;
no quería cazar sino contar la historia
puliendo las palabras cada vez
como quien saca brillo a un Winchester.
Perdiste el tiempo,
tenías que salir aunque lloviera
pero volvés a la novela,
al catálogo,
a mirar por la ventana.
No apuntás a matar
sino a encontrarte con sus ojos.
Una mirada que se fuga
te vuelve un animal desconocido.
Perdiste el hilo de tu historia
y creés disparar
es retomarla.
Pero no importa lo ocurrido
sino lo que relates.

























LA MUERTE DE EVITA

Llovió como si nunca fuera a terminar. Y nunca terminó. Toda la tarde llovió como si fuera de pronto otro lugar. El pueblo seguía la táctica del agua una vez más. Una vez más la gente se parecía al cielo y el cielo nunca. Nunca estuvo más lejos que esa noche. Madre de dios, nuestra difunta, levante los jirones de nuestro corazón.
Al agua del sueño, jirones de alma, de nuestro cuerpo llevanos vos que no tenemos dónde llevarte. Tu cuerpo se esfuma como una voz.

Como la seda cruje un paso en la sombra, un eco de jinetes negros. Escondanós en los pliegues de su muerte, de su pollera, en el vacío Pampa guarde nos como un viento que se detuvo para siempre en su bolsillo. Descanse, que el mundo no existe más.

Sigue lloviendo y es la misma plaza, el subte con asientos de madera, mamá no podía llegar, corría, no me encuentra, yo no la encuentro, como un perro que no alcanza su cola, no alcanza su tiempo.

No había nacido yo pero ella estaba ahí, bombardeaban la plaza, esta misma, damos vueltas, mamá corría a una playa de estacionamiento y perdía un hijo, no era yo, yo no la encontraba, todavía no la encuentro, ella no me reconoce porque todos corren, la empujan, sube a un tranvía hacia cualquier parte, dice que es mentira, algo estalla bajo la lluvia. No escuche abanderada, venga a nos, a llevarnos a su país en blanco y negro.

Mamá da vueltas, doy vueltas, vamos al cine, ella se viste como Zully Moreno, la ciudad está sembrada de nomeolvides. No nos olvide ilustre enferma, somos un cuerpo que se corrompe bajo la lluvia, vidrio, un día embalsamado. Miramos fotos. Papá no aparece. No está. Un auto zumba en la noche. Llovió durante quince días.
Estoy acá, no me ves pero estoy, corriendo en la misma plaza. Camino por las mismas veredas, como vos del trabajo voy a casa y en casa también llueve, todo huele a humedad, a asfixia. La niebla está adentro, en todo el barrio, se ven pocos negocios abiertos, poca gente en la calle. Cae la noche como si fuera consecuencia de la lluvia, como si fuera la lluvia lo único que queda.

La gente forma fila durante días para irse con ella, adonde sea, adonde vaya. No desate los nudos santa que ya no va a parar. No para nunca esta caída.

Mamá escucha radio. Papá no escucha. Yo todavía no existo. Somos los Perez García. En el patio llueve. El reloj se detuvo. No los encuentro, son de otro mundo.
Hay una marcha de antorchas, de lágrimas, de lluvia, estampitas, carteles, está en todas partes. Está en la radio pero no se la ve. Santa de los anillos, virgen de las capelinas haga su magia, háganos aparecer.

Que aparezca la casa, los azahares, luciérnagas, el tren. Diga una sola palabra que detenga la lluvia. Mamá con un vestido de flores, una plaza, un sol con pinturita naranja. No es que creíamos, estábamos ahí.

Damos vueltas en la bruma, en la tregua de una fina llovizna. Incluso la tristeza que aparezca si es común, como cualquiera que está triste una tarde. Y otra no. Que aparezca la muerte si parece de una vida, si toca. Lo que sea en proporción al tamaño de un hombre, del árbol, de una casa.

A no ser que sea lo humano nada más que una estrategia de dios para la tierra perdida de su mano y atada a su correa, una doctrina de la espera de algo más que agua que cae, que da vueltas y vueltas sobre sí, como los perros, los relojes, las monedas.

Mamá escucha la lotería, papá mira la lluvia, miraba. Yo miro fotos, todos hablan, nadie dice nada. Mi hermana escucha música, mamá la busca en un tren, corre, siempre está corriendo. Yo no puedo nacer todavía porque bombardean la plaza, después porque ella corre por unos vagones. Al final nacía. Después todos mirábamos televisión.

