terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Nydia Bonetti



Na apresentação de Sumi-ê, livro de poemas de Nydia Bonetti, somos informados de que o termo é referência à “arte subjetiva do Japão do século XIV, derivada da caligrafia chinesa, com forte influência zen-budista, onde a inteligência intelectual é deixada de lado e o essencial se torna ‘a devoção interna’”. A atmosfera do livro guarda semelhança com a dos haikus, sempre intensa a ligação entre poesia e natureza, tudo retratado com leveza e simplicidade. O momento irrepetível da linguagem não admite maquiagem, o irretornável da arte é flagrado no momento do nascimento, sem retoques; qualquer alteração quebraria o frescor e o encanto. O que flui no poema é a alma. Melhor, o que nele se anuncia é algo que a ilumina por brevíssimo instante. Jardins, flores, versos, pássaros, ventos e canções flutuam e respiram beleza nas páginas de Sumi-ê, publicação caprichada da editora Patuá.

A autora mantém o blog L o n g i t u d e s














7 Poemas

***

há um jardim qualquer
em qualquer
canto
onde uma flor qualquer
brotou
de qualquer
cor
de qualquer forma, flor
e eu a oferto
a quem souber cuidar

***

o vento
so
pra da minha mão
a folha de papel
o vento
só veio me dizer
que ninguém está

***

há um lugar onde não estive
e uma canção que não cantei

alguém fez isso por mim

***

do pássaro roubar a partitura
que faz brotar manhãs

***

quero estar só – me deixem
como aquela amora temporã

no galho

mais alto

***

o meu colar de conchas secas
é tudo que sei

dos mergulhos que não dei

***

branco o meu papel
vive à espera do traço

que o defina
mas não o preencha



(assimétrico espaço)


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Alexandre O'Neill

Poema de Alexandre O Neill, do livro Poemas de divertimento com sinais ortográficos, 1960
















Dois poemas do poeta português Alexandre O'Neill (1924-1986), publicados no livro “No Reino da Dinamarca”, de 1958.

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Autorretrato

O’Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.

Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada..)

No amor? No amor crê (ou não fosse ele O’Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil

que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse…


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Drummond e Rilke

 Giotto (1267-1337)





















Anjos sempre acompanharam a tradição poética do ocidente a partir do surgimento do cristianismo. Aqui anjos de Drummond e Rilke instalam suas diferenças no ar. 


Poema da purificação

           Carlos Drummond de Andrade

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.

As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.

Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.

(Este é o último poema do primeiro livro de Drummond, Alguma poesia)


***

Quem das legiões de anjos?

           Rainer Maria Rilke

(Primeira Elegia)

Se gritasse, quem das legiões de anjos escutaria
o grito? E mesmo se, inesperadamente,
um deles me acolhesse no coração: sucumbiria à sua
existência mais forte! Pois o belo não é senão
o princípio do espanto que mal conseguimos suportar,
e ainda assim, o admiramos porque, sereno,
deixa de nos destruir. Todo anjo é espantoso.

E por isso me contenho e refreio o apelo
de um soluço obscuro. Então quem
nos poderia valer? Anjos, não, homens, não,
e os animais inventivos logo se apercebem
de que não nos sentimos muito em casa
no mundo das explicações. Resta-nos talvez
uma árvore na encosta, para vermos e revermos
todos os dias. Resta-nos a estrada de ontem
e o apelo mimado de um hábito
que por nós se afeiçoou, permaneceu e não foi embora.

E a noite, a noite quando o vento cheio de espaços do mundo
nos desgasta a face - para quem ela não saberia ser desejo e suave decepção,
ela, cuja proximidade pesa sobre
o coração solitário! Será mais leve para os amantes?
Juntos, eles apenas encobrem um para o outro seu destino.
Ainda não sabias? Lança o vazio aprisionado nos braços
para os espaços que respiramos! Talvez os pássaros sintam,
num voo de maior intimidade, o ar mais amplo.

In Sonetos a Orfeu e Elegias de Duíno. Edição bilíngue. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão, Editora Vozes: Petrópolis-RJ, 1989.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Dora Ribeiro




Nascida em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, em 1960. Escreve poemas desde o início da adolescência. Estudou nos Estados Unidos, de onde voltou para cursar Letras na PUC-Rio. Também viveu em Portugal e na China. Estreou com o livro Ladrilho de palavras - coedição com Lélia Rita Figueiredo Ribeiro (1984), depois publicou Começar e o fim (Fundação Catarinense de Cultura, 1990), Bicho do Mato (7 letras, 2000), Taquara rachada (7 letas, 2002), O poeta não existe (Angelus Novus, Cotovia, Portugal, 2005), Teoria do Jardim (Companhia das Letras, 2009) e Olho empírico (2011). Viveu em Lisboa entre 1983 e 2006 e morou em Pequim.


