Sábado, 26 de Abril de 2008



















POESÍA

José Antônio Cavalcanti


Los poemas perdieron sus palabras.
Han caído, como dientes cariados,
en agujeros negros,
sórdidas rutinas,
fallas tectónicas.

Las palabras murieron ahogadas
en dosis letales de sonoridad,
se han convertido en fantasmas en el aire,
aves volatizadas,
despedazadas sílabas muertas.

El poeta es mímico y malabarista de lenguas
que ya nadie puede escuchar.

El arte se volvió en álgebra invisible
en estos días de solombra.
No hay más invención ni proyecto;
sonríe la estética de la midia
sob el cielo de acetato.

El tiempo fue expurgado
de cualquier temporalidad,
y alguien ha hurtado lo real
y sus márgenes de sueños:
nadamos en charcos de lama y plástico
en la ciudad sin metáforas.

Quizá ahora, que no hay más poemas,
podamos escribir un poema imposible.


LUIZA NETO JORGE (1939-1989)














No Jornal do Brasil, de 23.04.08, foi publicada uma matéria muito oportuna, assinada por Bolívar Torres, sobre o lançamento do livro 19 recantos e outros poemas, da poeta portuguesa Luiza Neto Jorge, pela Editora 7 Letras. Trata-se do primeiro livro de uma das vozes mais originais da poesia portuguesa contemporânea publicado por aqui. Dela só havia textos em antologias.
Como uma pequena forma de colaborar para a divulgação da obra de Luiza Neto Jorge, resolvi publicar uma pequena apresentação feita pelo organizador da antologia e alguns poemas da autora.












LUIZA NETO JORGE
ou Apresentação de uma espécie de corpo inenarrável


Jorge Fernandes Da Silveira

Poeta, tradutora (Lisboa, 1939-1989). A escrita revolucionária dos poemas de Luiza Neto Jorge volta a exigir uma mudança radical no hábito da leitura de poesia. Ler o seu primeiro livro - A Noite Vertebrada, 1960 - implica perceber como a expressão poética, a partir de uma interpretação pessoal da realidade, transforma os significados socialmente fixados em significantes produtores de outros sentidos. O lado referencial, institucionalizado portanto, da Terra Imóvel (1964) é visto através da literatura, pois, à semelhança dos poetas da sua geração, ao falar do tempo e do espaço que historicizam o seu poema, cita, de acordo com os princípios da intertextualidade, os autores que lê. Em Quarta Dimensão (1961), a sua participação em Poesia 61, o transporte entre os textos e a relação inter-estrófica - por meio de uma semântica em aberto, juntando poemas à primeira vista independentes - já caracterizam o estilo de Luiza Neto Jorge como, para usar um título seu, um "ciclópico acto": um modo de apropriação de diferentes e plurívocas linguagens, reinterpretadas pelo avesso, no choque casual de contradicções provocatoriamente fundidas. Esta poética, de quem ainda se distingue pela criação de textos para o teatro e o cinema, tem algo de uma encenação dramática. Publicado em 1969, Dezanove Recantos é a síntese extraordinária duma poesia de acontecimentos, de situações tensas entre o sujeito e as suas circunstâncias. O livro está dividido em 19 recantos e não em 20, como seria de esperar em texto que se nomeia, explicitamente, recanto camoniano, duplicação, pela leitura-escrita, dos 10 cantos d'Os Lusíadas. Em obra de vocação surrealizante, a multiplicação pela falta, pelo um em menos (10 + 10 = 19), é proposição evidente da reivindicação de uma nova narração dos acontecimentos. A matriz épica do livro - o fato de a escrita se dizer leitura de uma epopéia clássica - é, sem paradoxos, sinal da mais paradigmática modernidade na obra de Luiza. Semelhantes práticas de conhecimento em confluência mais sobressaem se associadas a uma outra de igual ou maior força: a hipótese de um modo feminino de escrever a história portuguesa, arbitrariamente transformada em história de homens ilustres, dos "barões assinalados". Neste aspecto, por meio de um surpreendente e desassombrado erotismo, a poesia de Luiza não encontra paralelo na literatura portuguesa desde sempre. Do "peito ilustre lusitano" ao seu avesso, seja ele o peito assassinado de Inês, ou o seu nome próprio assinado à maneira das bibliografias - "SO-NETO JORGE, Luiza"-, há uma prática de escrita intimamente, sexualmente na verdade, ligada às partes do corpo que escreve. Um corpo assim, eros frenético, assim movido e assinalado às avessas, é um corpo em estado de alarme. A poesia da autora de "Exame" é o alerta desse corpo alarmado e alarmante. Já que escreve poemas em que passa o sexo a ser eixo, ela tem muito a falar sobre as cópulas semânticas entre os gêneros masculino, feminino e literário. Numa zona, antes ambivalente agora pluralizada, pois alargada nos seus órgãos extremos, esta poesia requer para si uma área de transição, que é, no fundo, a expressão mais feliz que ela encontra para falar do prazer do sexo do e com o outro. É nessa zona a um só tempo fatal e vital, local de encontro do sujeito consigo e com os discursos que interpretam o mundo, que a poesia de Luiza Neto Jorge inscreve uma revolução nos instrumentos de estilo e composição, ditando à sua maneira a moda que lhe é contemporânea: ler o escrito e escrever o lido, sim, pois estes são Os Sítios Sitiados (1973); mas não como práticas colossais de isolamento em que a exclusão é o estigma permanente da indiferença pelo diferente. Em 1966, é publicado O Seu a Seu Tempo. Tempo de uma maravilhosa aventura poética que ao longo dos anos 60 escreveu os seus livros mais notáveis. No ano de1989, vem A Lume, o título que, literal e postumamente, esclarece um longo silêncio, às vezes interrompido por intervenções e colaborações nos mais diversos meios de comunicação. Igualmente póstumo tem de ser Poesia 1960-1989 (1993), embora nele estejam reunidos e vivos para sempre versos perfeitos, harmoniosamente irregulares, com uma musicalidade intensa, cortados por elipses frasais e semânticas, por uma exultante contundência, por um amor ardente, sarcástica e ferozmente doméstico, à portuguesa.
O texto acima foi transcrito de http://www.lusitanistasail.net/silveira01.htm.

POEMAS

Desinferno II

Caísse a montanha e do oiro o brilho
O meigo jardim abolisse a flor
A mãe desmoesse as carnes do filho
Por botão de vídeo se fizesse amor

O livro morresse, a obra parasse
Soasse a granizo o que era alegria
A porta do ar se calafetasse
Que eu de amor apenas ressuscitaria


Encantatória

Custa é saber
como se invoca o ser
que assiste à escrita,
como se afina a má-
quina que a dita,
como no cárcere
nu se evita,
emparedado, a lá-
grima soltar.