Dicen cuando no llueve que aparece en su mulánima, a las orillas de los ríos, arrastrando una estola embarrada, que por la noche frotan lavanderas fantasmas, dejan sus tules al rocío. Que cabalga cabizbaja como buscando un prendedor, que también buscan los peces en las piedras del fondo, dicen que el caracol de agua dulce reproduce aquel clamor.

Reina de la plaza, de los vestidos, protectora de todo lo que se escucha pero no se ve, venga a nos el tu reino.

Bien mirada es una plaza de colonia, la fuente, el cabildo, la catedral, la estatua, la municipalidad, el Banco, la palmera, los puestos de chori, de llaveros, medallitas, las palomas, la gente que da vueltas. El otoño se instala como bruma, como un remanente cuando aclara, eterno día después. Recogen los papeles de una fiesta de domingo, los vasos descartables, las botellas.

No nos dejes caer de la tentación, del deseo, del sol, madre de dios, decí que somos tambén una de las razones de la vida. Decí por nosotros con esa voz de altoparlante pueblerino y en la hora de la muerte con esa voz de ruido de lluvia de la radio.

Mi hermano va a la canchita del Club de Cazadores. Lo espero en el olor a cuero y a penumbra del salón, a lavandina y a cenizas. Una foto detrás de los trofeos de billar, con una escarapela. La seño, la primera, llevan su camafeo apretado en el puño a ver si pasa. A ver si rasga la tela de los muertos y aparece en miríada. Miro cada relámpago a ver cuál es de fuego.

Acaso exista el mal, rezó la multitud bajo una lluvia que apagaba las velas, un tumor inconmovible, inexorable como bruma que se expande, se instala entre los huesos, en la sangre.

Virgen salitrera, guardiana de los perros y los barcos hundidos por su peso, cayeron todas las hojas del otoño, el invierno empieza porque te vas, la música fría del silencio. Silencio capitana, las palabras ya no quieren decir lo mismo.

El guión terminaba. Después yo nacía. Mamá decía que era mentira. Papá compraba un auto. Mi hermana manejaba. Yo me escondía por ellos, en el patio, cuando no llovía me encerraba afuera. Después se fueron todos. No, me fui yo. Después estaba ahí. En alguna parte.

Relampaguea sobre la autopista. Llovió durante todo el día y sigue lloviendo. Se perdió la cosecha. No hay otra cosa que perder. No hay otra cosa que hacer que no trabajar. No pasan trenes. Los bares cerraron temprano. Una hilera de luces se borronea hacia el final de la calle.

Generala del viento, de nada, de las gomas que queman en la ruta, levante su ejército de trapos mojados y de agua, lleve la tempestad hasta el registro de su voz. La voz es lo primero que se olvida.












SÉ QUE MI PETICIÓN ES PRECIPITADA

yo
yo y mi
yo y mi cuerpo fuimos a esa fiesta
yo bailé
hermoso rico y poderoso rozaba mi cuerpo
mi betty boop mi reina descalza
mi nombre es yonimeri yo también
fuego furia ¿fumás? fuimos a su casa
estás mojada no sé no hemos sido presentados
sumergidos suma de noche estera estambres estaba aterrorizada
profeta centinela sentí un automóvil rojo rubio el tabaco
su espalda fuerte trepaba mi caída ínfimos funestos café
piedras para dormir me acompañaba a casa y olvidé decirselo
las palabras son monedas clavadas a la tierra
historias de susy siempre lo he sabido
cómo explicarte hubiese cupido calendario
perdida en los andenes al día siguiente mi sombra caía del piso 29
olvidé decirle que siempre nadie y yo nunca los amores cobardes
lloraba no llegan porque los hombres etcétera
él era despiadado todo un hombre quemado de belleza
mi cuerpo gemía como un gato y lo envidié pero yo nunca
me meto en sus asuntos
dijo tu piel mi nena dame no sé qué cosa qué llave del infierno
yo hubiera declarado desplegado y estrenado un novio
hubiese dicho a mis amigas entrado en algún bar
hubiese hubiese vino que me matara
habráse visto tan chiquita y calentando bancos en la plaza
ay corazón si te fueras de madre
siempre la pena entra la pena y la nada
mi cuerpo roto pegado a lo sumido curioso rito de cucharas en la mesa
sobre la mesa en la ducha él era el agua y me frotaba
belladona
dame en el centro de lo que siempre habla el espejo la sombra
del deseo era lacan en mi escritorio
ah para su estudio de análisis oh para sus análisis
acababa de ver
mi cuerpo demasiado tarde dónde estuviste le decía
ay corazón si supieras ser látigo y dormir