POEMAS






Meu cinema 

o plano está bastante
inclinado
e nós estamos lá
simples e
molhados

(há ovelhas à volta
e as árvores são
esculturas feitas de
ventania)


o chão

olha debaixo
da minha saia

e você vê ali
o céu descoberto

eu finjo distração
e morro por segundos
nos seus braços


***

o meu rosto e o teu cinema
são matéria do mesmo
manifesto
da mesma hora precária

carregam dúvidas
e escrevem com
os mesmos sinais a
paisagem do erro

***

quero falar uma língua nova
principiada na carta do teu
corpo
sem escrita lúcida nem
modos genitivos
quero uma língua
já gasta
gentilizada
versada em todos os
paganismos sórdidos e
elegantes
imagino-a já enciclopédica
ruminante e
devoradora de esperas
língua sem contenção
musa de labirintos

***




beijing

toda destruição
deixa alguma espécie de marca
caras queimadas
braços vazios
fios elétricos pendurados no ar

reescrever não tem lastro silencioso
todos os paus do corpo
gritam
pedem justiça para a sua pele
nada mais teatral do que a morte
disse ashbery
mesmo a morte do acabado

o reescritor porém ignora
a propagação do desejo
de destruir não destruir
e convencido da história
constrói não constrói
***
difícil olhar o tempo
sem repetir a vista
ou esquecer o modo das
vezes

ouvi o desaviso sem
luz e pensei nos líquidos
sorvidos desde a infância
 Poemas escritos na China 157
nada mais substancioso

leite de tudo
olhos quietos de sugar apenas
vida sempre aberta para
o escuro

***

parca serenidade II

a infância é o nosso mais fiel e longo animal
***
o poeta não existe

fora a vulgaridade se amontoa em histórias originais

***

o poeta não existe

coisa do nada
inimigo dos vizinhos
e de todos os desejos com nome

ele sabe que inexiste
por isso frequenta a poesia






















Texto crítico


Resenha de Flora Süssekind sobre a obra inicial de Dora Ribeiro, publicada no Caderno Ideias, Jornal do Brasil, em 13/03/1999.