Custa é saber
como se emenda morte,
ou se a desvia,
como a tecla certa arreda
do branco suporte
a porcaria.
















A cabeça em ambulância

Há feridas cíclicas há violentos voos
dentro de câmaras de ar curvas
feridas que se pensam de noite
e rebentam pela manhã

ou que de noite se abrem
e pela amanhã são pensadas
com todos os pensamentos
que os órgãos são hábeis
em inventar como pensos

ligaduras capacetes
sacramentos
com que se prende a cabeça
quando ela se nos afasta

quando ela nos pressente
em síncope ou desnudamento
ou num erro mais espaçoso
ou numa letra mais muda
ou na sala de tortura
na sala escura,de infância


A quem se interesse

A quem se interesse
por tecidos, peles
sistemas de ocultação

lembro Bartolomeu
santo, mártir, manequim

o que há séculos passeia
sobre os ombros
ou dependurada no braço
feita capa
a sua pele escorchada

adereços:
os pés e as mãos,
a murcha máscara
da cara.
















RECANTO I

Proposição:

Contorno-vos. Socorre-se a terra de mim
para vos contornar.

Enquanto se gastam montanhas
e a beleza se define como um sapato na relva
e a bondade é um mar
em contra-luz

vosso contorno vence
o meu poder.

Poder que vos desfoca, dinamite.

Invocação:

Mestre luz equívoca entre a página e o poema

e tu João num terraço
prisioneiro sobre o evidente
dinamitado

Pai dador de sangue

Vaídio gato animal sustido
no ovário de minha mãe vestíbulo e morgue

Eléctrico motor louco, louco navegante, máquina arborizada
a lançar faíscas pelo mundo
e sangue e seios e cílios sustentando o corpo!

Já o sol, nos pólos, era sol, o sempre.
Já um arco voltaico, mestre, em 33 rotações sonhava
alto
dava uma luz
sonora uma estridência
um íman

Assim veio a musa seus dedos apurados para
o exame dos mortos
deusa mão coçando-se
debaixo da terra
a empurrar.

(Idade de reabsorção)

Dedicatória:

Sobretudo a Dulcíssimo o amor em bruto, vinte vezes
banido 20 vezes assente sobre o chão 20 vezes
eternas a bater com a memória
no fundo do mar

a Ilo um ovo fecundo o mundo
a Ila viajante do espaço ínfimo entre dois planetas
revolucionados

e a Anjo um ser privado
ao que lava ao que perfuma
que foi um rio de espuma refluxo espérmico
entre muitas almas

a Telefonia, que foi boca sintética

contorno-vos
atravesso em vida o vosso ácido.

Serva milenária de senhores e servos
serviçal matéria com as flores mais ácidas
sombra meio brilhante era estar a olhar-vos
solenemente

e sair como todos em Sèvres-Babilónia
de um alçapão de morte e de alegria
de uma degradação
de um degredo de uma bondade movida por roldanas.

Narração:

Assim começa:

Por toda a cidade havia um terraço
onde me debrucei sobre um rio infindável sobre uma
chávena de café com cisnes sábios
sobre um rio que só tinha de humano o ir
secando.

No cinema, cão de caça
atrelado a deus
(Vejo-vos vejo-vos entrar pelas janelas para dentro da câmara
onde se investe deus)
homens atravessam o largo cosmos,
infatigáveis no trabalho
como quem dá brilho ao fecho
de uma porta aberta.


RECANTO 11

O verão deu-nos uma volta aos olhos.

Voltou-se ao mais princípio dos princípios
a Ilo um ovo perdido num campo de pérolas
chamou-se por uma mulher (Ila, irmã, ovário)
para recuperar o sexo

mas o que nos apareceu foi a clareira como víramos
num filme e na televisão a luz feita
espaço de calor aquela incandescência aberta
no juízo

que nos falava de um ser inexistente
de um ex-ser duplo
povoador de momentos agudos
de afiadas linhas da mão,

brancas gotas de amante à despedida
heróica incandescência metida
em supositório
pela artéria aorta.


Poema quase epitáfio

Violentamente só
desfeito em louco
- nem um gato lunar
te arranha um pouco

Morreram-te na família
irmãos mais velhos
Restam retratos de vidro
e espelhos

Entre as fêmeas bendita
não te quis
As outras mataste
(nem há sangue que te baste)

O chão do teu país
deu-te água e uma raiz
muitas pedras mas prisões

- Senhor demónio dos sós
Quando ele morrer
onde o pões?











As casas vieram de noite

As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas


O poema

I

Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontando ao coração do homem

falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme

II

Piso do poema
chão de areia

Digo na maneira
mais crua e mais
intensa
de medir o poema
pela medida inteira

o poema em milímetro
de madeira
ou apodrece o poema
ou se ateia

ou se despedaça
a mão ateia
ou cinco seis astros
se percorre
antes que o deserto
mate a fome














Pelo corpo

infinita invenção
de pétala a escaldar
desprende o falo

a palavra sublimada
que é ele a avançar-me
pelo corpo

a porta giratória
que me troca
pelo homem e, a este,

o fértil trajo
que lhe cria mais seios
pelo corpo.


Anos Quarenta, os Meus

De eléctrico andava a correr meio mundo
subia a colina ao castelo-fantasma
onde um pavao alto me aflorava muito
em sonhos à noite. E sofria de asma

alma e ar reféns dentro do pulmao
( como um chimpanzé que à boca da jaula
respirava ainda pela estendida mao ).
Salazar tres vezes, no eco da aula.

As verdiças tranças prontas a espigar
escondiam na auréola os mais duros ganchos.
E o meu coito quando jogava a apanhar
era nesse tronco do jardim dos anjos

que hoje inda esbraceja numa árvore passiva.
Níqueis e organdis, espelhos e torpedos
acabou a guerra meu pai grita "Viva".
Deflagram no rio golfinhos brinquedos.

Já bate no cais das colunas uma
onda ultramarina onde singra um barco
pra cacilhas e, no céu que ressuma
névoas águas mil, um fictício arco-
-irís como é, no seu cor-a-cor,
uma dor que ao pé doutra se indefine.
No cinema lis luz o projector
e o FIM através do tempo retine.



Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

VICENTE MUÑOZ ÁLVAREZ


VICENTE MUÑOZ ÁLVAREZ (León, 27-3-1966). Es licenciado en derecho, pero su espíritu inquieto y su mente creativa le ha llevado a decantarse por batallar con la literatura, donde se halla más cómodo y seguro con sus propias criaturas de ficción que con los seres de carne y hueso. Es miembro del equipo de Producciones Vinalia Trippers, editorial leonesa de narrativa breve y poesía. Colabora en diversos medios editoriales con artículos, entrevistas o ensayos literarios. Además de cuentista es también poeta, y en sus cuentos es fácil advertir una cierta estructura poética, en el sentido de autonomía del texto y equilibrio me medios expresivos, así como ciertas resonancias líricas de fondo. Ha obtenido varios galardones en certámenes literarios, participa activamente en conferencias y lecturas poéticas, y colabora en diversos fanzines y revistas de literatura nacionales.