LA PANTERA

Matar al animal
requiere un animal
sin sombra.
Vas caminando por un monte
o te parece, no sabés dónde estás;
creés que lo sabías
cuando llegaste.
Ese negro
bien puede ser una pantera
o mujer,
no te das cuenta.
La mirada salvaje te gusta,
no, te calienta.
No, te mira
como quien no comprende
dónde está.
Ya estás perdida,
tendrías que llevarla a tu casa
pero sabés cómo termina:
un animal herido
siempre ataca.
Tendrías que matarla,
ahora,
antes de que sea tarde
o por piedad.
Pero esa mirada es una trampa,
si es pantera
sabe matar mejor
que vos.
Nadie sabe tu nombre
aquí
y ahora él
o mujer te da la espalda.
Pensás en un Remington
liviano
de distancia corta.
Pero nadie escucharía,
Red Hot los distrae,
a vos también.
Y no se mata por la espalda,
lo viste en las películas
o creés en eso.
Matar
es otra cosa.
Ahora te mira y ya sabés,
vas a llevarla a tu casa.
Está tocado por la gracia,
está a la vista
o vos lo ves, no estás segura,
o tiene algo
que creés comprender.
Y sin embargo
sabés cómo termina:
no sabés cómo
te hirió si te quería.
No querés acercarte,
te mira como miran los gatos
cerrando los ojos.
Es un hombre
por la manera de fumar,
se apoya en la barra
frente a vos,
los dos están perdidos.
Pensás en el Remington,
nunca tuviste uno.
Matar es otra cosa.
Nadie parece comprenderlo,
el negro tampoco pero ve
que tenés un cigarrillo
en la mano
y otro ardiendo
en el cenicero;
se acerca y lo fuma.
Estás perdida,
creés saber cómo termina
y volvés a equivocarte,
apaga el cigarrillo
y se va.
Ahora nadie
se parece a tu deseo.
Y es que no se parecía.
Una pantera perdida
en su memoria
o forma de mirar
o lo que fuera
que no vas a saber.
Tomás un taxi pensando
demasiada belleza no es el móvil,
es la coartada.
Para matar a una pantera
hay que cerrar los ojos.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

GONZALO ROJAS

Gonzalo Rojas nace el 20 de diciembre de 1917, en el puerto de Lebu (VIII Región, CHILE). Estudia en el Internado de Concepción y, posteriormente, en la Escuela de Derecho de la Universidad de Chile, carrera que abandona en su tercer año para ingresar al Instituto Pedagógico de la misma universidad. Durante el transcurso de sus estudios trabaja como inspector en el Instituto Barros Arana, alfabetizador de los mineros en Atacama, es jefe de redacción de la revista Antártica en Santiago y, nuevamente, profesor en Valparaíso. Entre los años 1938-1941 participa, más bien como disidente, en el grupo surrealista Mandrágora fundado por Braulio Arenas, Teófilo Cid y Enrique Gómez Correa. Siete años más tarde aparece La miseria del hombre (1948), su primer libro de poemas, provocando reacciones encontradas entre los críticos oficiales que no fueron compartidas por Gabriela Mistral: "su libro(...) me ha removido y, a cada paso admirado y, a trechos, me deja algo parecido al deslumbramiento de lo muy original, de lo realmente inédito".

En 1952, habiendo obtenido el grado de Licenciado en Filología Clásica, gana -por concurso-, las cátedras de Literatura Chilena y Teoría Literaria en el Departamento de Español de la Universidad de Concepción donde permanece hasta 1970, fecha en que es nombrado por el Presidente de la República, Salvador Allende, Consejero Cultural en China. En su permanencia en la universidad organiza y dirige importantes actividades culturales como las Escuelas Internacionales de Verano en cuyo marco se realizaron el Primer Encuentro Nacional de Escritores (1958) y el Primer Encuentro de Escritores Americanos (1960). Para Carlos Fuentes y José Donoso estas reuniones, habrían sido el comienzo del boom latinoamericano, pues abrieron un espacio de reflexión -como el propio poeta lo propusiera-, en torno a las imágenes de América Latina y del hombre actual. Esta intensa actividad académica no le impide el ejercicio poético, en busca de la palabra diamantina que habitará en Contra la muerte (1964), libro celebrado unánimemente por la crítica.

