sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Seamus Heaney








Digging

 
Between my finger and my thumb
The squat pen rests; as snug as a gun.

Under my window a clean rasping sound
When the spade sinks into gravelly ground:
My father, digging. I look down

Till his straining rump among the flowerbeds
Bends low, comes up twenty years away
Stooping in rhythm through potato drills
Where he was digging.

The coarse boot nestled on the lug, the shaft
Against the inside knee was levered firmly.
He rooted out tall tops, buried the bright edge deep
To scatter new potatoes that we picked
Loving their cool hardness in our hands.

By God, the old man could handle a spade,
Just like his old man.

My grandfather could cut more turf in a day
Than any other man on Toner's bog.
Once I carried him milk in a bottle
Corked sloppily with paper. He straightened up
To drink it, then fell to right away
Nicking and slicing neatly, heaving sods
Over his shoulder, digging down and down
For the good turf. Digging.

The cold smell of potato mold, the squelch and slap
Of soggy peat, the curt cuts of an edge
Through living roots awaken in my head.
But I've no spade to follow men like them.

Between my finger and my thumb
The squat pen rests.
I'll dig with it. 

From Death of a Naturalist (1966)



Cavando


           Trad. Josely V. Baptista e Francisco Faria


Repousa entre meus dedos
uma pequena pena; firme como uma arma.


Sob a janela, um som áspero e claro
quando a pá se aprofunda entre terra e cascalho.
Vejo o pai, cavoucando. E lá embaixo

seu dorso retesado entre os regos de flores
ainda se dobra, e rebrota de remotos vinte anos,
debruçando-se ritmado entre as leiras de batata
que ele estava lavrando.

As botas toscas se amolgando no bordo, o cabo
firmemente apoiado contra o joelho.
Ele arrancou tubérculos maduros, enterrou fundo o gume
reluzente para semear novas batatas que colhíamos
apreciando o frio rigor do fruto entre as mãos.

Como o velho sabia usar aquela pá!
Tal e qual o seu velho.

Meu avô corta mais turfas num dia
que qualquer outro homem no brejo de Toner.
Uma vez levei leite pra ele numa garrafa
com uma rolha frouxa de papel no gargalo. Ele se aprumava

pra tomá-lo e já se vergava novamente
talhando e retalhando com apuro, atirando torrões
por sobre os ombros, e descendo e indo fundo
em busca de boa turfa. Cavando.

O frio olor do húmus das batatas, o estalo e o chafurdar
das turfas encharcadas, os repentinos cortes de um gume
entre as raízes vivas que me afloram à memória.
Não tenho pá para seguir os passos de homens como esses.

Repousa entre meus dedos
uma pequena pena.
E com ela eu vou fundo.



* * *

Traducción ao español por Zaidenwerg (en http://zaidenwerg.blogspot.com/)

 

Cavar  

 

Entre mis dedos índice y pulgar
cargo la pluma fuente, como un arma.

Entra por la ventana un ruido áspero
–la pala que se entierra en la gravilla–
y me asomo: mi padre está cavando.

Mientras agacha la agobiada espalda
junto a las flores, vuelvo veinte años,
y lo veo inclinarse entre los surcos
de papas, donde él solía cavar.

Con una bota rústica apoyada
en la pala, luego calzaba el mango
en la parte interior de la rodilla,
e iba tirando de los largos tallos
y después con la punta reluciente
de la pala, que hundía hondo en la tierra,
separaba las papas que sacábamos.
Nos gustaba tenerlas en las manos
y sentir su dureza refrescante.

Por Dios, sí que sabía manejar
una pala, mi padre, igual que el suyo.

Mi abuelo era capaz de recoger
en un día más turba que cualquiera.
Una vez le llevé un poco de leche
dentro de una botella con su tapa
precaria de papel. Él se paró
para beber. Después volvió a agacharse
y se puso a cortar con gran esmero:
arrojaba terrones por encima
del hombro, sin cesar, mientras cavaba
y cavaba, buscando turba buena.

El frío olor del moho de las papas,
el chapoteo en la turba empapada,
el filo de la pala cercenando
las raíces, me vuelven a la mente;
y sin embargo, yo no tengo pala
para seguir a hombres como ellos.

Entre mis dedos índice y pulgar
cargo la pluma fuente.
Voy a cavar con ella.

Jorge de Lima

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SONETO 

 Não procureis qualquer nexo naquilo
que os poetas pronunciam acordados
pois eles vivem no âmbito intranquilo
em que se agitam seres ignorados.