O dentro, o fora 

Flora Süssekind

Os dois livros de Dora Ribeiro, Ladrilho de Palavras (1986) e Começar e o fim (1990), como muitos outros de poetas que lançaram suas primeiras coletâneas na segunda metade dos anos 80, passaram, do ponto de vista da recepção crítica imediata (com a exceção, neste caso, de um comentário de Luiz Costa Lima), praticamente em branco. Como se fosse impossível, independente da qualidade, sua visualização fora de algum movimento mais global ou tendência geracional definida. E, se invisíveis no contexto da publicação, paradoxalmente, um dos seus aspectos mais curiosos, para uma leitura atual, talvez esteja, ao contrário, na sua capacidade de exposição das tensões entre modelos imaginativos distintos como os das duas décadas que os delimitam. Entre a auto-expressividade, o prosaísmo e a poesia-diário, dominantes na poética dos anos 70, e o redimensionamento do sujeito lírico, a autorreflexão e a investigação formal e material, que caracterizariam parcela significativa da poesia de fins da década de 80 e dos anos 90 no Brasil.
 Pois há como que dois rastros perceptíveis na sucessão de poemas breves, quase todos sem título ou sinais gráficos particulares (apenas alguns poucos dois pontos, aspas e parênteses), fora a extensão variável dos brancos intervalares, que compõem esses livros de Dora Ribeiro. Um desses rastros parece seguir, em parte, o gosto pelo banal (não sua estetização), pelos diários (vide Chico Alvim ou Ana Cristina César), pelos dias em que nada acontece ("um dia como quem precisa achar emprego/ mas acaba bebendo e jogando sinuca", como no texto de Eudoro Augusto) da poesia das décadas de 70 e início de 80. Retomada que, nos poemas de Dora, se daria via exposição miúda do cotidiano ("doce de leite na colher", "almoço comercial", "descasquei batatas", "verdura arroz", "o calo do pé"), por vezes também próxima da notação de diário ("dia santo prosaico/dia sem santo", "como se reconhece o dia/em março/de horas e horas contadas/no ano", "os dias mesmos", a "vida de calendário"), da lista pura e simples ("batata palha/molho diana/sem café"), da "obsessão de enumerar a presença vital e intransponível das coisas". Ou, ainda, via percepção do tempo como uma forma de espera ("neste estar continuado de esperar"), de tempo "mole", modorrento, empoçado, morto: "o tempo se amontoa galinha/ no poleiro/ agrupamento malcheiroso/ porcos/ pardieiro/ toca fétida/ dos dias". 
Não faltam mesmo, nesse seu diálogo com a produção poética do período imediatamente anterior ao seu, uma tentativa acanhada de poema-minuto -"de olho rasteiro volto para casa/ preciso saber se já tive pneumonia", assim como certas hipertrofias do eu, - maneira da que se dá num poema-descrição de beijo em Ladrilho de Palavras: "faço de conta de cansaço/ amarro as franjas/ cintilo os braços/ escureço os olhos/ e/ despenco". Exemplos de quase endosso não muito frequentes, no entanto, na poesia de Dora. Já que, aí, este esquema expressivo parece tensionar-se duplamente. Em primeiro lugar, por uma tomada de distância -"e a primeira pessoa, outra"- com relação aos muitos eus de seus poemas, o que resultaria, por vezes, em construções propositadamente indeterminadas, estruturadas por uma série de infinitivos verbais substantivados ("começar", "o estalar da beleza") ou tendo substantivos abstratos como sujeitos textuais ("a perfeição", "a teoria", "uma ideia"), por vezes, numa diferenciação explícita entre sujeito empírico e figuração autoral -"o poeta não existe/ coisa do nada/ inimigo dos vizinhos/ e de todos os desejos com nome"-; na afirmação da consciência de que o sujeito é sujeito do poema: "ele sabe que inexiste/ por isso frequenta a poesia". 
E, outro ponto de instabilização da poética expressiva: uma espécie de trava ao presente, ao imediato, mesmo glosando-se, por vezes, a passagem dos dias, "desta hora", as formas de medida e registro do instante. Dora Ribeiro parece mesmo trabalhar, com frequência, com um tipo de paradoxo temporal - os verbos do poema no presente, mas acompanhados de uma forma condicional no futuro ou de uma localização explícita no passado. Ou, como se lê no poema que dá título ao seu primeiro livro: "dois tempos a desfiar/ suas tranças/no rosto estendido/de roupa no varal/púbico". O que resultaria, na série "Temporale", incluída na revista Inimigo rumor n.6 , nas variações em torno de um "quero te ver", ao qual se acrescentam ora condições futuras ("quando a terra molhada/cobrir teu abismo"), ora um movimento retrospectivo imediato ("quero te ver dopo il temporale/no passado/ onde o abismo vive num poço/sem vertigens/e/ limita-se ao descanso profundo/e às ideias de águas paradas").
 Há, portanto, um segundo rastro nesses dois livros, no qual a figuração do sujeito lírico, assim como a "hipótese da poesia" se afiguram problemáticos. O poema apontando não para o registro do mundo ou para a identificação da paisagem sensorial, mas para a consciência de seus limites (dá a intensificação, por vezes via Cabral e Celan, das imagens da pedra e do deserto, além dos seus muitos "temporais"), de uma intransponibilidade constitutiva ("paisagem que não alcanço", "a distância maior entre a sala e o quarto", "teus silêncios"). Ou, como no belo "temporale iv": "silêncio é palavra madura/difícil/sei de um poeta/que a usou sem saber/e/morreu". 
O poema apontando, por outro lado, não para o reforço de uma autoconstituição da subjetividade, mas para figurações diversas, e aparentemente estranhas na ambiência "lírica" dos textos de Dora, de decomposição, instabilização, dissolução de uma paisagem corporal, de presença no entanto fortíssima nos seus dois livros. Pois é nítida, nesse sentido, a multiplicação de pedaços do corpo (olho, braços, pernas, joelhos, boca, costas, mão) ou de formas variadas de contato corporal (roçar, beijo, tatuar, massagear, coçar), percursos vários de "mão exígua/ sobre o corpo", como fontes imagéticas dos poemas. Chega-se mesmo a figurar o poema como um "catalogar os sentidos", como "andanças da pele". E a falar em "dedo palavra", "corpo imaginação". Parecendo, por vezes, produzir-se uma espécie de identificação, de visualização, corporal para o sujeito e o poema. Movimento que se faria acompanhar, de modo quase imediato, entretanto, pelo seu avesso, por um "prazer do decomposto", pelo tremor, por um despencar, por uma "medida de sombra", um "corpo disforme", desdobrado em pregas, partes, ruídos, cansaço, dissociação, ou por um súbito "sumiço". Sumiço no qual se inclui, de certa maneira, até mesmo o poema, convertido em "desejo sempre outro", "desejo involuntário" da poesia, e, como tal, indício bem mais de falta, ausência, do que de corporalidade imediata.
 E é exatamente na transformação desses movimentos contraditórios - a intensa corporalidade do seu sujeito lírico ao lado de uma tendência decompositória equivalente em aspecto fundamental de sua prática poética que se singulariza o diálogo empreendido por Dora Ribeiro com os modelos - expressivo e reflexivo - de imaginação literária dominantes no seu período de formação. E que, desviando-se, por meio desse desdobramento antagônico, de certa dicção sublime que imprime a algumas de suas abstratizações poéticas, constrói alguns dos melhores textos desses dois livros. E de um período que, entre "booms poéticos de mídia", costuma ficar ao largo de qualquer consideração crítica.