Libros publicados:

Monstruos y Prodigios (Premio Letras jóvenes Castilla y León, Valladolid, 1996), El Pueblo Oscuro (Las Palabras del Pararrayos, Barcelona, 1996), Perro de la Lluvia (Iralka Editorial, Irún, 1997), El Tiempo de los Asesinos (Iralka Editorial, Irún, 1997), Buscando la luz (Vinalia Bolsillo, León, 1998), Ciertas fobias (Neurótica Books, Badalona, 1999), Canciones de la Gran Deriva (Ateneo Obrero de Gijón, 1999), 38 Poemash (Vinalia Bolsillo, León 2000).





















PRIVADO


No desistas todavía
no te rindas
no abandones
no te dejes vencer

cuando te ofendan
grita fuerte
cuando te golpeen
no apagues la luz

no alimentes con tu sangre
el furor de los necios
hazles frente
escúpeles aráñales esquivales

que tu cuerpo sea
tu esclusivo templo
tu hacienda privada
tu rincón de luz

protégelo defiéndelo
dale placer
expulsa al invasor
de su dominio

no escuches a los cuerdos
sé tu propio rey
sigue tu propio camino
busca sólo en tu interior.

Será,
frente al poder,
tu más grande victoria.

ALFONSO CISNEROS COX

Es poeta y director de la revista de arte y cultura Lienzo de la Universidad de Lima.

TRES POEMAS










La ensenada


Por la ensenada recorría las enigmáticas orillas de La Quipa.
Las olas resonaban una tras otra sorteando malaguas, boyas, yuyos,
dejando impresas mis huellas sobre la arena.
El aroma del mar despertaba las horas
y el sol laceraba la piel junto a los peñascos
y arrecifes, hacia el reposo de la luz.
Abandonadas, las dunas aparecían tendidas ante la quietud,
dibujando distintas sombras
que el viento evocaba junto al arrebatador cielo de la tarde
y fugaces remolinos en la profundidad de la piedra.
Mágicas, aquellas noches estrelladas aún resuenan
en mi conciencia iluminada por centelleantes lamparines.
Cada verano nos alumbraba un nuevo amor: eternas promesas
que sólo conserva la ensenada
y la tinta diluyéndose lentamente sobre el papel.


Sobre la tarde
medusas en el agua:
las olas pasan.











A lo largo de la playa


La noche encendía estrellas a lo largo de la playa.
Contaba resplandecientes luceros
que imaginaba como el tesoro de un mago construyendo
imágenes desde el recreo de su excitada mente.
La arena era blanca y más blanca bajo el reflejo de los ojos,
escuchando en transparentes horas el sonido de las olas.
Una, tres, cinco, siete, quince, iba sumando
hasta que la mirada dejaba de brillar
y volvían a esconderse los astros luminosos.
Así, sumergido en noches oscuras y tenebrosas,
inventé el universo,
entre cánticos de agua y lejanos pensamientos,
como quien va lavando sus heridas.


Noche estrellada.
Al amanecer
conchas blancas.



Nido de aves


Un torbellino de plata sacudió la arena abandonada.
Como aroma de flores giraban pequeñísimas gaviotas
abrazadas al arco iris de luz cambiante.
Caminaba sin rumbo entre dunas interminables.
Un viento minúsculo trazaba sus propias huellas
y las aves anidaban sus vientres en perfecto reposo.
La danza peregrina del mar me seducía entre escombros
como la paz que al contemplarla
es deseo de aquel que no la tiene.


Desnuda la orilla.
Las gaviotas deambulan
peñas ocultas.


El Instituto Cultural Rumano
y
adamaRamada ediciones
Tienen el agrado de invitarle a la presentación del libro
Regreso del exilio de Denisa Comănescu

con la participación de:
Mario Merlino- Presidente ACEtt
Joaquín Garrigós- traductor
C. Dolores Escudero-Directora adamaRamada ediciones
Horia Barna- Director Instituto Cultural Rumano
Denisa Comănescu- escritora
Que tendrá lugar en Madrid el jueves 24 de Abril a las 19:30 en el
Centro de Arte Moderno
C/Gobernador, 25 esquina San Pedro
adamaRamada ediciones
http://www.adamaramada.org/

Sábado, 12 de Abril de 2008

LOUISE LABÉ

























Louise Labé, poetisa francesa (dita La Belle Cordière ou A Bela Cordoeira), (1522-1566)


Hoje, dia 12/04/2008, no Caderno Idéias, do Jornal do Brasil, há um ótimo artigo sobre Louise Labé, poeta francesa que viveu entre 1522 e 1566. O texto, do sempre lúcido e instigante Felipe Fortuna, recomendo a todos, afinal Louise Labé não é tão conhecida assim entre nós. Poeta renascentista, a sua obra é dotada de um intenso lirismo amoroso, e suas idéias e atitudes colocam-na como uma das mais ilustres precursoras do feminismo.
Toda a obra de Louise Labé (3 elegias, 24 sonetos e a “Disputa de Loucura e de Amor”) foi traduzida para o português por Felipe Fortuna e publicada em 1995 pela Editora Siciliano.
Como não possuo esse livro, resolvi publicar dois sonetos traduzidos para a língua portuguesa por Sérgio Duarte (retirados do livro Três mulheres apaixonadas, Companhia das Letras, 1999) e um, por Felipe Fortuna (tradução encontrada no site do autor: http://www.felipefortuna.com/).


SONET I

Si jamais il y eut plus clairvoyant qu'Ulysse,

Il n'aurait jamais pu prévoir que ce visage,

Orné de tant de grâce et si digne d'hommage,

Devienne l'instrument de mon affreux supplice.


Cependant ces beaux yeux, Amour, ont su ouvrir

Dans mon coeur innocent une telle blessure

-Dans ce coeur où tu prends chaleur et nourriture

-Que tu es bien le seul à pouvoir m'en guérir.


Cruel destin ! Je suis victime d'un Scorpion,

Et je ne puis attendre un remède au poison

Que du même animal qui m'a empoisonnée !


Je t'en supplie, Amour, cesse de me tourmenter !

Mais n'éteins pas en moi mon plus précieux désir,

Sinon il me faudra fatalement mourir.


SONETO I

Traducão de Sergio Duarte

Nem heróis como Ulisses e outros mais

Por mais sagazes e por mais divinos

Cheios de graça e louros peregrinos

Desafios provaram aos meus iguais.