El golpe militar chileno (septiembre, 1973) lo sorprende en La Habana, donde se desempeña como Encargado de Negocios; no sólo la historia de su país tiene un giro violento también, su vida. El poeta es ahora un exiliado, un "indocumentado" a quien no sólo se le ha arrebatado su rango de diplomático sino también se le ha expulsado de todas las universidades chilenas por "significar un peligro para el orden y la seguridad nacional". La Universidad de Rostck -Alemania Oriental- lo acoge como profesor, pero sin dictar clases, situación que lo perturba e incomoda. Entonces parte a Venezuela (1975), ha sido contratado por la Universidad Simón Bolívar, allí llega con Hilda, su segunda mujer, y el hijo de ambos, Gonzalo.

Su tercer libro de poemas Oscuro (1977) se publica en Caracas, a partir de este momento su poesía escrita sin prisas, desde lo profundo comienza a leerse en todo el continente y es aplaudida sin reservas por la crítica internacional. Recibe invitaciones para leer su creación poética, dictar conferencias y cursos en universidades norteamericanas y europeas; es objeto de homenajes y sus libros comienzan a publicarse en México, Madrid y New York. Las ediciones se suceden unas a otras: Transtierro (Versión antológica: 1979), Antología breve (1980), 50 poemas (1980), El alumbrado y otros poemas (1987), Antología personal (1988), Schizotext and Other Poems (1988), Materia de Testamento (1988), figura como uno de los libros más vendidos en Madrid ese año, éste como otros del autor se construye desde una escritura cuya metáfora es el tapiz, poemas antiguos y nuevos convergen con la misma frescura en tres vertientes: la numinosa, la erótica y la repentina. Desocupado lector (1990), Antología de aire (1991), Las hermosas. Poesías de Amor (1991), Zumbido (edición para bibliófilos: 1991), La miseria del hombre (edición crítica: 1995).

Gonzalo Rojas regresa a Chile en 1979, haciendo uso de la beca Guggeheim, sabe que las puertas de las universidades permanecerán cerradas, pero aún así elige Chillán, 400 kilómetros al sur de la capital, como lugar de residencia permanente; desde allí se desplazará a universidades de Alemania, Estados Unidos, México y España. El 5 de junio de 1992 recibe el Primer Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana y el 13 de noviembre del mismo año, el máximo galardón que otorga Chile a sus escritores, el Premio Nacional de Literatura; el reconocimiento internacional no cesa para este poeta circular, sediento de absoluto y de pasión erótica, a los premios anteriores se sumarán el Octavio Paz de México y el José Hernández de Argentina.

Libros de poesia: La miseria del hombre (1948), Contra la muerte (1964), Oscuro (1977), Transtierro (1979), Del relámpago (1981, El alumbrado (1986), Materia de testamento (1988), Desocupado lector (1990), Antología dela ire (1991), Rio turbio (1996).

Existe um site da Universidad de Chile com muita informação sobre o autor e com toda a sua produção poética.. O endereço é: www.gonzalorojas.uchile.cl. Vale a pena conferir.


























Angel Hurtado


POEMAS

ESCRITO COM L

Mucha lectura envejece la imaginación
del ojo, suelta todas las abejas pero mata el zumbido
de lo invisible, corre, crece
tentacular, se arrastra, sube al vacío
del vacío, en nombre
del conocimiento, pulpo
de tinta, paraliza la figura del sol
que hay en nosotros, nos
viciosainente mancha.

Mucha lectura entristece, mucha envilece
apestamos
a viejos, los griegos
eran los jóvenes, somos nosotros los turbios
como si los papiros dijeran algo distinto al ángel del aire:
somos nosotros los soberbios, ellos eran inocentes
nosotros los del mosquerío, ellos eran los sabios.

