segunda-feira, 21 de julho de 2014

Mahmud Darwish

    


Mahmud Darwish ou Mahmoud Darwich foi um dos poetas mais importantes que deram voz à causa palestina no mundo e contribuíram para a construção da identidade da poesia árabe moderna.
    Nasceu em 1941 na aldeia palestina de Al-Birweh, destruída por Israel em 1948 para a ccconstrução em seu lugar da aldeia agrícola de Ahihud.
    Depois da Catástrofe “Al-Nakba”, sua família refugiou-se no sul do Líbano por um ano, depois voltou escondida para a Palestina.
    O poeta morou na pequena aldeia de Der Al-Assad na região de Al-Jalil, em seguida ele e sua família se estabeleceram na aldeia Al Jadida, próxima a sua terra natal.
    Darwish se locomoveu por entre as aldeias de Al-Jalil para estudar o ensino médio, em seguida, viveu na cidade de Haifa onde aderiu ao Partido Comunista, então composto por judeus e árabes.
    Trabalhou no Jornal Al-Etihad e na revista Al-Jadid, que pertenciam ao partido comunista na cidade de Haifa. Neste período começou a escrever poesias e ficou conhecido na Palestina como “um poeta da resistência”. Sua poesia irritava os israelenses, por isso a polícia israelense passou a cercar qualquer aldeia que lhe organizasse uma noite de poesia.
    Darwish sofreu intensa perseguição. Foi preso três vezes pelos israelenses (1961, 1965, 1967), antes de ser submetido à prisão domiciliar devido às suas declarações e atividades políticas.
    Sua obra ao testemunhar a existência de um povo com tradições e história, negava a afirmação da Primeira-ministra de Israel, Golda Meir: “Não há nenhum povo palestino”.
    Em 1972, deixou Haifa e foi para o Egito, onde ingressou na Organização de Libertação da Palestina, e de lá se mudou para Beirute.
    Após a invasão israelense ao Líbano em 1982 e a saída de militantes palestinos do Líbano, seguiu para o Cairo, depois Tunísia e, em seguida, Paris.
    Em 1993 Darwish demitiu-se do Comitê Executivo da OLP em protesto contra o acordo de Oslo, sob a alegação de que: "não é justo (o acordo), pois não prevê o mínimo de identidade aos palestinos”.
    Nos meados da década de noventa, Mahmoud Darwish retornou à Faixa de Gaza, optando depois por permanecer em Ramallah. na Cisjordânia. Criticou os combates entre os palestinos no poema, "Você agora é outro", publicado em junho de 2007.
    Darwish obteve vários prêmios, incluindo o Prêmio Lotus, em 1969, o Prêmio do Mar Mediterrâneo, em 1980, o Troféu Revolução Palestina, em 1981, o Prêmio da Europa para a poesia, em 1981, o Prêmio Ibn Sina na União Soviética em 1982, o Prêmio Lênin, na União Soviética, em 1983, o Prêmio Príncipe Claus (Holanda), em 2004, o Prêmio Al Owais Cultural, dividido com o poeta sírio Adonis, em 2004.
    Publicou diversos livros de poesia entre eles: Carteira de identidade, Pássaros sem asas, Folhas da Azeitona, Meus amigos não morram, Apaixonado da Palestina, As aves morrem na Galileia, Elogio da sombra superior, Palco de Estado de Sitio e Você agora é outro.
    Mahmoud Darwish dedicou muitos poemas à causa palestina, a resistência e ao seu povo refugiado e injustiçado. Mesmo tendo uma vida difícil ao lado dos outros palestinos, conseguiu escrever sobre o amor, a esperança, o ser humano e a vida.    Darwish faleceu em 2008, em Houston, Estados Unidos, porém permanecerá vivo nos corações e lembranças de todos os palestinos.



















Efêmeros em palavras efêmeras

1.
Vocês que passam com palavras efêmeras,
levem seus nomes e vão embora
tirem suas horas do nosso tempo e vão embora
roubem à vontade do azul do mar e das areias da lembrança
tirem fotos à vontade, e assim vão saber
que não hão de saber
como uma pedra da nossa terra constrói o teto do céu.