Brilho desses olhos tão sensuais

Tanto inflamou meus sonhos femininos

Que para meus ardores repentinos

Não há remédio, se vós não m'o dais.


Ó dura sorte, que me faz igual

A quem pede socorro ao escorpião

Contra o veneno do mesmo animal.


Só peço que não me venha a fenecer

Esse desejo no meu coração

Porque, sem ele, é bem melhor morrer.


SONET II


Ô beaux yeux bruns, ô regards détournés,

Ô chauds soupirs, ô larmes épandues,

Ô noires nuits vainement attendues,

Ô jours luisants vainement retournée !


Ô tristes plaints, ô désirs obstiné,

Ô temps perdu, ô peines dépendues,

Ô milles morts en mille rets tendues,

Ô pires maux contre moi destiné !


Ô ris, ô front, cheveux bras mains et doigts !

Ô luth plaintif, viole, archet et voix !

Tant de flambeaux pour ardre une femelle !


De toi me plains, que tant de feux portant,

En tant d'endroits d'iceux mon coeur tâtant,

N'en ai sur toi volé quelque étincelle.


SONETO II

Tradução de Sérgio Duarte


Belos olhos que fingem não me ver

Mornos suspiros, lágrimas jorradas

Tantas noite em vão desperdiçadas

Tantos dias que em vão vi renascer;


Queixas febris, vontades obstinadas

Tempo perdido, penas sem dizer,

Mil mortes me aguardando em mil ciladas

Que o destino me armou por me perder.


Risos, fronte, cabelos, mãos e dedos

Viola, alaúde, voz que diz segredos

À fêmea em cujo peito a chama nasce!


E quanto mais me queima, mas lamento

Que desse fogo que arde tão violento

Nem uma só fagulha te alcançasse.


SONET V


Clere Venus, qui erres par les

Cieus Entens ma voix qui en pleins chantera,

Tant que ta face au haut du Ciel luira,

Son long travail et souci ennueieus.


Mon oeil veillant s'attendrira bien mieus,

Et plus de pleurs te voyant gettera.

Mieus mon lit mol de larmes baignera,

De ses travaux voyant témoins tes yeus.


Donq des humains sont les lassez esprits

De dous repos et de sommeil espris.

J'endure mal tant que le Soleil luit:


Et quand je suis quasi toute cassee,

Et que me suis mise en mon lit lassee

Crier me faut mon mal toute la nuit


SONETO V

Tradução de Felipe Fortuna


Vênus tão clara, pelo firmamento,

Escuta a voz que em queixas cantará,

Enquanto o rosto teu cintilará,

O seu cansaço e custoso tormento.


Meu olho vela em vigília a contento,

E ao teu ver muito pranto verterá,

Sobre meu leito mole, e o banhará,

Disso teus olhos têm conhecimento.


Pois são luminosas as almas cansadas

Em seu repouso e sono apaixonadas.

Já não suporto o Sol e seu fulgor:


E quando estou quase toda desfeita.

E que meu corpo no leito se deita,

A noite toda eu choro a minha dor.

Sexta-feira, 11 de Abril de 2008

CESARIO VERDE II (1855-1886)




















A cidade vive na poesia de Cesário Verde. Sem ele, é difícil pensar o Fernando Pessoa que se assinava Álvaro Campos. Plástico-descritiva, a cidade se move, vive, respira, numa dicção que desarma o artificialismo da linguagem pretensamente poética.
Já publiquei anteriormente o poema Deslumbramentos, que considero um luxo, uma delícia a cena em que a mulher desfila provocação, pisando com malícia e veneno o encantamento e a impotência do eu lírico.
Agora envio mais dois aos cada vez mais numerosos leitores deste blog. No primeiro – Curiosidades – observo um prosaísmo antipoético que terá, posteriormente, um efeito muito fecundo em Augusto dos Anjos. O segundo − Num bairro moderno − constrói seu ritmo e colorido com elementos do cotidiano normalmente desprezados por outros autores. Ao criar um corpo humano imaginário, construído com frutas, legumes e hortaliças, à semelhança do que fizera, embora com mais estranheza, Arcimboldo na pintura, Cesário Verde renova temas e incorpora ao poema as falas das ruas de Lisboa. Além disso, o forte sentimento do concreto, a metalinguagem, a ironia cortante, a perda da aura da figura poeta e o intenso apelo visual conferem aos poemas uma acentuada modernidade.


























CONTRARIEDADES

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar; morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras exceções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalista
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, francamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, ou rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!























NUM BAIRRO MODERNO

A Manuel Ribeiro

Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estancam-se as nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.

Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama dos papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.

Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas dumas apoplexia.

E rota, pequenina, azafamada
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho de horta aglomerada,
Pousara, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a:
Pôs-se de pé: ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ela se curva, esguedelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:
“Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais.” E muito descansado,
Atira um cobre ignóbil, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.

Subitamente — que visão de artista! —
Se eu transformasse os simples vegetais,
A luz do sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!

Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma ou outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando.

E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, aos bocados..
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injetados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos — ossos nus, da cor do leite,
E os cachos de uvas — os rosários de olhos..

Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como dalguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que me lembrou um ventre.

E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja, vívida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

O sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me prazenteira:
“Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!”...

Eu acerquei-me dela, sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantamos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

“Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!”
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dum excesso de virtude
Ou duma digestão desconhecida.

E enquanto sigo para o lado oposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre afasta-se, ao calor de Agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
Duma janela azul; e, com o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrelas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.

Chegam do gigo emanações sadias,
Oiço um canário — que infantil chilrada! —
Lidam ménages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.

E pitoresca e audaz na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E como as grossas pernas dum gigante,
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras carneiras.

Lisboa, Verão de 1877.

FONTE: Cesário Verde. O livro de Cesário Verde.Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília, INL, 1976.

BOCAGE
























MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE – 1765-1805

Bocage é daqueles poetas cuja biografia fascinante chega a prejudicar a apreciação aprofundada de seus versos, uma vez que concentra a atenção do leitor nos aspectos mais picantes e rocambolescos da tumultuada existência do bardo lusitano e, conseqüentemente, induz a uma leitura dos textos filtrada(infiltrada) pelo anedótico, pelo pitoresco, pelo registro puramente biográfico.
O árcade Elmano Sadino criou grandes inimizades no meio literário, principalmente com os padres Domingos Caldas e José Agostinho de Macedo, esta a mais intensa. Denunciado por seus inúmeros adversários ao Tribunal do Santo Ofício, Bocage foi considerado “HERÉTICO PERIGOSO E DISSOLUTO”. Tentou fugir das garras da Inquisição, contudo foi encarcerado em 1797. Graças à intervenção de amigos relacionados à nobreza., obteve a clemência da Inquisição
Com a saúde abalada pela entrega ao álcool e ao tabagismo, um aneurisma levou-o à morte em 1805.
O nome do poeta sempre foi associado, entre nós, a composições chulas, à devassidão e à licenciosidade. Essa ainda é a imagem de Bocage no imaginário popular brasileiro. Isso é uma imensa injustiça, pois Bocage é considerado um dos maiores sonetistas da língua portuguesa (ou de qualquer outra língua). Basta ler os três sonetos selecionados para comprovar o alto vôo dessa poesia magnífica.


