terça-feira, 28 de agosto de 2012

W.H. Auden (1907-73)





















FUNERAL BLUES
 

Stop all the clocks, cut off the telephone,

Prevent the dog from barking with a juicy bone,

Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead

Scribbling on the sky the message 'He is Dead'.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,

My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,

Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.

April 1936


 
FUNERAL BLUES

Tradução de Nelson Ascher

 
Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,

escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto

viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —

guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Horácio



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Ode 3,30

Exegi monumentum aere perennius
regalique situ pyramidum altius,
quod non imber edax, non Aquilo impotens
possit diruere aut innumerabilis
annorum series et fuga temporum.
non omnis moriar multaque pars mei
vitabit Libitinam: usque ego postera
crescam laude recens. dum Capitolium
scandet cum tacita virgine pontifex,
dicar, qua violens obstrepit Aufidus
et qua pauper aquae Daunus agrestium
regnavit populorum, ex humili potens
princeps Aeolium carmen ad Italos
deduxisse modos. sume superbiam
quaesitam meritis et mihi Delphica
lauro cinge volens, Melpomene, comam.

Tradução de Haroldo de Campos

Mais perene que o bronze um monumento
ergui, mais alto e régio que as pirâmides,
nem o roer da chuva nem a fúria
de Áquilo o tocarão, tampouco o tempo
ou a série dos anos. Imortal
em grande parte, a morte só de um pouco
de mim se apossará. Que eu sempre novo,
acrescido em louvor, hei de crescer
enquanto ao Capitólio suba o Sumo
Sacerdote e a calada vestal. Aonde
violento o Áufido espadana, aonde
depauperado de água o Dauno agrestes
povos regeu, de humilde a poderoso
dirão que passei: príncipe, o primeiro
em dar o eólio canto ao modo itálico.
Assume os altos méritos, Melpómene:
cinge-me a fronte do laurel de Apolo.

Último brinde

 
 
 
 
 
 
 
 


Poema "Последний тост" (Último brinde), de Anna Akhmatova, escrito em 1934, no original e em tradução de Rubens Figueiredo.


Я пью за разоренный дом,
За злую жизнь мою,
За одиночество вдвоем,
И за тебя я пью,—

За ложь меня предавших губ,
За мертвый холод глаз,
За то, что мир жесток и груб,
За то, что Бог не спас.



Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz…

Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada veem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Mário Faustino



























Um soneto invertido, belíssimo, escrito pelo inesquecível Mário Faustino.

 
Carpe diem

 
Que faço deste dia, que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?

Ou colocá-lo em música, em palavra,

Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim

Tremenda noite deixa se ela ao leito

Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas já de sombras vejo que se cobre

Tão surdo ao sonho de ficar - tão nobre.
Já nele a luz da lua - a morte - mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)
 
 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Paul Celan

 






















PAUL PESSACH ANTSCHEL nasceu em 23 de Novembro de 1920, numa sociedade multilinguística, de variedade cultural acentuada. Este contacto pluralista do ponto de vista cultural será relevante para o desenvolvimento da sua carreira literária. Os pais eram judeus-alemães, pelo que a língua materna do Poeta era o alemão.
Deportados os progenitores para o campo de Michailovka, na Ucrânia, em Junho de 1942, o pai morre de tifo; a mãe morre meses mais tarde, presumivelmente executada. PAUL PESSACH ANTSCHEL passa algum tempo num campo de trabalho forçado em Tabaresti, na Valáquia, na Roménia; regressa posteriormente à sua terra natal, Czernowitz (Bucovina, na Roménia).
Em Abril de 1945, o escritor regressa definitivamente de Czernowitz para Bucareste; adoptando, após o termo da II Guerra Mundial, o nome de PAUL CELAN; desde 1948, ele passa, então, grande parte da vida, num exílio voluntário, na cidade de Paris.
A personalidade de PAUL CELAN é afectada profundamente pelos acontecimentos familiares e pessoais descritos. Passando a sofrer de depressão e de ataques recorrentes de paranoia, este facto terá contribuído para o suicídio de PAUL CELAN, em Abril de 1970, tendo-se atirado da ponte Mirabeau ao rio Sena. 