2.
Vocês que passam com palavras efêmeras
de vocês vem espada, de nós vem nosso sangue
de vocês vêm fogo e aço, de nós vem nossa carne
de vocês vem outro tanque, de nós vem pedra
de vocês vem a bomba de gás, de nós vem chuva.
Um mesmo céu e um mesmo ar nos cobre
peguem seu quinhão do nosso sangue, mas vão embora
entrem no jantar dançante, mas vão embora
temos que zelar pela rosa dos mártires
temos que viver como a gente quer!

3.
Vocês que passam com palavras efêmeras,
como a poeira amarga, passem onde quiserem, mas
não passem entre nós como insetos com asas
temos o que fazer na nossa terra
temos trigo a criar e regar com o orvalho do nosso corpo
temos o que a vocês aqui não agrada:
temos pedra... e perdiz!
Levem o passado, se quiserem, ao mercado das quinquilharias
devolvam, se quiserem, o esqueleto do passarinho ao prato de porcelana.
Temos o que não lhes agrada: temos o futuro
temos o que fazer na nossa terra.

4.
Vocês que passam com palavras efêmeras,
soquem seus dramas num buraco abandonado e vão embora
voltem atrás o ponteiro do tempo até o bezerro sagrado
ou até o disparo ritmado do revólver!
Temos o que a vocês aqui não agrada, então vão embora
temos o que por dentro vocês não têm:
uma pátria que jorra um povo que jorra uma pátria
que combina com esquecer e lembrar.
Vocês que passam com palavras efêmeras,
é hora de irem embora
de morarem onde quiserem, mas não entre nós
é hora de irem embora
de morrerem onde quiserem, mas não entre nós
temos o que fazer na nossa terra
aqui temos o passado
temos a primeira voz de vida
temos o presente, o presente e o que está por vir
temos o mundo aqui e temos a outra vida
saiam da nossa terra, do nosso deserto, do nosso mar
saiam do nosso trigo, do nosso sal, da nossa ferida
de tudo
saiam das lembranças da nossa memória,
vocês que passam com palavras efêmeras.

Tradução dos alunos de Língua Árabe do professor Michel Sleiman na USP (Universidade de São Paulo) - Alexandre Facuri Chareti, Beatriz Negreiros Gemignani, Camila Alcântara, Renata Parpolov Costa, William Diego Montecinos.















Bilhete de identidade

Toma nota!
Sou árabe
O número do meu bilhete de identidade: cinquenta mil
Número de filhos: oito
E o nono… chegará depois do verão!
Será que ficas irritado?
Toma nota!
Sou árabe
Trabalho numa pedreira com os meus companheiros de fadiga
E tenho oito filhos
O seu pedaço de pão
As suas roupas, os seus cadernos
Arranco-os dos rochedos…
E não venho mendigar à tua porta
Nem me encolho no átrio do teu palácio.
Será que ficas irritado?
Toma nota!
Sou árabe
Sou o meu nome próprio – sem apelido
Infinitamente paciente num país onde todos
Vivem sobre as brasas da raiva.
As minhas raízes…
Foram lançadas antes do nascimento do tempo
Antes da efusão do que é duradouro
Antes do cipreste e da oliveira
Antes da eclosão da erva
O meu pai… é de uma família de lavradores
Nada tem a ver com as pessoas notáveis
O meu avô era camponês – um ser
Sem valor – nem ascendência.
A minha casa, uma cabana de guarda
Feita de troncos e ramos
Eis o que eu sou – Agrada-te?
Sou o meu nome próprio – sem apelido!
Toma nota!
Sou árabe
Os meus cabelos… da cor do carvão
Os meus olhos… da cor do café
Sinais particulares:
Na cabeça uma kufia com o cordão bem apertado
E a palma da minha mão é dura como uma pedra
… esfola quem a aperta
A minha morada:
Sou de uma aldeia isolada…
Onde as ruas já não têm nomes
E todos os homens… trabalham no campo e na pedreira.
Será que ficas irritado?
Toma nota!
Sou árabe
Tu saqueaste as vinhas dos meus pais
E a terra que eu cultivava
Eu e os meus filhos
Levaste-nos tudo excepto
Estas rochas
Para a sobrevivência dos meus netos
Mas o vosso governo vai também apoderar-se delas
… ao que dizem!
… Então
Toma nota!
Ao alto da primeira página
Eu não odeio os homens
E não ataco ninguém mas
Se tiver fome
Comerei a carne de quem violou os meus direitos
Cuidado! Cuidado
Com a minha fome e com a minha raiva!
(1964)