TRÊS SONETOS

I

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento
E somente no altar amando os frades;

Eis Bocage, em que luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.

II

Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa... Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade.

III

Meu ser evaporei na vida insana
Do tropel de paixões, que me arrrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.

FONTE: Os três sonetos foram retirados do livro: Sonetos de Bocage. Apresentação, seleção e notas de Fernando Mendes de Almeida. Ilustrações de Aldemir Martins. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.

Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

Ar, margens, dons – tríptico pós-apocalíptico

Poema de José Antônio Cavalcanti

Ilustrações de Rony Bellinho




α


Mãos desirmanadas entre infelizes
olhares, entre substâncias e acidentes
aristotélicos, bebuns em bandos;
dizer de vozes a se cortar com navalhas e sílabas,
dizer de pedintes penitentes,
dizer de olhos injetados de paraísos.

Poetas e párias desrimam escrita e assepsia
voam contra vanguardas e ventos
nos sambas suntuosos de velhos malandros,
agora fantasmas varrendo silêncio.

Nem de Antíloco nem de Madame Satã
nem de heraclitiano ou homérico dizer
o devir entre mesas e cadeiras,
no chão, a caminho do ralo.

Sombras assentadas em acetinados
panos poentos
(por baixo dos quais
insones defuntos anacreônticos
libam nostálgico sabor de boêmia)
desfilam indiferença olímpica;
hedonismo e catatonia,
o código de barras da classe média
em sua forma líquida.

























β

Surgem os seres-do-fim-dos-tempos;
saem de tocas, antros, esconderijos,
de covas, talvez, ou de cisternas
clandestinas, jardins demoníacos,
fáb
      ricas de misérias.

A noite é víscera exposta,
intestinos nas calçadas,
misógeno animal sangrento
a exibir, alucinado e repetitivo,
seus mais sujos dentros,
a mecânica macabra da vida
- gangrena guardada em rugas.

























Ω


As ruas então em festa:
códigos, circuitos, câmaras de vigilância,
verbiequívocovisuais controles anêmicos
acadêmicos políticos policiais
- o mundo oficial -
alimentam as hienas noturnas;
o capital contabiliza todos os excessos,
a mais-valia compra corpos e felicidade
plastificada, no cartão ou no paraíso.


A escória
- resíduo do humano liquefeito -
escorre de guetos, górgonas e esgotos,
invisível licor a invadir becos e portas secretas
contido apenas por gps e algemas.


Negra beleza bailarina nas calçadas,
grafita de vermelho muros e asfalto
antes da travessia irrevogável.


Invisíveis da mais espessa invisibilidade,
figuras goyescas lançam rajadas e granadas
contra as estrelas.

Terça-feira, 1 de Abril de 2008

SIETE POETAS MEXICANOS - VI

León Plascencia Mol (Mexico, 1968)

Poeta y editor. Es director de filodecaballos, editores. Fue director de la revista Parque Nandino. Colaborador de periódicos y revistas de México, Brasil, España, Estados Unidos, Colombia, Perú y Nicaragua. Becario del Fonca en dos periodos y de la residencia artística otorgada por el Ministerio de Cultura colombiano y el Fonca. Entre sus premios se encuentran el Nacional de Literatura Gilberto Owen 2005 y el Álvaro Mutis (México-Colombia) 1996. Entre sus libros están Enjambres, F.C.E, 1998; El árbol la orilla, Canadá-México, Ecrit des forges-filodecaballos, editores, 2003, Apuntes de un anatomista de ciudades, 2006 y Zoom, Aldus 2006. Realizó con Rocío Cerón y Julián Herbert la antología El decir y el vértigo. Panorama de poesía Hispanoamérica 1965-1979, filodecaballos, editores, 2005. Está traducido al francés y portugués.




La cordillera


Hay mis ojos una extenuación,

una muralla de árboles,

esta calle de árboles rojos

que se queman por días y días en un lento incendio.


Ahora, frente a la montaña,

los pasos descienden.


Nubes

entre el frío y la lluvia.

Lo pensaste así:


"No es el duro fulgor

del mediodía, la detenida

promesa, el cansancio de dos,

el humo y la violencia

lo que te sostiene".



Quisiera que esto fuera un paisaje

de ojos heridos

por el trazo. Pero no es así.

Hay un tumulto de voces

que deberían estar ausentes.


La boca arde y me detengo

en las arenas de Dios,

en las alas de la gaviota de otro mundo.

Pero estoy aquí, observando

la Sabana y el viento,

la calle que se aleja

y el paso de las adolescentes extraviadas.


"Esta tarde pisamos

un pavimento oscuro bajo el cielo

con nubes. Es igual

decirlo de una forma o de otra; todo

lo que se piensa o se imagina, todo

es ilusorio"



En la soledad de este día, en los pasos de este día que son "pasos evaporados",

en el

amor que se consume, en la fisura de los días que sólo fueron días ilusorios,

todo

naufraga,

quizá podría decir:

"el día fue un ciruelo".

Pero esta calle de árboles rojos

ya se aleja.

No queda su imagen

frente al día, sólo se evapora.




Trozos de madera

por donde la lluvia irrumpe

con fuerza. Es un instante quizá

este fuelle repentino, venido

de improviso. El mundo

de afuera se fractura en líneas

horizontales. Las gotas golpean

en el pavimento. Quisiera decirlo:

la montaña queda a mis espaldas

perdida entre las nubes negras. Podría

extender mi brazo para tocarla

pero una muralla de agua me detiene.




Cantan

breves pájaros en este mediodía

y miro la ciudad inmóvil,

las tejas desleídas, el rojo ausente

de una mañana,

la claridad del cielo

otro cielo.


Aquí

veo el transcurso del ave

que va y viene,

la calle curva,

las ventanas cerradas y las nubes

bajas.


No sé de dónde viene

ese murmullo que me rodea.

Son voces fragmentadas, ruidos

del alcaraván y retazos de este mediodía

instalado en el gris.


¿Sabes de dónde viene esta fragilidad?


Las palomas juegan entre los techos,

se deslizan ligeras y van hacia el oeste.

Atrás de nosotros están los eucaliptos

y la cordillera. Un río minúsculo

que baja y se pierde, unos pasos,

un rumor de cosas ciertas.



Miro

tu rostro entre los árboles del jardín.