No meio de desertos habitados
só eles é que entendem o sigilo
dos que no mundo vivem sem asilo
parecendo com eles renegados.

Eles possuem, porém, milhões de antenas
distribuídas por todos os seus poros
aonde aportam do mundo suas penas.

São os que gritam quando tudo cala,
são os que vibram de si estranhos coros
para a fala de Deus que é sua fala.


Poema originalmente publicado em Livro de Sonetos (1949).
 

Alex Hamburger - Dedicado a Hugo Ball - HD

sábado, 11 de fevereiro de 2012

GERARD MANLEY HOPKINS



Gerard Manley Hopkins (1844-1889) é um dos maiores nomes da literatura inglesa. Jesuíta no berço do anglicanismo, homem do século XIX, mas muito à frente da sua época, clássico e vanguardista, esteta e asceta.

Em sua obra, o padre-poeta conjugou mística e arrojo verbal, produzindo versos cuja grandeza nem seus amigos mais chegados conseguiram avaliar corretamente. Somente três décadas depois de sua morte, leitores da envergadura de Herbert Read, T. S. Eliot, I. A. Richards e Edward Sapir descobriram realmente quem tinha sido o poeta Hopkins.
The Windhover, poema dedicado “a Cristo Nosso Senhor”, é considerado texto central em sua produção. Trata-se de um soneto, escrito meses antes de sua ordenação sacerdotal, em maio de 1877, pouco depois da Páscoa. Descreve o impacto emocional causado pela visão de um pequeno falcão que realiza proezas no ar. Essa visão leva/eleva o coração do poeta a pensar em Cristo, enaltecê-lo e a acompanhar sua morte violenta e a vitória final (a última estrofe do poema alude ao sacrifício redentor da cruz).
Hopkins apreciava a natureza com olhos contemplativos, com nítida predileção pelos pássaros, símbolo da ascensão espiritual.

Windhover é um tipo de falcão que consegue deter-se em pleno ar, a cabeça voltada contra o vento, como a desafiá-lo. Tal aprumo impressionou o poeta e arrebatou sua mente, associando o pássaro a um Cristo que cavalga no céu com total autodomínio.
Do ponto de vista formal, também o poema desafia os tradutores. Aliterações, assonâncias, elipses, paronomásias e um ritmo acentual – o chamado sprung rhythm -, que procede a saltos, todo um conjunto de recursos poéticos que exige, segundo Augusto de Campos, mais do que tradução, uma recriação.
Tal recriação não é das mais fáceis. A começar pelo título. Literalmente, windhover significa “aquele que flutua no espaço ao sabor do vento”. A palavra “falcão” é já um empobrecimento, que José Paulo Paes (*) tentou contornar intitulando sua tradução “Falcão ao Vento”, para não perder o que há de sugestivo em “wind”.

Texto de Gabriel Perissé

*  Das três traduções do poema consultadas – a de Augusto de Campos, a de Aíla de Oliveira Gomes e a de José Paulo Paes –, escolhi a deste último por considerá-la a melhor. 



The Windhover

To Christ Our Lord


I caught this morning morning's minion, king-
      dom of daylight's dauphin, dapple-dawn-drawn Falcon, in his riding
      Of the rolling level underneath him steady air, and striding
High there, how he rung upon the rein of a wimpling wing
In his ecstasy! then off, off forth on swing,
      As a skate's heel sweeps smooth on a bow-bend: the hurl and gliding
      Rebuffed the big wind. My heart in hiding
Stirred for a bird, – the achieve of, the mastery of the thing. 

Brute beauty and valour and act, oh, air, pride, plume, here
      Buckle! AND the fire that breaks from thee then, a billion
Times told lovelier, more dangerous, O my chevalier!

      No wonder of it: shéer plód makes plough down sillion
Shine, and blue-bleak embers, ah my dear,
      Fall, gall themselves, and gash gold-vermilion.



Falcão ao vento

A Cristo Nosso Senhor

     Tradução de José Paulo Paes

Vi de manhã o mimo da manhã montando,
      Delfim do despertar do dia, fulvo falcão em luz listrando-se,
     Sob si sinuoso ar sereno, e após alçando-se
Ali tão alto: que altivo o seu freio e mando
Da ala ondulosa do êxtase! e então avante, avante, quando,
      Qual pé de patim que rala rente a curva arcada, o impulso pando
      Vencia o vasto vento. Meu coração, guardando-se,
Ansiava por uma ave – tanto domínio e mestria, tanto!