[Tradução de Júlio de Magalhães]
















A terra nos é estreita


A terra nos é estreita. Ela nos encurrala no último desfiladeiro
E nós nos despimos dos membros
Para passar.
A terra nos espreme. Fôssemos nós o seu trigo para morrer e ressuscitar.
Fosse ela a nossa mãe para se compadecer de nós.
Fôssemos nós as imagens dos rochedos
que o nosso sonho levará como espelhos.
Vimos o rosto de quem, na derradeira defesa da alma,
o último de nós matará.
Choramos pela festa dos seus filhos e vimos o rosto
Dos que despenham nossos filhos pela janela deste último espaço.
Espelhos que a nossa estrela polirá.
Para onde irmos após a última fronteira?
Para onde voarão os pássaros após o último céu?
Onde dormirão as plantas após o último vento?
Escreveremos nossos nomes com vapor
carmim, cortaremos a mão do canto para que nossa carne o complete.
Aqui morreremos. No último desfiladeiro.
Aqui ou aqui... plantará oliveiras
Nosso sangue.

(Tradução de Paulo Farah)


terça-feira, 13 de maio de 2014

Lançamento do livro "Palavra desmedida: a prosa ficcional de Hilda Hilst"




Na próxima terça-feira, 20 de maio, das 19:00 às 22:00 h, na Livraria da Travessa - Botafogo, terei o imenso prazer de receber os amigos no lançamento da minha tese transformada em livro.

D. H. Lawrence






















Bawdy can be sane

     D.H. Lawrence

Bawdy can be sane and wholesome,
in fact a little bawdy is necessary in every life
to keep it sane and wholesome.

And a little whoring can be sane and wholesome.
In fact a little whoring is necessary in every life
to keep it sane and wholesome.

Even sodomy can be sane and wholesome
granted there is an exchange of genuine feeling.

But get any of them on the brain, and they become pernicious:
bawdy on the brain becomes obscenity, vicious.
Whoring on the brain becomes really syphilitic
and sodomy on the brain becomes a mission,
all the lot of them, vice, mission, etc., insanely unhealthy.

In the same way, chastity in its hour is sweet and wholesome.
But chastity on the brain is a vice, a perversion.
And rigid suppression of all bawdy, whoring or other such commerce
is a straight way to raving insanity.
The fifth generation of puritans, when it isn’t obscenely profligate,
is idiot. So you’ve got to choose.


A sacanagem pode ser sã

    Tradução de Elizabeth Ramos*

A sacanagem pode ser sã e salutar,
na verdade, uma sacanagenzinha é necessária na vida de qualquer um
para mantê-la sã e salutar.

E uma putariazinha pode ser sã e salutar.
Na verdade, uma putariazinha é necessária na vida de qualquer um
para mantê-la sã e salutar.

Até a sodomia pode ser sã e salutar
contanto que os sentimentos sejam genuinamente recíprocos.
Mas vá meter a razão em qualquer uma delas, e se tornam  perniciosas:
a sacanagem racional vira obscenidade, depravação.
A putaria racional vira sifilítica
e a sodomia racional vira missão,
todas, depravação, missão, etc., insanamente doentias.