Es esa otra ciudad y otro el cielo

de un azul más próximo.



Entre una y otra gota, la ciudad se oculta

brevemente y renace.

Altos edificios

en donde el ladrillo sobresale.

Quisiera verlo así:

La mano traza

una circunferencia en el aire

y detiene

un puñado de imágenes.


No es el frío, es el amarillo

que sale de sus huesos lo que daña.


Nunca te lo dije:

El color del corazón

es una mañana frente a las costas del Pacífico.”

Aunque quizá lo sepas

porque lo hemos hablado tantas veces.

El auto avanza entre las curvas

y es blanco el suceso.

Buscamos una playa.

Ahora lo veo tan claro. En realidad

lo que buscábamos era al otro.

¿Lo recuerdas?


Ardía tan sólo la costumbre

de estar así tan juntos, en la inmanencia

de dos, interminable el término

de la ternura asida al limo

de los cuerpos.


FONTE: Revista Él Cálamo - México (Veja link em Outras Margens)

SIETE POETAS MEXICANOS - V

Fernando Carrera (Guadalajara,1983)

Mención honorífica en el tercer Certamen Internacional de poesía y narrativa breve, Buenos Aires, Arg. 2003, siendo sus textos publicados en la antología “Mundo Poético” de los mejores trabajos del certamen.
Mención honorífica en el Premio Nal. de Poesía Efraín Huerta 2006.
Ganador del certamen de poesía “Letrario” 2006 organizado por la Universidad de Guadalajara, México.
Director del suplemento literario “Palabral” de la Universidad del Valle de Atemajac (Univa). Publicado en la antología de la poesía jalisciense contemporánea “Poesía viva de Jalisco” que editó el CONACULTA y la Secretaría de Cultura del Estado de Jalisco, México. Publica en diversos medios impresos y electrónicos. Ha sido invitado a dar lecturas en diversos encuentros de escritores, foros culturales y académicos del país.
Publica Expresión de Fuego en noviembro de 2007 por Mantis Editores.

























Expresión de fuego

perderé la sabiduría de sus sabios,
y eclipsaré el entendimiento de sus entendidos

Isaías 29:14

Principio

En el paraíso de lo innombrado,

antes que la voluntad de la carne

fijara vocablos

en la materia sorprendida


Ya era la luz

el pensamiento intacto de toda esencia:

***

Amanece

El tiempo se deslíe de sí mismo

más allá de los objetos


Luz fría

El alba está llena de peces,

la red del pensamiento

está llena de trinos,

algunos escapan por el aire


El bosque:

árboles de instantes en el verde

y de pronto el hombre

que recorre este paisaje


:elabora su resumen de huellas,

escribe su memoria de espumas en la nada


***


salta el día más allá de la memoria

el azul piensa las ascuas del instante

todo es el alma de un sólo reflejo


(las nubes reflejan un pensamiento que viaja)


Los pájaros estallan en sílabas que cantan,

el lago reposa en la quietud del movimiento

hasta que la distancia se funde con los ojos


- transparencia, la tarde es ya milenios de tardes -

Miremos hasta ser hierba

Viento del paisaje


***


De soslayo miro que el sol reverdece

encuentra nidos en los ojos de las moscas,

transmuta la piel de los objetos

en luz de su propio pensamiento


Domina

Se infiltra en la memoria

hasta nublarla de tan amarillo

- Se

evaporan

las

imágenes
en fatuas claridades –


Maduran las frutas del calor

sobre la espalda

indefensa ante el incendio permanente


***


El viento como un rumor de cuerdas

bambolea en movimientos escalares

arpegios

que melodizan nostalgias

hasta volverse punta del gris

en el matiz sin precedentes que es la tarde


(alfiler que junta los dos rostros del día)


Un nombre con cuerpo de mujer

se estira hasta ser ramaje en la arboleda

olor de la primera lluvia

Ola

que insistente segura de sí misma

penetra los ojos de una sequía añeja


: paisaje que deja letras

como testimonio de un mar inexistente

***


raspa la voz ante la insinuación

de la palabra por el aire oscuro,

el espacio tiempo de la garganta


Palpa la noche su tentación

Siglos

desiertos de silencio claro

vueltos dunas en su propio oleaje Luz

acústica, temblores luminosos

dentro del manantial del pensamiento


Lenguaje / cuerpo de mi cuerpo

Flama

crepitante que se cuestiona

a sí misma para no ser minuto

medida absurda del fluir del tiempo


Para inventarnos a nosotros mismos

verdad

es que inventamos el lenguaje

Viento

rico en galaxias y raíces:


universo que nombra al universo

***


Estanque con Mujer

Escribo tu nombre como quien traza coordenadas de un lugar inexistente, de otra manera omnipresente: cuelgan los fonemas de una imagen y la imagen del tacto: memoria de las manos, aprendizaje de peces en el tiempo de la carne: universo destinado invariablemente a consumirse

: contracción de la memoria al paso del río transparente: se abre la caja china hasta alcanzar la más infinita, la imposible: se funde la distancia entre las células del pensamiento, sus moléculas se mueven más lentas, se aletargan: la memoria es un caldo espeso, cada vez más homogéneo, cada vez más indiferente

- todas las piedras ya reposan en el fondo –

: todo lo que es baila en el mismo (víbora víbora de la) mar: escribo tu nombre que cada vez es más letras / polvo que presume ser palabra en la punta de la lengua, luz que salta y se despeña

El niño se asoma entre la arboleda: llueve, el cielo se cae del cielo: todo se rinde ante la grave idea del que piensa este paisaje, todo se sabe el efecto de una misma causa, las ideas se licuan en la Idea, todo nada todo: el anciano se asoma entre la arboleda, sólo se distingue un cuerpo de mujer en el espejo.


***


a 150 años de Hojas de hierba

Soy un hombre consumido por el presente

Rubem Fonseca

Sed de espacios abiertos. Ir por la carretera y de pronto ser maguey, azul erecto hacia el azul mayor del cielo y luego blanco volverse nube que piensa al que la piensa, al que la contempla desde el automóvil que traza el camino al recorrerlo: creación para la recreación del movimiento. Saltar de la ventana y sin ecuaciones ni milenios de historia por delante, convertirse en ese árbol que solitario existe en el cuerpo de aquella montaña, plena y transparente en la boca de la deshora. Ser palabra del tiempo, visión de un pensamiento hecho a imagen y semejanza del maizal: palabral del oro para la boca hambrienta, sol fragmentado hecho estacas o flechas: dedos para el ojo ávido.

Ser estar de lleno en el vacío de lo que imaginamos ser maguey, azul concretado en el movimiento, en el camino por trazarse del otro, ese otro que es y que nos mira.