TODESFUGE

Schwarze Milch der Frühe wir trinken sie abends
wir trinken sie mittags und morgens wir trinken sie nachts
wir trinken und trinken
wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldness Haar Margarete
er schreibt es und tritt vor das Haus und es blitzen die Sterne er pfeit seine Rüden herbei
er pfeift seine Juden hervor läßt schaufeln ein Grab in der Erde
er befiehlt uns spielt auf nun zum Tanz
 
Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich morgens und mittags wir trinken dich abends
wir trinken und trinken
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar Margarete
Dein aschenes Haar Sulamith wir schlaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng
 
Er ruft stecht tiefer ins Erdreich ihr einen ihr andern singet und spielt
er greift nach dem Eisen im Gurt er schwingts seine Augen sind blau
stecht tiefer die Spaten ihr einen ihr andern spielt weiter zum Tanz auf
 
Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich mittags und morgens wir trinken dich abends
wir trinken und trinken
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Sulamith er spielt mit den Schlangen
 
Er ruft spielt süßer den Tod der Tod ist ein Meister aus Deutschland
er ruft streicht dunkler die Geigen dann steigt ihr als Rauch in die Luft
dann habt ihr ein Grab in den Wolken da liegt man nicht eng
 
Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich mittags der Tod ist ein Meister aus Deutschland
wir trinken dich abends und morgens wir trinken und trinken
der Tod ist ein Meister aus Deutschland sein Auge ist blau
er trifft dich mit bleierner Kugel er trifft dich genau
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete
er hetzt seine Rüden auf uns er schenkt uns ein Grab in der Luft
er spielt mit den Schlangen und träumet der Tod ist ein Meister aus Deutschland
dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Sulamith


FUGA DA MORTE (1)

Tradução de Maria do Sameiro Barroso e Ivo Miguel Barroso



Leite negro da madrugada bebemo-lo ao entardecer
bebemo-lo ao meio-dia e de manhã bebemo-lo à noite
bebemos e bebemos
cavamos um túmulo nos ares aí ninguém fica apertado (2)
Na casa vive um homem (3) que brinca com serpentes (4) e escreve
escreve quando anoitece para a Alemanha
os teus cabelos de oiro Margarida (5)
escreve e vem para a fora de casa e relampejam (6) as estrelas
assobia pelos seus cães de fila (7)
assobia pelos seus judeus (8) manda cavar um túmulo na terra
ordena-nos tocai agora para a dança (9)

Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te de manhã e ao meio-dia bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
Na casa vive um homem que brinca com serpentes e escreve
escreve quando anoitece para a Alemanha os teus cabelos de oiro Margarida
Os teus cabelos de cinza Sulamita cavamos um túmulo nos ares aí ninguém fica apertado
 
Ele grita penetrai mais fundo na terra cantai e tocai
agarra no ferro que traz à cintura balança-o os seus olhos são azuis
enterrai mais fundo as pás continuai a tocar e a dançar (10)
 
Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia e de manhã bebemos-te ao anoitecer
bebemos e bebemos
na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarida
os teus cabelos de cinza Sulamita ele brinca com serpentes
 
Ele grita tocai mais docemente a morte a morte é um mestre da Alemanha
Grita arrancai sons mais graves aos violinos depois subireis
em fumo no ar (11)
Tereis então um túmulo nas nuvens aí ninguém fica apertado
 
Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia a morte é um mestre da Alemanha
bebemos-te ao anoitecer e de manhã bebemos e bebemos
a morte é um mestre da Alemanha o seu olhar é azul
atinge-te com uma bala de chumbo acerta-te em cheio
na casa vive um homem vive os teus cabelos de oiro Margarida
açula contra nós os seus cães de fila oferece-nos um túmulo no ar
brinca com serpentes e sonha – (12) a morte é um mestre da Alemanha
os teus cabelos de oiro Margarida
os teus cabelos de cinza Sulamita.