Da mesma forma, a castidade, na hora certa, é doce e salutar.
Mas a castidade racional vira depravação, perversão.
E a rígida supressão de toda sacanagem, putaria ou que tais
é o caminho mais curto para a insanidade frenética.
A quinta geração de puritanos, quando não obscenamente devassa,
é imbecil. Portanto, é só escolher.


A indecência pode ser saudável

     Tradução de José Paulo Paes

A indecência pode ser normal, saudável;
na verdade, um pouco de indecência é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.

E um pouco de putaria pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.

Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável,
desde que haja troca de sentimento verdadeiro.
Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna perniciosa:
a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa,
a putaria no cérebro se torna sifilítica
e a sodomia no cérebro se torna uma missão,
tudo, vício, missão, insanamente mórbido.

Do mesmo modo, a castidade na hora própria é normal e bonita.
Mas a castidade no cérebro é vício, perversão.
E a rígida supressão de toda e qualquer indecência, putaria e relações assim
leva direto a furiosa insanidade.
E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente depravada,
é idiota. Por isso, você tem de escolher.

O original e a tradução de José Paulo Paes estão em Poesia erótica em tradução – São Paulo: Companhia das Letras, 2006, pp. 168-169.

* Ver tradução de Elisabeth Ramos em http://www.revistas.usp.br/clt/article/viewFile/49466/53547



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Nydia Bonetti



Na apresentação de Sumi-ê, livro de poemas de Nydia Bonetti, somos informados de que o termo é referência à “arte subjetiva do Japão do século XIV, derivada da caligrafia chinesa, com forte influência zen-budista, onde a inteligência intelectual é deixada de lado e o essencial se torna ‘a devoção interna’”. A atmosfera do livro guarda semelhança com a dos haikus, sempre intensa a ligação entre poesia e natureza, tudo retratado com leveza e simplicidade. O momento irrepetível da linguagem não admite maquiagem, o irretornável da arte é flagrado no momento do nascimento, sem retoques; qualquer alteração quebraria o frescor e o encanto. O que flui no poema é a alma. Melhor, o que nele se anuncia é algo que a ilumina por brevíssimo instante. Jardins, flores, versos, pássaros, ventos e canções flutuam e respiram beleza nas páginas de Sumi-ê, publicação caprichada da editora Patuá.

A autora mantém o blog L o n g i t u d e s














7 Poemas

***

há um jardim qualquer
em qualquer
canto
onde uma flor qualquer
brotou
de qualquer
cor
de qualquer forma, flor
e eu a oferto
a quem souber cuidar

***

o vento
so
pra da minha mão
a folha de papel
o vento
só veio me dizer
que ninguém está

***

há um lugar onde não estive
e uma canção que não cantei

alguém fez isso por mim

***

do pássaro roubar a partitura
que faz brotar manhãs

***

quero estar só – me deixem
como aquela amora temporã

no galho

mais alto

***

o meu colar de conchas secas
é tudo que sei

dos mergulhos que não dei

***

branco o meu papel
vive à espera do traço

que o defina
mas não o preencha



(assimétrico espaço)


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Alexandre O'Neill

Poema de Alexandre O Neill, do livro Poemas de divertimento com sinais ortográficos, 1960
















Dois poemas do poeta português Alexandre O'Neill (1924-1986), publicados no livro “No Reino da Dinamarca”, de 1958.

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Autorretrato

O’Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.

Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada..)

No amor? No amor crê (ou não fosse ele O’Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil

que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse…


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Drummond e Rilke

 Giotto (1267-1337)





















Anjos sempre acompanharam a tradição poética do ocidente a partir do surgimento do cristianismo. Aqui anjos de Drummond e Rilke instalam suas diferenças no ar. 


Poema da purificação

           Carlos Drummond de Andrade

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.

As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.

Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.

(Este é o último poema do primeiro livro de Drummond, Alguma poesia)


***

Quem das legiões de anjos?

