Anacreonte/Drummond






Dose dupla de uísque Poiésis. Programa de hoje: Como Drummond mastigou Anacreonte, dissolveu-o com enzimas de ironias e cuspiu um riso enlouquecido e amargo no rosto descarnado da morte.


Anacreonte (Teos, Iônia, c. 560 a.C.),tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos

Encaneceram minhas têmporas
tenho a cabeça calva e branca,
deixou de estar comigo
a amável juventude,
e já meus dentes são de velho
Resta-me breve prazo
de doce vida; e assim
eu ergo o meu lamento
com pavor do outro mundo.
Terrível é a mansão da morte,
árduo o caminho para lá;
é certo que uma vez lá embaixo
não haverá retorno.


Carlos Drummond de Andrade

DENTADURAS DUPLAS

Dentaduras duplas!
Inda não sou bem velho
para merecer-vos...
Há que contentar-me
com uma ponte móvel
e esparsas coroas.
(Coroas sem reino,
os reinos protéticos
de onde proviestes
quando produzirão
a tripla dentadura,
dentadura múltipla,
a serra mecânica,
sempre desejada,
jamais possuída,
que acabará
com o tédio da boca,
a boca que beija,
a boca romântica?...)

Resovin! Hecolite!
Nomes de países?
Fantasmas femininos?
Nunca: dentaduras,
engenhos modernos,
práticos, higiênicos,
a vida habitável:
a boca mordendo,
os delirantes lábios
apenas entreabertos
num sorriso técnico
e a língua especiosa
através dos dentes
buscando outra língua,
afinal sossegada...
A serra mecânica
não tritura amor.
E todos os dentes
extraídos sem dor.
E a boca liberta
das funções poético-
sofístico-dramáticas
de que rezam filmes
e velhos autores.

Dentaduras duplas:
dai-me enfim a calma
que Bilac não teve
para envelhecer.
Desfibrarei convosco
doces alimentos,
serei casto, sóbrio,
não vos aplicando
na deleitação convulsa
de uma carne triste
em que tantas vezes
me eu perdi.

Largas dentaduras,
vosso riso largo
me consolará
não sei quantas fomes
ferozes, secretas
no fundo de mim.
Não sei quantas fomes
jamais compensadas.
Dentaduras alvas,
antes amarelas
e por que não cromadas
e por que não de âmbar?
de âmbar! de âmbar!
feéricas dentaduras,
admiráveis presas,
mastigando lestas
e indiferentes
a carne da vida!

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