Brutos e belos o valor, o ato, oh ar, arrogo e plumas, ei-los
      Aliados, e a flama a fulgir em ti, essa um bilhão
De vezes dita mais graciosa, e perigosa, oh sim, meu cavaleiro!

      Não admira: mero amanho faz a leiva no chão
Brilhar, e brasas azul-gelo, ah meu cordeiro,
      Caem, cortam-se e cospem ouro-vermelhão.

Charles Baudelaire

CHARLES BAUDELAIRE EM TRÊS TEMPOS

 
















 
L’Albatros


Souvent, pour s’amuser, les hommes d’équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l’azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d’eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu’il est comique et laid!
L’un agace son bec avec un brûle-gueule,
L’autre mime, en boitant, l’infirme qui volait!

Le Poëte est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l’archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l’empêchent de marcher.

(p. 110-111)


O albatroz


Tradução de Ivan Junqueira


Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão longo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.























Correspondances


La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L’homme y passe à travers de forêts de symboles
Qui l’observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

Il est des parfums frais comme des chairs d’enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
- Et d’autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l’expansion des choses infinies,
Comme l’ambre, le musc, le benjoin et l’encens,
Qui chantent les transports de l’esprit et des sens.

(p. 114)



Correspondências


Tradução de Ivan Junqueira


A Natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
O homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.

Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.

Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o oboé, verdes como a campina,
E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,

Com a fluidez daquilo que jamais termina,
Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente,
Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.



























A une passante


La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet;

Agile e noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide ou germe l’ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit! – Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l’éternité?

Ailleurs, bien loin d’ici! top tarde! jamais peut-être!
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
O toi que j’eusse aimeé, ô toi qui le savais!

(p. 344)


A uma passante


Tradução de Ivan Junqueira


A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz... e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!


Fonte: Baudelaire, Charles. As flores do mal. 3a. ed. Trad. de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

"Ladrão", exposição de pinturas digitais de João Werner


Exposição de 24 novas pinturas digitais de João Werner, todas herdeiras da longa tradição anti-estado.
Quem não estiver em Londrina, ao menos visite a página da expo no site do pintor: http://www.joaowerner.com.br/exposicoes-de-joao-werner/exposicao_ladrao_de_pinturas_digitais_joao_werner.htm e, se gostar do que lá testemunhar, ajude-me a divulgá-la.

Algumas gravuras da exposição:


Pintura "Toda riqueza provém de violência"
 "Toda riqueza provém de violência"


Pintura "Distribuição de renda"
"Distribuição de renda"


Pintura "Black Flag"
"Black Flag"


Pintura "Dano à propriedade"

"Dano à propriedade"

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Sobre a exposição "Ladrão"
 
Depois de mostrar motéis baratos e retratos de almas em profusão, o artista plástico João Werner apresenta uma nova exposição em sua galeria em Londrina, intitulada “Ladrão!”.
 

Mantendo o humor ácido de suas exposições anteriores, Werner reune 24 pinturas digitais que retratam, em linguagem expressionista, os mais variados matizes da violência social. Desde brigas interpessoais e acalorados protestos de rua, até as dramáticas “Homem na escuridão”, as quais retratam pessoas (presos políticos, talvez) subjugados sob a violência sem face do Estado.
 

Considerando o que temos visto nos recentes movimentos do “Ocupa Wall Street” ou na dramática, assim denominada, “Primavera árabe”, estas pinturas de Werner retratam um universo cultural atual, de movimentos contestatórios sociais.
 

- “Bem, minhas pinturas ‘Dano à propriedade’ são de 2008 e eu até achei estar fazendo pinturas anacrônicas”, diz o artista. “Já estava ouvindo alguns amigos insinuarem uma certa adolescência tardia nos temas destes meus trabalhos, quando testemunhei o início dos movimentos contestatórios na Tunísia, em 2010. Foi uma ótima surpresa para mim ver que o desejo por mudanças sociais ainda não havia sido extirpado da espécie humana”.
 
Este acento anarquista revela-se, também, em pinturas como “Distribuição de renda”, “Black flag” ou em “Toda riqueza provém de violência”. Em uma linguagem visual colorida e intensa, Werner não teme revisitar os velhos bordões da esquerda radical nessa confortável e carola época pós-moderna em que vivemos.