           Rainer Maria Rilke

(Primeira Elegia)

Se gritasse, quem das legiões de anjos escutaria
o grito? E mesmo se, inesperadamente,
um deles me acolhesse no coração: sucumbiria à sua
existência mais forte! Pois o belo não é senão
o princípio do espanto que mal conseguimos suportar,
e ainda assim, o admiramos porque, sereno,
deixa de nos destruir. Todo anjo é espantoso.

E por isso me contenho e refreio o apelo
de um soluço obscuro. Então quem
nos poderia valer? Anjos, não, homens, não,
e os animais inventivos logo se apercebem
de que não nos sentimos muito em casa
no mundo das explicações. Resta-nos talvez
uma árvore na encosta, para vermos e revermos
todos os dias. Resta-nos a estrada de ontem
e o apelo mimado de um hábito
que por nós se afeiçoou, permaneceu e não foi embora.

E a noite, a noite quando o vento cheio de espaços do mundo
nos desgasta a face - para quem ela não saberia ser desejo e suave decepção,
ela, cuja proximidade pesa sobre
o coração solitário! Será mais leve para os amantes?
Juntos, eles apenas encobrem um para o outro seu destino.
Ainda não sabias? Lança o vazio aprisionado nos braços
para os espaços que respiramos! Talvez os pássaros sintam,
num voo de maior intimidade, o ar mais amplo.

In Sonetos a Orfeu e Elegias de Duíno. Edição bilíngue. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão, Editora Vozes: Petrópolis-RJ, 1989.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Dora Ribeiro




Nascida em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, em 1960. Escreve poemas desde o início da adolescência. Estudou nos Estados Unidos, de onde voltou para cursar Letras na PUC-Rio. Também viveu em Portugal e na China. Estreou com o livro Ladrilho de palavras - coedição com Lélia Rita Figueiredo Ribeiro (1984), depois publicou Começar e o fim (Fundação Catarinense de Cultura, 1990), Bicho do Mato (7 letras, 2000), Taquara rachada (7 letas, 2002), O poeta não existe (Angelus Novus, Cotovia, Portugal, 2005), Teoria do Jardim (Companhia das Letras, 2009) e Olho empírico (2011). Viveu em Lisboa entre 1983 e 2006 e morou em Pequim.


POEMAS






Meu cinema 

o plano está bastante
inclinado
e nós estamos lá
simples e
molhados

(há ovelhas à volta
e as árvores são
esculturas feitas de
ventania)


o chão

olha debaixo
da minha saia

e você vê ali
o céu descoberto

eu finjo distração
e morro por segundos
nos seus braços


***

o meu rosto e o teu cinema
são matéria do mesmo
manifesto
da mesma hora precária

carregam dúvidas
e escrevem com
os mesmos sinais a
paisagem do erro

***

quero falar uma língua nova
principiada na carta do teu
corpo
sem escrita lúcida nem
modos genitivos
quero uma língua
já gasta
gentilizada
versada em todos os
paganismos sórdidos e
elegantes
imagino-a já enciclopédica
ruminante e
devoradora de esperas
língua sem contenção
musa de labirintos

***




beijing

toda destruição
deixa alguma espécie de marca
caras queimadas
braços vazios
fios elétricos pendurados no ar

reescrever não tem lastro silencioso
todos os paus do corpo
gritam
pedem justiça para a sua pele
nada mais teatral do que a morte
disse ashbery
mesmo a morte do acabado

o reescritor porém ignora
a propagação do desejo
de destruir não destruir
e convencido da história
constrói não constrói
***
difícil olhar o tempo
sem repetir a vista
ou esquecer o modo das
vezes

ouvi o desaviso sem
luz e pensei nos líquidos
sorvidos desde a infância
 Poemas escritos na China 157
nada mais substancioso

leite de tudo
olhos quietos de sugar apenas
vida sempre aberta para
o escuro

***

parca serenidade II

a infância é o nosso mais fiel e longo animal
***
o poeta não existe

fora a vulgaridade se amontoa em histórias originais

***

o poeta não existe

coisa do nada
inimigo dos vizinhos
e de todos os desejos com nome

ele sabe que inexiste
por isso frequenta a poesia






















Texto crítico


Resenha de Flora Süssekind sobre a obra inicial de Dora Ribeiro, publicada no Caderno Ideias, Jornal do Brasil, em 13/03/1999.