Hoy quiero ser pasto, hoja de hierba: elemento innumerable y simple, como lo son los astros cuando se miran desde lejos, sin artificios ni ciencia que los comprenda. Nadar en un enjambre de luz, comer claridades en una mesa sencilla. Proclamarme a mí mismo en la punta de una peña sin mapa. Danzar el segundo que todo lo retrata y consume:


Debo callar / callar profundamente

abrir todas las compuertas del silencio

hasta que éste inunde el aire los ojos

tanta quietud

que la hoguera del nacimiento

crepite en el oído

a pesar de los años de la luz y la distancia


Debo escuchar
ser confesionario de mí mismo

para que los oráculos nos pertenezcan

Por fin la letra hable por nosotros


Consuma el centro del mundo

la voz / caiga la voz

en el abismo del instante hasta perderse


Cae de la mañana

la hora en que la nostalgia abre su canilla

despliega sus horizontes hasta exigir

leal fauno que baje el cuello y paste,

beba el charco con la lengua

: Reciba de la tierra la revelación oscura


Puedo hablar del fuego y referirme al nombre

a lo efímero de la palabra hecha carne


Puedo hablar de la flama (de su expresión infinita)

y explicar la eternidad en las letras

que forman el Nombre


o simplemente puedo hablar de un árbol

tocar su plegaria vertical

el movimiento verde en su presencia

y de pronto estalle un pájaro


puedo jugar al trompo y descifrar el universo

salir por las mañanas a correr

pensando en ver aunque sea de reojo

un milagro


Hay algo que espera / yo no espero

con metáforas de juguete me divierto

unque me digan que me ponga a trabajar / que crezca


la mañana: es un café endulzado con augurios

El café con su exquisito cuerpo amargo

es una sola incertidumbre exacta


: la urdimbre de una sola vela blanca

que me ha de llevar a los confines del verso:


***


He llegado a los confines del verso


bajo la vocación azul del día

al lóbrego canto se oficia en la luz

la palabra es un fotón desprendido

caído

desde el espacio tiempo sin recuerdos


Altura universal / solo el presente

existe sólo

cárdena paloma

en la cual nos hemos embarcado

yo y la muerte única palabra

que no conozco / la sola realidad

de la deshora del ninguno tiempo

- hervidero de significaciones–

Es en la playa blanca del lenguaje

donde el lento caracol se hace albatros

***


Principio de Incertidumbre

I

Todo es incertidumbre

A nuestro laberinto

le añadimos muros

y cuando de pronto la pared se transparenta

nos sabemos minotauros

y esperamos

esperamos


II

Todo se mueve

el movimiento es la única certeza

¿Cuántos alfabetos perdidos

en este viaje sin regreso?

¿De cuánta oscuridad se vale este vértigo?


a nuestro ojo sólo llega el pasado

pero qué importa

si nos cubre el azul

respiramos el verde

el amarillo omnipresente nos piensa


El color se mueve

el abanico de la luz se abre

y llena de belleza nuestra ignorancia


(Al tiempo sólo le miramos la nuca)


III

Si te toco

si atrapo tu oscuridad primigenia

si palpo el misterio insondable

de tu cuerpo,

el presente intacto de tu presencia


Si cierro los ojos

si renuncio a la ceguera luminosa de ver,

si me entrego al instinto ancestral

del tacto / a la siembra de ruinas

como soles transparentes / lecturas en tu piel


Si te olvido

si destruyo fatalmente tu imagen

si te inserto en cada poro del presente

(plena, total)

y te sé de pronto faro

en una isla incierta, huérfana de mapas


si cansado el poema se calla

y descubres mis manos recorriéndote

igual que la niebla en la montaña sorprendida

Si te sabes de pronto

Árbol:


no cuestiones más el azul profundo

ni recuerdes tu antiguo nombre

No existen certezas


Cae la hora de huir

partamos a Troya

Helena

***


Mutación

a Oscar de Pablo

Dualidad


En el centro de la flama

palabra y caricia

forman un sólo silencio


En el centro del silencio

la palabra

es una caricia que arde


En el centro del concepto

caracol y pájaro

forman un sólo movimiento


En el centro del movimiento

el pájaro es concepto

hecho caracol en el instante


En el centro

blanco y negro funden

una sola transparencia

***


el aire el aire elviento eeeel aireeeeee vientovientoviento vien toooo eeel


Aire juegan las palabras de lo transparente a formar las planicies del tacto: de lo que todo el tiempo te toca: de lo que en el tiempo forma otra piel más tangible y más de acá Aire que renueva la fuga de la sangre y en el pulmón estira las ramificaciones de un árbol que nos vela desde el principio del mundo

Esta palabra se adelgaza aire: se estira / subebaja / hasta formar nubes que remolinan espirales en las hojas: espiran en el pensamiento formas hasta ser una sensación de viaje e invasión en la camisa – en la arruga inesperada canta el movimiento de lo que ya no pertenece: de lo que ya nos pertenece
Una mujer danza en esta piel a la cual no se puede nombrar de nuevo, abstracta: somos el tiempo y este es el aliento que recoge los gestos transparentes del naufragio: somos lo que huye lo que en las manos era mancha detenida en la niebla del ojo que busca lo que en el viento (este viaje invisible) golpea en oleajes insistentes / marea única que sufre del suspiro, la asfixia contenida de los siglos que nunca nos supieron hasta ahora

Ahora nos saben, en la hora en que el instante se expande el viento te recorre y canta Sin palabras esta voz “no necesito del agonizante lenguaje para cantar” dice el aire sin decir nada Callar siente la mano que ahora te recorre y calla encallan en sí mismas estas letras que no pueden sostenerse más

A dónde van a dónde las palabras pasan de pronto la hojarasca de un minuto que danza volante loco con los brazos en alto hacia la nada que nada en el espacio abierto que abre y llama la flama de esta hoguera transparente que respiro lo que todo el tiempo te toca al fin te toca comprender la piel oleaje que insistente escapa en el moverse en el fluirpermanecelaire
A dónde van a dónde el viento y el vocablo que lo nombra esa palabra: letras en verdad polvo que ya no puede sostenerse más
El árbol frente a mí se inclina levemente y danza levemente mi pensamiento se inclina (y danza) al tocarme el aire habla de sí mismo
Paráfrasis lingüística sobre el tema para piano “The wind” interpretado por Keith Jarrett

***

Metáfora

No es la magia menor de la palabra

Es una concha que emerge

del mar que se percibe


Caracola desenterrada

que se encuentra

en la playa sin nombre


Expresión de tierra

añoranza de la mar

en su contemplación perfecta


***


Se abre la Idea

entro en el agua de lo intangible

el girasol del pensamiento baila


El movimiento tiende puentes transparentes

entre los trazos

que dibuja el día

garabato multicolor

en el espacio abierto

(virgen)