Mucha lectura envejece la imaginación
del ojo, suelta todas las abejas pero mata el zumbido
de lo invisible, acaba
no tanto con la L de la famosa lucidez
sino con esa otra L
de la libertad,
de la locura
que ilumina lo hondo
de lo lúgubre
del laberinto,
lambda
loca
luciérnaga
antes del fósforo, mucho antes
del latido
del Logos.

A Juan Liscano.

(In Oscuro, 1977)

Daniel Senise


 














Artur Barrio




NO LE COPIEN A POUND

No le copien a Pound, no le copien al copión maravilloso
de Ezra, déjenlo que escriba su misa en persa, en cairo-arameo, en sánscrito,
con su chino a medio aprender, su griego translúcido
de diccionario, su latín de hojarasca, su libérrimo
Mediterráneo borroso, nonagenario el artificio
de hacer y rehacer hasta llegar a tientas al gran palimpsesto de lo Uno;
no lo juzguen por la dispersión: había que juntar los átomos,
tejerlos así, de lo visible a lo invisible, en la urdimbre de lo fugaz
y las cuerdas inmóviles; déjenlo suelto
con su ceguera para ver, para ver otra vez, porque el verbo es ése: ver,
y ése el Espíritu, lo inacabado
y lo ardiente, lo que de veras amamos
y nos ama, si es que somos Hijo de Hombre
y de Mujer, lo innumerable al fondo de lo innombrable;
no, nuevos semidioses
del lenguaje sin Logos, de la histeria, aprendices
del portento original, no le roben la sombra
al sol, piensen en el cántico
que se abre cuando se cierra como la germinación, háganse aire,
aire-hombre como el viejo Ez, que anduvo siempre en el peligro, salten intrépidos
de las vocales a las estrellas, tenso el arco
de la contradicción en todas la velocidades de lo posible, aire y más aire
para hoy y para siempre, antes
y después de lo purpúreo
del estallido
simultáneo, instantáneo
de la rotación, porque este mundo parpadeante sangrará,
saltará de su eje mortal, y adiós ubérrimas
tradiciones de luz y mármol, y arrogancia; ríanse de Ezra
y sus arrugas, ríanse desde ahora hasta entonces, pero no lo saqueen; ríanse, livianas
generaciones que van y vienen como el polvo, pululación
de letrados, ríanse, ríanse de Pound
con su Torre de Babel a cuestas como un aviso de lo otro
que vino en su lengua;
cántico,
hombres de poca fe, piensen en el cántico.

(De Oscuro, 1977)

Artur Barrio

























CARTA AL JOVEN POETA PARA QUE NO ENVEJEZCA NUNCA

Repita usted siete veces: no hay
rata curativa y sanará, repita, repita,
hasta que las palomas salgan volando del pantano
y aparezca Lautréamont como por encanto
riendo sin paraguas
ni mesa de disección, ¡pamplina
el azar!, el juego es otro
y no se sabe cuál, no hay
belleza convulsiva ni menos
hada, ni
mucho menos computación, la apuesta
es distinta, usted
mismo es la musa con sus zapatos hamletianos de rey
sin nadie adentro diciendo el to be
y el not to be de la farsa parado
ante nadie desde el momento
que el momento va a estallar, se lo digo, repita,
repita: no hay rata
curativa, toda rata acarrea peste.


(In Rio rubio, 1996)


Robeto Matta




















DESOCUPADO LECTOR

Cumplo con informar a usted que últimamente todo es herida: la muchacha
es herida, el olor
a su hermosura es herida, las grandes aves negras, la inmediatez
de lo real y lo irreal tramados en el fulgor de un mismo espejo
gemidor es herida, el siete, el tres, todo, cualquiera de estos
números de la danza es
herida, la barca
del encantamiento con Maimónides al timón es herida, aquel
diciembre 20 que me cortaron de mi madre es herida, el sol
es herida, Nuestro Señor
sentado ahí entre los mendigos con esa túnica irreconocible por el cauterio del psicoanálisis es herida, el
Quijote
a secas es herida, el ventarrón
abierto del Golfo contra la roca alta es
herida, serpiente
horadante del Principio, mar
y más mar de un lado a otro, Kierkegaard y
más Kierkegaard, taladro
y por añadidura herida; la
preñez en cuanto preñez en la preciosidad de su copa es
herida, el ocio
del viejo río intacto donde duermen inmóviles los mismos peces
velocísimos es
herida, la Poesía
grabada a fuego en los microsurcos de mi cerebro de niño es herida, el hueco
de 1.67 justo en metros de rey es herida, el éxtasis
de estar aquí hablando solo en lo bellísimo de este pensamiento de
nieve es
herida, la evaporación
de la fecha de mármol con el padre adentro
bajo los claveles es
herida, el carrusel
pintarrajeado que fluye y fluye como otro río de polvo y otras
máscaras
que vi en Pekín colgando en la vieja calle de Cha Ta-lá
cuya identidad comercial de 2.500 años de droga y ataúdes rientes
no se discute, es
herida; la cama en fin
que allí compré, con dos espejos para navegar, es herida,
la
perversión
de la palabra nadie que sopla desde las galaxias es herida, el Mundo
antes y después de los Urales es
herida, la hilera
de líneas sin ocurrencia de esta visión
sin resurrección es herida. Cumplo
entonces con informar a usted que últimamente todo es herida.


