domingo, 5 de junho de 2011

João Cabral de Melo Neto

Lygia Pape



     























O ferrageiro de Carmona



Um ferrageiro de Carmona
que se informava de um balcão:
“Aquilo? É de ferro fundido,
foi a forma que fez, não a mão.

Só trabalho em ferro forjado
que é quando se trabalha ferro;
então, corpo a corpo com ele,
domo-o, dobro-o, até o onde quero.

O ferro fundido é sem luta,
é só derramá-lo na forma.
Não há nele a queda de braço
e o cara a cara de uma forja.

Existe grande diferença
do fero forjado ao fundido;
é uma distância tão enorme
que não pode medir-se a gritos.

Conhece a Giralda em Sevilha?
De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro
dos quatro jarros das esquinas?

Pois aquilo é ferro forjado.
Flores criadas numa outra língua.
Nada têm das flores de forma
moldadas pelas das campinas.

Dou-lhe aqui humilde receita
ao senhor que dizem ser poeta:
o ferro não deve fundir-se
nem deve a voz ter diarreia.

Forjar: domar o ferro à força,
não até uma flor já sabida,
mas ao que pode até ser flor
se flor parece a quem o diga.”

(MELO NETO, João Cabral de. Crime na calle Relator. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. p. 31-32)

2 comentários:

  1. putz! desculpe isso :)

    que coisa fantástica esse João Cabral...forjar o poema.
    obrigada pela postagem e que bom que eu vim aqui e vi :) um abraço, Clotilde

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  2. Clotilde, que bom que você gostou. Cabral consegue extrair do áspero, do bruto, a leveza da arte.
    Um abraço.

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