Flor y canto de la energía


de la prehistoria de la voz

escapa un pájaro

fruto que madura y cae


Se abre la Idea

***

Explorar el Silencio


En este punto de tiempo

donde el día se tuerce

abro la llama transparente del silencio,

un aroma de estrellas minerales

revela el paso

de los días exiliados


En este centro de piedra

(llanura esencial del movimiento)

el hombre desgranado

es la herrumbre que destila


la

bas


La hora se funde en universos

que aparentan ser / metales

en el óxido de la locura


: siglos de noche abierta

en la luna deshojada de los ojos

***
Fuego Interno


De fuera adentro

dentro que se afuera

emerge por los ojos

nos traiciona


Inviolable potestad de la luz

de su sonido inhóspito

: franqueza voraz, hábil

entre oscuridades anegadas


En mi pecho se han anidado

nebulosas,

un relámpago quiebra esta noche interna

surgen de mi boca las raíces del espanto

se formulan oraciones rotas


Llevo dentro de mí el testamento

la semilla

caballos indomables surgen del abismo

rojos

negros

azules

entre la sangre se entrelazan

nos llenan de huellas estelares

la mirada

hacen del libre albedrío

una fábula ajena


Esta es la luz que nos combate

nos desampara,

cazadora de grietas

entre la telaraña de los cuerpos

Imagen de un instante infinito

que se debate entre el afuera y el adentro


Fuera

piedra que cifra todos su enigmas

Dentro

enigma convertido en piedra palpitante


Esta es la luz que nos traiciona

: portadora del nombre que nos falta

***

Niebla.
Niebla.

Blanco. En el azul del tiempo una mancha blanca. No nieva, niebla en la montaña sorprendida, en tu cuerpo blanco el azul se estira, se mueve, en el rojo nieve. Niebla. Sopla la carne encendida, un mundo por tus poros sopla. Aire, quema la memoria, bajo el paso de las manos un recuerdo se incendia. El instante es aire, se desviste el tiempo entre las manos. Nieva, fuego blanco
Plenitud de la carne en la visión quieta, detenida en el ojo inquieto, ávido. No existes, eres más allá de lo existente, quemas, qué más: fuego, llama el espíritu, llama la cabellera, tu voz llama. Sin decir nada eres astro. Se consume la estrella en su propio deseo, nieve blanca o explosión Niebla densa
entre mis manos que te piensan. Pensamiento eres de lo que no piensa. Deseo, blanco pensar del rojo. Llama de voces milenarias, hoguera del espacio transparente.

***

El Guardián


Arriba, el ojo vigilante

ápice de luz

estrella única


Un poco más abajo

la tierra

: madrépora de escrituras

apenas comprendidas,

presencia que ata las presencias

a su gravedad inefable


arriba

en todas partes

abajo


: el Tiempo


FONTE: Revista Él Cálamo - México (Veja o link em Outras Margens)

Segunda-feira, 31 de Março de 2008

SIETE POETAS MEXICANOS - IV

Rafael Villegas (Tepic, México, 1981)

Licenciado en Historia y Diplomado en Cine por la Universidad de Guadalajara, donde actualmente estudia la Maestría en Historia de México. Autor de los libros de poemas Galería Prosaica presenta (2004), 100formas100 (2005) y Video Ergo Zoom (2006), así como del ensayo La virgen seducida (2006). Premio Ignacio Arriola de Guión Radiofónico (2004); Premio Nacional de Poesía Amado Nervo (2005); Premio de Ensayo Literario Agustín Yáñez (2005). www.rafaelvillegas.tk / rafaelvillegas.typepad.com
Estos textos son una selección del libro ganador del Premio Nacional de Poesía Amado Nervo 2005; editado en 2006 por CONACULTA, la Universidad Autónoma de Nayarit y el Gobierno del Estado de Nayarit.

















Video Ergo Zoom(selección)


Sentí que lo que escogía ver eratan revelador como tratar de expresaralgo a través de fotografiarme ami mismo o a un actor.Pensé en el paisaje como en unavisión externa de lo interno.Peter Campus,Before this momentSi te fijaras bien veríasque por todos lados,donde menos se sospecha, hay imágenes que copiantodos tus movimientos. Julio Cortázar, Rayuela

knizak / 70-71

cruz de mujer a la izquierda / la arena seca y mortuoria ha conocido las desgracias de la voz acelerada, la que no escucha, la del profeta / se ha partido un brazo de madera y la mujer más cercana se ha vuelto una prótesis / el crucificado clavará sus muñecas en las nalgas de la mujer boca abajo, tragatierra / la mujer lenguada leyó bien felatio mejicana: aceite sin sangre ni semen, aceite de un costado íntimo, desconocido para los ojos militares / mujer-cruz bajo el sol; cruz liviana de pies duros.


penone / 88

esto no es un tronco, más bien parece un tornillo, de esos que la madre naturaleza hace cuando está borracha / anoche, hoy, fue un día graduado con violencia alucinante / increíble de colores: verdes desobedientes, malcriados por la oscuridad / aquí huele a hojas secas muertas, vivas, muertas, pulmones dorados, muertos, dorados / un popote reta a newton: a que si sube / la tierra alcanza los labios, los aprieta, hace tierra-polvo / completo cae a través del popote, tobogación torcida, árbol atornillado / insisto, esto no es un tronco, más bien parece un tornillo.

doherty / 93

Si jo ara baixés?

–Mai no et sabria els ulls...

Joan Salvat-Papasseit

tienes miedo a ir muy rápido / tienes miedo de pasar junto a ella, de no verla despeinándole las ansias / ella roja, tú azul / coincidencias a la potencia más extraña / avanzar en el umbral, desear entrar, que entre / entiendo su proyección, la entiendo pues eres tú mismo hace días, hace apenas unas horas / alteridad vengativa: eres lo que la mujeragujerosmiel era, siempre lo fuiste, por eso escapabas / reconociste la oportunidad de la cacofonía, de hablar mientras hablaba, de negarla en las reuniones, de clavar los dedos en su ombligo como espadas huesudas, descarnadas, malbaratadas en rebaja de mueblerías bertha, el gallo, la generala, américa, ek(g)ar degas, salto del perdón, salto del olvido, salto de la música indolora / una rana te mira: sus ojos grandes, abiertos como l’alma. / el miedo nunca ha sido miedo, sabes y dudas / hay retrasos, “sin pausa ni prisa” / controlas con una vara, látigo para ampliarte, palabras incomprensibles (incomprendidas) / estás listo / el regreso queda abierto / estás listo / sin miedo esperan los ojos, los corazones rotos / eres nuevo, todos los días nuevo / lo nuevo, por ahora, es del color del pasto / ella es verde, mujerverdetriste / ¿podrías caer en sus ojos? / es posible coordi