NOTAS

1) O genitivo de Todesfuge é enganador, como nota JOHN FELSTINER (Paul Celan. Eine Biographie (trad. alemã de Holger Fliessbach da obra Paul Celan: Poet, Survivor, Jew, New Haven, 1996), Verlag C.H. Beck, Munique, 1997. O título poder-se-ia traduzir como “Fuga sobre o tema da morte” (www.copernico.bo.it/subwww/webtodes/filehtml/tradtod.html).
(2) O passo “da liegt man nicht eng” poder-se-ia traduzir também por “aí não se está apertado” ou por “aí não estamos apertados”.
A expressão alude à teoria do “Lebensraum” (“espaço vital”), conceito da autoria de KARL HAUSHOFER (1869-1946), desenvolvendo as teses da geopolítica de FRIEDRICH RATZEL (1844-1904). Professor da Universidade de Munique entre 1921 e 1939, mestre da geopolítica, HAUSHOFER proclama a necessidade de um espaço vital, considerando a existência de uma injustiça na distribuição do mesmo, especialmente em benefício dos pequenos Estado (JOSÉ ADELINO MALTEZ, Curso..., pgs. 279-280). Um dos discípulos foi RUDOLF HESS, que viria a introduzir no nazismo a tese do “espaço vital” (ID., ib.).
A expressão “da liegt man nicht eng”, por oposição a “ein Grab in die Luft”, indica, primeiramente, a exiguidade do espaço, própria dos campos de concentração. É uma referência ao regime nacional-socialista, que precisa do espaço todo; o oiro dos cabelos de MARGARIDA afirmava-se negando o outro, destruindo até à cinza. Os judeus não têm espaço na terra.
(3) O homem vive na casa, protegido e cuidado, em oposição à vida brutal e desumana dos prisioneiros, no campo de concentração.
(4) A serpente é utilizada como símbolo do Mal nas culturais ocidentais; é uma alusão às runas dos SS.
(5) MARGARIDA é o símbolo da mulher alemã (infra).
(6) Referência à Blitzkrieg (guerra-relâmpago). HITLER e os seus colaboradores pretenderam seguir a teoria da estratégia indirecta do britânico BASIL LIDDEL HART: em vez de considerarem que a guerra só terminaria com a destruição das principais forças inimigas no campo de batalha (proposto nos modelos de KARL VON CLAUSEWITZ), trataram de propor a utilização conjunta da aviação e da cavalaria mecânica, visando a desmoralização do inimigo, mas sem o lançamento, no terreno de combate, das principais forças militares (JOSÉ ADELINO MALTEZ, Curso..., pg. 152). PAUL CELAN refere-se às “estrelas humanas”.
(7) Rüden são grandes cães, machos, de guerra ou de caça; refere-se à raça de grandes cães alemães (Bluthünde) das SS (outra possibilidade de tradução seria “grandes cães de fila” ou “molossos”). Segundo relatos de testemunhas, no caminho para a câmara de gás, quando certos prisioneiros tinham crises de pânico, os SS soltavam os seus cães para as despedaçar.
A ideia é a de o homem chamar para junto de si os cães.
(8) Existe uma rima imperfeita entre Rüden e Juden, bem como um um paralelismo entre seine Rüden e seine Juden, indicando um contraste entre os cães, chamados para junto do homem, e os judeus. Os Judeus são sua pertença, sua propriedade (“seine”), tal como os cães; contudo, têm estatutos diferentes: os cães são chamados ajudar homem, ao passo que os Judeus são chamados para serem destruídos.
(9) A leitura de PAUL CELAN é célere quando fala das atrocidades do homem, sugerindo a rapidez da execução (Paul Celan. Ich hörte sagen. Gedicthe und Prose. Gelesen von Paul Celan , Audio Books, Derhorvelag, 1997).
(10) Novamente a leitura de CELAN é mais rápida quando se refere às atrocidades do homem, sugerindo a rapidez da execução.
(11) O acusativo “in die Luft” indica uma progressão no ar.
(12) A leitura do poema pelo Autor indica uma pausa grande neste momento, daí o acrescento do travessão.
(13) PAUL CELAN, Paul Celan. Gedichte. In zwei Bänden, Erster Band, Suhrkamp Verlag, Francoforte sobre o Meno, 1975, pgs. 41-42; Sete Rosas Mais Tarde. Antologia Poética, Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno, edição bilingue, 2.ª ed., Cotovia, Lisboa, pgs. 52-57; Choix de poèmes. Réunis par l’auteur, trad. de Jean-Pierre Lefebre, ed. bilingue, Gallimard, Paris, 1998, pgs. 53-57; “Todesfuge”, de PAUL CELAN, in 1000 Deutsche Gedichte und ihre Interpretationen, Marcel Reich-Ranicki, Insel Verlag, Achter Band, pgs. 375-377.
(14) Paul Celan. Ich hörte sagen. Gedicthe und Prose. Gelesen von Paul Celan , Audio Books, Derhorvelag, 1997.

 
FONTE: REVISTA TRIPLOV

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Marina Tsvetáieva



























ENCONTRO


            Tradução de Décio Pignatari


Vou chegar tarde ao encontro marcado,

cabelos já grisalhos. Sim, suponho
ter-me agarrado à primavera, enquanto
via você subir de sonho em sonho.

Vou carregar esse amargo – por largo
tempo e muitos lugares, de penedos
a praças (como Ofélia – sem lamúrias)
por corpos e almas – e sem medos!