O dentro, o fora 

Flora Süssekind

Os dois livros de Dora Ribeiro, Ladrilho de Palavras (1986) e Começar e o fim (1990), como muitos outros de poetas que lançaram suas primeiras coletâneas na segunda metade dos anos 80, passaram, do ponto de vista da recepção crítica imediata (com a exceção, neste caso, de um comentário de Luiz Costa Lima), praticamente em branco. Como se fosse impossível, independente da qualidade, sua visualização fora de algum movimento mais global ou tendência geracional definida. E, se invisíveis no contexto da publicação, paradoxalmente, um dos seus aspectos mais curiosos, para uma leitura atual, talvez esteja, ao contrário, na sua capacidade de exposição das tensões entre modelos imaginativos distintos como os das duas décadas que os delimitam. Entre a auto-expressividade, o prosaísmo e a poesia-diário, dominantes na poética dos anos 70, e o redimensionamento do sujeito lírico, a autorreflexão e a investigação formal e material, que caracterizariam parcela significativa da poesia de fins da década de 80 e dos anos 90 no Brasil.
 Pois há como que dois rastros perceptíveis na sucessão de poemas breves, quase todos sem título ou sinais gráficos particulares (apenas alguns poucos dois pontos, aspas e parênteses), fora a extensão variável dos brancos intervalares, que compõem esses livros de Dora Ribeiro. Um desses rastros parece seguir, em parte, o gosto pelo banal (não sua estetização), pelos diários (vide Chico Alvim ou Ana Cristina César), pelos dias em que nada acontece ("um dia como quem precisa achar emprego/ mas acaba bebendo e jogando sinuca", como no texto de Eudoro Augusto) da poesia das décadas de 70 e início de 80. Retomada que, nos poemas de Dora, se daria via exposição miúda do cotidiano ("doce de leite na colher", "almoço comercial", "descasquei batatas", "verdura arroz", "o calo do pé"), por vezes também próxima da notação de diário ("dia santo prosaico/dia sem santo", "como se reconhece o dia/em março/de horas e horas contadas/no ano", "os dias mesmos", a "vida de calendário"), da lista pura e simples ("batata palha/molho diana/sem café"), da "obsessão de enumerar a presença vital e intransponível das coisas". Ou, ainda, via percepção do tempo como uma forma de espera ("neste estar continuado de esperar"), de tempo "mole", modorrento, empoçado, morto: "o tempo se amontoa galinha/ no poleiro/ agrupamento malcheiroso/ porcos/ pardieiro/ toca fétida/ dos dias". 
Não faltam mesmo, nesse seu diálogo com a produção poética do período imediatamente anterior ao seu, uma tentativa acanhada de poema-minuto -"de olho rasteiro volto para casa/ preciso saber se já tive pneumonia", assim como certas hipertrofias do eu, - maneira da que se dá num poema-descrição de beijo em Ladrilho de Palavras: "faço de conta de cansaço/ amarro as franjas/ cintilo os braços/ escureço os olhos/ e/ despenco". Exemplos de quase endosso não muito frequentes, no entanto, na poesia de Dora. Já que, aí, este esquema expressivo parece tensionar-se duplamente. Em primeiro lugar, por uma tomada de distância -"e a primeira pessoa, outra"- com relação aos muitos eus de seus poemas, o que resultaria, por vezes, em construções propositadamente indeterminadas, estruturadas por uma série de infinitivos verbais substantivados ("começar", "o estalar da beleza") ou tendo substantivos abstratos como sujeitos textuais ("a perfeição", "a teoria", "uma ideia"), por vezes, numa diferenciação explícita entre sujeito empírico e figuração autoral -"o poeta não existe/ coisa do nada/ inimigo dos vizinhos/ e de todos os desejos com nome"-; na afirmação da consciência de que o sujeito é sujeito do poema: "ele sabe que inexiste/ por isso frequenta a poesia". 