Se o espectador desta recente exposição de João Werner vai iniciar a próxima revolução, ninguém sabe. Mas, certamente, quem visitar esta “Ladrão!” terá a oportunidade de ver mais um belo exemplo da inventiva produção digital do artista.
 
Serviço:
Quando: de 30 de janeiro a 30 de março
Onde: Galeria João Werner, rua Piauí, 191 - loja 71, Londrina (PR).
Horário: de terça a sexta-feira, das 14 às 20h e sábados, das 11h às 17h.
A entrada é gratuita e a exposição conta com monitoria.
Mais informações: (43) 3344-2207
 
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Statement
 
Eu não vou chamar pilantra de excelência, nem vagabundo de meretíssimo.
Eu não vou chamar pedófilo de eminência, nem analfabeto de magnífico.
Você quer me obrigar com a tua lei, mas eu NÃO vou separar o meu lixo, porque o imposto que eu te pago é mais do que suficiente para eliminar todo o lixo da face do país.
Você quer me constranger com a tua propaganda, mas eu NÃO vou economizar a água porque, com o imposto que eu te pago, toda a água consumida deveria ser límpida e cristalina, e a natureza preservada em seus mananciais.
Você me olha torto do alto de tuas escrituras, mas eu NÃO vou contribuir com a tua campanha de caridade porque, com o imposto que eu te pago, não deveria haver criança de rua, nem miséria econômica e cultural, nem o abandono de idosos e doentes.
E, por fim, você pode fazer muchocho e torcer o teu narizinho, mas eu NÃO vou entregar minha arma a você pois, se assim todos o fizessem, o único armado nesta “terra de marlboro” seria você.
Ao contrário do que você alardeia por aí, fazer tudo isso que você quer NÃO É exemplo de cidadania ou de civilidade, e nem vai salvar o mundo (o seu, é claro).
Fazer tudo isso que você quer é apenas dar mais sopinha pra pilantras.
Em Tortuga, o Estado não é a solução, porque o Estado é o LADRÃO!
 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

NUNO RAMOS



 Antes mesmo de sua publicação em livro, Junco ganhou de alguns de seus leitores um epíteto – “a máquina do mundo cão” – que parece difícil de descolar desse conjunto de poemas em que Nuno Ramos vem trabalhando nos últimos catorze anos. Não é preciso adivinhar a referência à busca do sentido do mundo, à “total explicação da vida” que espantosamente se abre aos olhos de um caminhante solitário, ainda que para se recolher, logo em seguida, e sem desfazer o enigma, como no poema de Drummond. A máquina do mundo se expõe diretamente aí em nota e em recortes brevíssimos, encravados nos textos. E se oferece, ainda, como cena primordial – no meio do caminho da vida – que organiza a paisagem marítima infernal – praia, praia, praia, praia – na qual se opera um misto de junção e tensão figural, que estrutura, em via dupla, mas em mútua interferência, a série poética de Nuno Ramos, entre os restos de um cachorro morto largado no asfalto e os de um cadáver de árvore, junco jogado na areia. E também entre texto e fotografia – pois, ao lado da sucessão de refigurações de cão e junco, reitera-se literalmente, ao longo do livro, a exposição de imagens do tronco na beira domar e do cachorro morto no chão.

A trama dupla, no entanto, se sugere o analógico, é para travá-lo em seguida. Mesmo que as fotos os apresentem em disposição quase idêntica, parecendo reforçar comparações, é impossível não ver a matéria diversa de que são feitos animal e caule. Pois cão é cão e junco é planta. E mesmo que o caule se exponha como cão-lagarto, lambendo algas, e ao cão, no asfalto, se possa ver como junco, lenha, banha, planta, persiste a dissimetria. E é pela insistência nesse paralelismo, mas a distância, das imagens que Nuno Ramos se avizinha, em movimento largamente expansivo, do belíssimo jogo entre bala, relógio e lâmina, realizado por João Cabral de Melo Neto em Uma faca só lâmina. Acrescentando-se, assim, a um modo cindido de figuração (reduplicado, ainda, entre lágrima e onda) outra tens articulação – entre o poema narrativo e a composição serial, e entre o formato circunflexo, expressivo, do rosto e o livro silencioso de areia com que se encerra o último poema.

Texto de Flora Süssekind na orelha de Junco, São Paulo, Iluminuras, 2011, do qual foram retirados os poemas de Nuno Ramos transcritos abaixo. 