A mim, digo que viva, à terra, gire

com sangue no bosque e sangue corrente,
mesmo que o rosto de Ofélia me espie
por entre as relvas de cada corrente,

e, amorosa sedenta, encha a boca

de lodo – oh, haste de luz no metal!
Não chega este amor à altura do seu
amor... Então, enterre-me no céu!

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Paul Celan

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Um poema de Paul Celan traduzido por Flávio Kothe


CORONA

Da mão o outono me come sua folha: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar:
o tempo retorna à casca.

No espelho é domingo,

no sonho se dorme,
a boca não mente.

Meu olho desce ao sexo da amada:

olhamo-nos,
dizemo-nos o obscuro,
amamo-nos como ópio e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no raio sangrento da lua.

Entrelaçados à janela, olham-nos da rua:

já é tempo de saber!
Tempo da pedra dispor-se a florescer,
de um coração palpitar pelo inquieto,

É tempo do tempo ser. É tempo.
 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Caosgraphia: Quá-quá-quá em tablete meio amargo

Caosgraphia: Quá-quá-quá em tablete meio amargo: Quá-quá-quá em tablete meio amargo Atravesso uma quadratura aquátil palafitas             ...

János Pilinszky
























Uma das grandes vozes poéticas húngaras do século XX, János Pilinszky (1921-81), em tradução de Nelson Ascher.




Ravensbrücki passió

Kilép a többiek közűl,
megáll a kockacsendben,
mint vetitett kép hunyorog
rabruha és fegyencfej.

Félelmetesen maga van,
a pórusait látni,
mindene olyan óriás,
mindene oly parányi.

És nincs tovább. A többi már,
a többi annyi volt csak,
elfelejtett kiáltani
mielőtt földre roskadt.


Paixão de Ravensbrück

Sai das fileiras e detém-
-se no silêncio carregado.
Vibram, como no écran, seu crânio
raspado e as roupas de forçado.

Está medonhamente só.
Podem-se ver seus poros. Tudo
de seu parece tão imenso.
Tudo de seu – tão diminuto.

Apenas isto. Quanto ao resto,
o resto, nada singular,
foi, antes de cair por terra,
ter se esquecido de gritar.

Fonte: Revista Dicta & Contradicta

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Tristan Corbière






































I  SONNET 

AVEC LA MANIÈRE DE S’EN SERVIR

Réglons notre papier et formons bien nos lettres:
Vers filés à la main et d’un pied uniforme,
Emboîtant bien le pas, par quatre en peloton;
Qu’en marquant la césure, un des quatre s’endorme...
Ça peut dormir debout comme soldats de plomb.

Sur le railway du Pinde est la ligne, la forme;
Aux fils du télégraphe: - on en suit quatre, en long;
À chaque pieu, la rime - exemple: chloroforme.
- Chaque vers est un fil, et la rime un jalon.

 Télégramme sacré – 20 mots. – Vite à mon aide...
(Sonnet – c’est un sonnet –) ô Muse d’Archimède!
- La preuve d’un sonnet est par l’addition:

– Je pose 4 et 4 = 8! Alors je procède,
En posant 3 et 3! – Tenons Pégase raide:
“Ô lyre” Ô délire! Ô…” – Sonnet - Attention!

                                      Pic de la Maladetta. – Août


I  SONETO

ACOMPANHADO DO MODO DE USAR

Pautar a folha e caprichar na letra:

Versos fiados à mão e de um pé uniforme,
Marcando o passo, quatro a quatro, em pelotão;
Indicando a cesura, eis que um deles dorme...
Soldado de chumbo, ele dorme em posição.

Sobre o railway do Pindo está a linha, a forma;
E nos fios do telégrafo:   são quatro, acima;
Em cada poste, a rima – um exemplo: pro forma.
Cada verso é um fio, cada estaca uma rima.

– Telegrama – 20 palavras. – Tu vens e medes
(Soneto – é um soneto –), ó Musa de Arquimedes.
 A prova do soneto é uma adição;

– Soma-se 4 e 4 = 8! E logo em seguida
Soma de 3 e 3! – Manter Pégaso à brida:
“Ó lira! Ó delírio! Ó...” – Soneto – Atenção!

                           Pico da Maladetta. – Agosto


In CORBIÈRE, Tristan. Os amores amarelos. Introdução, tradução e notas de Marcos Siscar. São Paulo: Iluminuras, 1996. p. 60-61