E, outro ponto de instabilização da poética expressiva: uma espécie de trava ao presente, ao imediato, mesmo glosando-se, por vezes, a passagem dos dias, "desta hora", as formas de medida e registro do instante. Dora Ribeiro parece mesmo trabalhar, com frequência, com um tipo de paradoxo temporal - os verbos do poema no presente, mas acompanhados de uma forma condicional no futuro ou de uma localização explícita no passado. Ou, como se lê no poema que dá título ao seu primeiro livro: "dois tempos a desfiar/ suas tranças/no rosto estendido/de roupa no varal/púbico". O que resultaria, na série "Temporale", incluída na revista Inimigo rumor n.6 , nas variações em torno de um "quero te ver", ao qual se acrescentam ora condições futuras ("quando a terra molhada/cobrir teu abismo"), ora um movimento retrospectivo imediato ("quero te ver dopo il temporale/no passado/ onde o abismo vive num poço/sem vertigens/e/ limita-se ao descanso profundo/e às ideias de águas paradas").
 Há, portanto, um segundo rastro nesses dois livros, no qual a figuração do sujeito lírico, assim como a "hipótese da poesia" se afiguram problemáticos. O poema apontando não para o registro do mundo ou para a identificação da paisagem sensorial, mas para a consciência de seus limites (dá a intensificação, por vezes via Cabral e Celan, das imagens da pedra e do deserto, além dos seus muitos "temporais"), de uma intransponibilidade constitutiva ("paisagem que não alcanço", "a distância maior entre a sala e o quarto", "teus silêncios"). Ou, como no belo "temporale iv": "silêncio é palavra madura/difícil/sei de um poeta/que a usou sem saber/e/morreu". 
O poema apontando, por outro lado, não para o reforço de uma autoconstituição da subjetividade, mas para figurações diversas, e aparentemente estranhas na ambiência "lírica" dos textos de Dora, de decomposição, instabilização, dissolução de uma paisagem corporal, de presença no entanto fortíssima nos seus dois livros. Pois é nítida, nesse sentido, a multiplicação de pedaços do corpo (olho, braços, pernas, joelhos, boca, costas, mão) ou de formas variadas de contato corporal (roçar, beijo, tatuar, massagear, coçar), percursos vários de "mão exígua/ sobre o corpo", como fontes imagéticas dos poemas. Chega-se mesmo a figurar o poema como um "catalogar os sentidos", como "andanças da pele". E a falar em "dedo palavra", "corpo imaginação". Parecendo, por vezes, produzir-se uma espécie de identificação, de visualização, corporal para o sujeito e o poema. Movimento que se faria acompanhar, de modo quase imediato, entretanto, pelo seu avesso, por um "prazer do decomposto", pelo tremor, por um despencar, por uma "medida de sombra", um "corpo disforme", desdobrado em pregas, partes, ruídos, cansaço, dissociação, ou por um súbito "sumiço". Sumiço no qual se inclui, de certa maneira, até mesmo o poema, convertido em "desejo sempre outro", "desejo involuntário" da poesia, e, como tal, indício bem mais de falta, ausência, do que de corporalidade imediata.
 E é exatamente na transformação desses movimentos contraditórios - a intensa corporalidade do seu sujeito lírico ao lado de uma tendência decompositória equivalente em aspecto fundamental de sua prática poética que se singulariza o diálogo empreendido por Dora Ribeiro com os modelos - expressivo e reflexivo - de imaginação literária dominantes no seu período de formação. E que, desviando-se, por meio desse desdobramento antagônico, de certa dicção sublime que imprime a algumas de suas abstratizações poéticas, constrói alguns dos melhores textos desses dois livros. E de um período que, entre "booms poéticos de mídia", costuma ficar ao largo de qualquer consideração crítica.