DEZ POEMAS


1.

Cachorro morto num saco de lixo
areia, sargaço, cacos de vidro
mar dos afogados, mar também dos vivos
escuta teu murmúrio no que eu digo.

Nunca houve outro sal, e nunca um dia
matou o seu poente, nem a pedra
feita de outra pedra, partiu o mar ao meio.
Assim é a matéria, tem seu frio

e nunca vi um animal mais feio
nem pude ouvir o seu latido.
Por isso durmo e não pergunto
junto aos juncos.

12-96/01-03

(p. 11)


2.

Um junco jogado na praia
um junco dourado, o sol sua mortalha
sobre a rocha, farinha
moída pela água.

Cão-lagarto lambendo algas marinhas
cadáver de uma árvore boiando
sono de uma pedra
luto iluminado e pernas nuas.

Praia cheia de ganidos
e defuntos
cheia de ser luz, espuma
que o mar em ré recusa.

Parede nenhuma, abóbada vazia
ovário e cemitério dos siris.
03-97

(p. 13)


5.

O dia (leite) talha
a verde antiga planta feita palha
e o vento vela, a chuva caia
peso e pedra, pó e praia.

A proa da canoa
presa no assoalho
de areia é retalho da maré cheia
gravado no cascalho.

Seu naufrágio e cenário
Sua cova e ovário.

19-97/12-98/11-03

(p. 19)


 


8.

Perder
perder o pássaro que se protege
ferir sua penugem
contra a grade da gaiola
Perder é uma argila

Misturada a folhas secas
é um mar monótono
de amido e de saliva
o dia amanhecido
num retalho aveludado.

Perder é o selo de uma carta
o toco de um cigarro
o laço da gravata
que a maré depois coleta
na orla sinuosa.

Ou ecos inconformados
assim: eu não, ainda não
não é a minha vez
Ainda. Até que em meio
a tanto tecido

morto, molhado
o mineral (que há)
se encrespa
e dorme geológico
dentro de você.

Como um magneto, um megalito
um pâncreas calcário.

02-98/02-04/03-09

(p. 26-27)


12.

Punhado de cal dentro da fronha
dente de leite guardado num muro
de areia, corpo esmaltado, cerzido

com sal e amido, parte de um
nome, noites de giz e de sono
sem matéria ou contorno

abrem os braços para mim.

03-09

(p. 37)




13.

Corvos
calvos
os alicates das mandíbulas
em pequenas bicadas
(depois saltam nos pés de mola).

Irmãos da matéria
no curso de volta
à confraria
cinza
de antigos corpos.

05-09/01-03/02-04

(p. 39)


18.

Eu não explico. Mordo
ou vejo as partes duras
movendo-se como formigas
(sorvete de flocos
guizo de cinzas).

Eu não entendo. Voo
como um tronco pisa
raiz adentro. Aliso
a penugem, inclino
a vassoura, bruxo.

Eu não escrevo. Vivo
como um urubu de feltro
imóvel entre a carniça
dra desses carros.
Bato em vidros

que não há, mas derrubam.
Procuro no núcleo
azul o útero exato
que exala essa fornalha
até mim

o último urubu do mundo.
Furo o vácuo
e minha pálpebra
fecha
feito escudo quando ataco.

02-08/02-09/01-11

(p. 50-51)


27.

Se aumento
o número de palavras
o mundo, meu mundo, este mundo
que me abraça e que respiro
este conjunto de bolhas e besouros
estoura.

Notícia
poema, samba
coração cenário
grafado num tronco:
a cusparada
da chuva sabe mais.

06-08

(p. 71)



31.

Rep
ara
nada para
até a casca
das árvores e a pedra
das ostras passam por ti
os ossos
dos mortos, t
eus mortos
todos
- cão, latido, minuto
sapato engraxado
enterro do pai –
alinham-se só
par
a ti, repara
nada para
nem os mortos.

06-8/03-09

(p. 81)


35.

Um poema se fez!, aviso
num pito
voltem à praia onde juncos
moles, brancos
aspargos sobre carvalhos mortos
boiam formando palavras
num espelho de algas
moídas com olhos enormes.
Voltem à praia onde cães
predando os próprios ossos
como donos do sol
riem de nós, mas por nós.
Ali encontrarão minha cara.

Cansados, pregados
ao chão, viúvos
obesos, orelhas
abertas à espreita
apenas
espantam o poema.

06-08/03-09/10-09/03-10

(p. 89)