A Julio Fermoso.

(In Desocupado lector, 1990)



Robeto Matta












MICROFILM DEL ABISMO

¿Qué es el tiempo? Cuando no me lo preguntan lo sé, pero cuando me lo preguntan ya no lo sé.

Agustín de Hipona

Como reír es además de reír purificar
sabiduría, me estoy yendo
desafinado de esta envoltura lujuriosa
de uñas y meses a otro número
del que empiezo a ser parte, un número
dijéramos menos abusivo sin tanta
farsa de inmortalidad, fresco el olor

abstracto a seso velocísimo, exactamente como el del río
cuya figura no es el agua; el engaño
es el agua pero él
no es el agua; lo ilusorio
es la palabra agua. Exactamente
como el río, y

no voy a embotellarme en la vieja física
disparatada con sus trescientos mil
millones de estrellas
irreconciliables descontando las nebulosas que
andan por ahí sin haber
sido nunca, con
lo que cuesta no pensar, lo caro
que se paga. Ayuden
al pobre ciego
a hacer bien el cálculo, ¿cuánto
en minutos, y nada de años-luz, o pétalos
escasos?

Hoyo negro, ¿y a eso llaman constelación
de vivir?, ¿a esa ciencia
del desperdicio?, ¿a ese escurrimiento
de un viernes a las 3 a otro viernes
idéntico colgando
como Dios, del mismo palo? Rosas,
estoy hablando de rosas.

Porque lo irrisorio es el dato crudo, el
pronóstico cruel que uno por consuelo llama instante por
hablar conforme a lo geométrico del ojo
de los egipcios, hipopótamo
cortado por la
línea del agua cuando el animal
saca la cabeza del agua para dar el gran vistazo de
Einstein alrededor y parpadeando
vuelve al fondo.

(In El alumbrado, 1986)



Hélio Oiticica




















 


A QUIEN PUEDA IMPORTAR

De las 300.000 palabras que habré pronunciado hasta la fecha, a contar
del miércoles 14 de mayo de mil
novecientos treinta y ocho, hay 3
que se han perdido; las otras
andarán por ahí volando
de oreja en oreja zumbando como avispas en la ritualidad
inacabable del acoplamiento, cruza
de sánscrito con alemán, cultrún* con
tábano griego, Sein
und Zeit de la Gran Serpiente contra
la que nadie puede, galaxia
ciega de la confusión de la que
está hecho el Mundo;
se las encargo
por si las ven: una es
Iñche en mapuche y más bien parece pensamiento
de molusco, la otra
en griego Hen, lo Uno
en la ventolera de
Heráclito; la tercera, sin cara:
Dios.

Para Russell M. Cluff

*Tambor mapuche.

(In El Alumbrado, 1986)


quinta-feira, 2 de julho de 2009

JOSÉ ANTÔNIO CAVALCANTI

Depois de uma certa ausência, resolvi inserir um pequeno poema meu. Vai junto com um trabalho de Beatriz Milhazes, pintora por quem sou complemante maluco. Para mim, é uma das grandes vozes da poesia brasileira.



QUEBRADA

Hora da alcateia na praça.
Sigo
o hálito transbordante
da desordem.

Uma lua de cobre
em sua órbita pedestre
poderia.

Inscrito na linhagem
do círculo,
salto possibilidades e geometria.

Invado a zona secreta
da casa de intolerância,
turva escrita de decretos
para burla e tédio.