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Herberto Helder


Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira (FunchalSão Pedro, 23 de Novembro de 1930) é um poeta português de ascendência judaica.

Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo trabalhado em Lisboa como jornalista, bibliotecário, tradutor e apresentador de programas de rádio. Viajou por diversos países da Europa realizando trabalhos corriqueiros, sem nenhuma relação com a literatura e foi redator da revista Notícia em Luanda, Angola, em 1971, onde sofreu um acidente grave. 

É considerado um dos mais originais poetas vivos de língua portuguesa. É uma figura misantropa, e em torno de si paira uma atmosfera algo misteriosa uma vez que recusa prêmios e se nega a dar entrevistas. Em 1994 foi o vencedor do Prêmio Pessoa que recusou. 

A sua escrita começou por se situar no âmbito de um surrealismo tardio. Escreveu "Os Passos em Volta", um livro que através de vários contos, sugere as viagens deambulatórias de uma personagem por entre cidades e quotidianos, colocando ao mesmo tempo incertezas acerca da identidade própria de cada ser humano (ficção); "Photomaton e Vox", é uma colectânea de ensaios e textos e também de vários poemas. "Poesia Toda" é o título de uma antologia pessoal dos seus livros de poesia que tem sido depurada ao longo dos anos. Na edição de 2004 foram retiradas da recolha suas traduções. Alguns dos seus livros desapareceram das mais recentes edições da Poesia Toda, rebatizada Ofício Cantante, nomeadamente Vocação Animal e Cobra. 

A crítica literária aproxima sua linguagem poética do universo da Alquimia, da mística, da Mitologia edipiana e da Imago da Mãe.



























SETE POEMAS

***

a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação,
¿e se me tocam a boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se a vara enflorasse com as faúlhas,
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
¿tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na fase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avesso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda

In Ofício Cantante  - Poesia Completa, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.

***
Obra de Mira Schendel




















o ministério lírico, o mais grave e equívoco, o dom, não o tenho,
espreito-o, leitor,
por cima do ombro de outros,
rítmico, manuscrito,
porque sofro do erro,
porque me não equilibro nas linhas,
palavras sim insubstituíveis mas
tão pouco sustentáveis,
sei contudo de alguns dançando à beira do abismo,
que tusa surreal!
ou fodem murcho?
a mim, que não creio em Deus, pátria ou família,
em teorias gerais da linguagem,
na vida eterna,
na gramática,
na foda estrita,
em prática técnica nenhuma,
na glória da língua,
não há apoio de inserção que me valha,
e os poemas talvez não passem porque há muitos cães que ladram,
morro faz já bastante tempo,
ou não ganhei a mão esquerda certa,
ou não perdi a razão suficiente,
Bernardim, Gomes Leal, Ângelo de Lima, os loucos,
para-me de repente o pensamento,
luzia a lusa língua,
se era o mesmo o ministério voltava sempre ao começo,
exasperado, lúcido,
o mais música de câmara possível,
o recôndito,
o córrego,
tão virgem nele se bebia a água,
e lisa, límpida, ligada,
e fria se revolvia nas chagas cruas da boca,
o ministério lírico era o de ferir palavras ou de ferir-se com elas,
oh terror e deslumbre,
acqua alta!

In Ofício Cantante - Obra Completa. Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


***

Obra de Mira Schendel













a faca não corta o fogo,
não me corta o sangue escrito,
não corta a água,
e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
jogando linho com dedos, conjugando
onde os verbos não conjugam,
no mundo há poucos fenômenos do fogo,
água há pouca,
mas a língua, fia-se a gente dela por não ser como se queria,
mais brotada, inerente, incalculável,
e se a mão fia a estriga e a retoma do nada,
e a abre e fecha,
é que sim que eu amava como bárbara maravilha,
porque no mundo há pouco fogo a cortar
e a água cortada é pouca.
que língua,
que húmida, muda, miúda, relativa, absoluta,
e que pouca, incrível, muita
e la poésie, cést quand le quotidien devient extraordinaire, e que
                                                                                                          /música
que despropósito, que língua língua,
disse Maurice Lefèvre, e como rebenta na boca!
queria-a toda

In  A Faca Não Corta o Fogo. Assírio & Alvim, 2008.

***

Quero um erro de gramática que refaça
na metade luminosa o poema do mundo,
e que Deus mantenha oculto na metade nocturna
o erro do erro:
alta voltagem do ouro,
bafo no rosto.

In Ofício Cantante - Poesia Completa. Assírio & Alvim, 2009 

***

É amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.

In Ofício Cantante – Poesia Completa. Assírio & Alvim, 2009 

***


Obra de Mira Schendel




















li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então eu indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega

In A faca não corta o fogo. Assírio & Alvim, 2008.