Encurralado no escuro,
derrubo o rumor de qualquer traçado.

Órbita pessoal possível:
à deriva, ao léu, ilegível,
apenas o imprevisto por caminho.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

ARMANDO FREITAS FILHO


Sempre senti falta de poemas do Armando Freitas Filho em Poemargens, aliás a lista de grandes ausências é imensa,isso infelizmente é inevitável. Há décadas acompanho a trajetória desse extraordinário poeta brasileiro, radicado no Rio de Janeiro. Hoje resolvi publicar alguns trabalhos estampados no livro 3 x 4, Nova Fronteira, de 1985. A escolha é bastante aleatória, acredito, no entanto, que sirva para contaminar meus parcos visitantes a buscarem nos livros do poeta outros momentos de alta voltagem.



Adriana Varejão



POEMAS

I

Uma viagem a descoberto:
ave, aventura
e seus voos cegos!
Sem espelhos retrovisores
só assim
me visto, somente
com a paisagem
e sem assinar meu nome
em nenhuma parte
eu passo
                e me assassino:
sol assim.

(p. 38)


II

Leio, de um só gole
o que não sei:
as instruções de voo
um lance de degraus
no escuro
                      um livro de dados
um palco sem aplausos
um lince de dígitos
disparado, não deixando
indícios, grãos, índices.
Ao azar, sobram as asas
de um desastre, cenários
atos falhos, alguns planos
e um papel em branco.

(p. 49)



Adriana Varejão



III

Vou gota a gota
aos poucos
mas apesar de todo cálculo
e de tanta cautela
acabo não me poupando
pois estou sempre na ponta
do trampolim
e o tempo aí já não cuida
de segurar nada - não sabe -
conter-se nem contar
o que de fato aconteceu:
se foi voo, queda ou mergulho.

(p. 75)


IV

Somos luvas da mesma mão
e somente no delírio
vamos saber qual é o som
do aplauso.
a outra caiu na rua
ou ficou esquecida no hotel
e só no espelho podemos
ensaiar a ilusão e a lembrança
e dar adeus à que se perdeu
e quebrou
almas gêmeas, alianças
algemas, e partiu.

(p. 77)


V

Debaixo da luz do flash
com todos os fósforos
velas e watts acesos
à queima-roupa
a chama de sua nudez
lambe-lambe
e ateia fogo à pele
de papel couché
que se consome e sua
por todos os poros, a cada pose
do corpo ou do incêndio
que se despe.

(p. 93)



Adriana Varejão


VI

Passar a limpo os cinco sentidos.
Apagar com sono e borracha
para usar - todos -
novos em folha
de novo:
sem luvas, óculos, fones
perfumes de meio ambiente
e com a boca livre de lembranças.

(p. 110)


VII

Diante de mármores
e espelhos
que sempre esperam
mesmo quebrados.
Tudo tão magro
e feito a esquadro.
Entre álgebra e fábula
o meu sangue sabe mais
do que este livro conta.

(p. 115)


VIII



Sem gravidade.
Antes de cair, deus algum
ou seu simples desejo
precisa de asas.
Sequer de luz
pois no rascunho
já há risco
                      de fósforos
de rostos feitos de terra
e de erros das estrelas.

(p. 120)


IX

As veias da família
são iguais
e atendem pelo mesmo ramal.
Os pais estão em toda parte.
No escuro, na escuta
nos espelhos
respondendo a todas as chamadas
até quando não são feitas
em voz alta
e o telefone não toca.

(p. 121)


Adriana Varejão


X

Dentro
não se fotografa.
O que vem antes
até o topo
o espectro que nenhum
espelho capta
que pega a pista e larga
mas não deixa marca
impressão digital.
O antirretrato
zero à esquerda
longe do papel da estátua
o pré-fantasma que a luz velou
e perdeu a memória
além do seu próprio negativo:
não.

(p. 125)

XI

Preposições: antes, até, após
por quanto tempo
este crime ficará perfeito
fora de foco entre dois fogos
depois dos disparos
no espaço durante
onde
                      tiro no escuro
retratos ou a vida do que
num instante, escapa do registro
do desejo, do livro de ocorrências
e queima o filme, o nu, a confissão
no estúdio, still, então
vira vã estátua de vácuo
contra o fundo infinito
sem assinatura?

(p. 129)